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Refugiada desde bombardeio, banda iraquiana usa o heavy metal como terapia

Integrantes da banda iraquiana Acrassicauda, que vivem nos Estados Unidos - Don Emmert/AFP Photo
Integrantes da banda iraquiana Acrassicauda, que vivem nos Estados Unidos Imagem: Don Emmert/AFP Photo

De Nova York (Estados Unidos)

25/05/2015 17h10

Com seu lar destroçado por anos de guerra, um grupo de músicos iraquianos encontrou no heavy metal uma forma terapêutica de descarregar seus sentimentos de fúria.

"Não queríamos carregar armas e sair atirando nas pessoas. A violência realmente nunca foi a solução", diz Marwan Hussein, baterista e letrista da banda Acrassicauda.

Em vez disso, o metal os brindou com uma "forma agressiva passiva na qual podemos fazer ouvir nossas vozes", explica.

Acrassicauda esteve na vanguarda da cena do metal que nasceu em Bagdá após a invasão americana em 2013, atraindo os jovens cujo sofrimento era muito mais intenso do que o enfrentado pela classe média fanática do Ocidente.

Mas, como no Iraque, o caminho trilhado pelo grupo foi dolorosamente lento.

A banda fugiu do Iraque após seu espaço de ensaio ser bombardeado. Mas neste abril —vivendo em Nova York e quase 15 anos após a sua formação original— o Acrassicauda acaba de lançar "Gilgamesh", seu primeiro álbum de estúdio.

O vocalista Faisal Mustafa assegura que o heavy metal é como uma "terapia", porque permite descarregar os sentimentos de raiva de uma forma socialmente aceitável.

"Você pode expressar esses sentimentos através da música, desde sua alma. E uma vez liberada no palco, essa raiva define quem você é", explica.

Herança iraquiana

"Gilgamesh" mostra a influência de bandas como Metallica, Slayer e Testament, cujo guitarrista Alex Skolnick co-produziu o álbum.

O disco é obliquamente político. O título refere-se ao texto épico mesopotâmico geralmente considerado a primeira obra de literatura, uma saudação ao rico passado iraquiano e à continuidade.

As letras —em inglês, que os membros da banda falam com perfeição— tratam de temas tais como o renascimento e a busca da liberdade, mas tudo emoldurado em imagens mitológicas e não em política contemporânea.

Os membros do Acrassicauda —nome latino de um escorpião preto comum no Iraque— insistem que a música fala por si e se recusam a comentar a atualidade iraquiana.

"Sempre dissemos que não queremos ser uma banda política", diz Marwan. "Eu não diria que a política arruinou nossas vidas, mas de alguma forma arruinou a vida de muitas pessoas."

De roqueiros a refugiados

Acrassicauda fugiu do Iraque em 2006, após ameaças persistentes e acusações que vão desde serem adoradores de Satanás até de espalharem valores ocidentais degenerados.

Mas os integrantes da banda se consideram pessoas de sorte. Não foram feridos no ataque ao porão onde ensaiavam e ganharam fãs depois do documentário americano-canadense "Heavy Metal em Bagdá", apresentado em vários festivais de cinema.

Desta forma, o Vice, o grupo de mídia por trás do filme, buscou apoio para os membros da banda quando estes fugiram para a Síria e depois para a Turquia e, finalmente, no início de 2009, para os Estados Unidos, onde não tem sido fácil manter uma carreira musical sustentável.

"As oportunidades existem, mas temos que trabalhar muito mais duro do que pensávamos. Todos nós trabalhamos em restaurantes, prestando serviços de alimentação, em todos os tipos de merda, porque queremos fazer música", ressalta Hamawandi, o guitarrista.

"Sonhos a longo prazo"

Em 2010, Acrassicauda lançou um EP —"Only the Dead See the End of the War"— e realizou uma turnê pelos Estados Unidos, abrindo um show da popular banda Ministry.

Mas os custos de realizar um álbum completo continuavam sendo proibitivos.

Finalmente, apelaram ao site de coleta de fundos Kickstarter, o que lhes permitiu arrecadar o dinheiro suficiente para lançar de forma independente o álbum, que é vendido no site do grupo.

Apesar de falarem em política, os músicos têm um único forte desejo: voltar a tocar no Iraque.

"Precisamos de 15 anos para fazer um álbum e poderia levar outros 15 anos para voltarmos a tocar no Iraque. E eu poderia estar tocando a bateria no fundo de uma cadeira de rodas com uma máscara de oxigênio", diz Marwan. "Mas acredito que a história desta banda é sobre sonhos a longo prazo. Sempre há luz no fim do túnel".