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Criolo volta ao estúdio e diz que precisa aprender a se expressar melhor

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

12/08/2014 07h05

O cotidiano das quebradas, cantado com lirismo, sempre foi o grande trunfo de Criolo --mesmo que, há quatro anos, ele estivesse decidido a se aposentar da batalha pelo microfone de cada dia. "Velho, eu precisava arrumar trampo de algum bagulho, né? Tem que pagar luz, comida, vestir", diz ele, por telefone, ao UOL

Passado o momento de hesitação, Criolo está novamente em um estúdio em São Paulo para gravar seu novo disco, com a mesma turma que ajudou a dar a "Nó na Orelha", seu segundo álbum, uma aura de clássico contemporâneo. Pilotado pelos parceiros Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, o disco lançado em 2011 colocou o cantor em um caminho mais popular. O reconhecimento veio da torcida fanática nas grades dos shows, sempre lotados, mas também de uma claque mais VIP.

Criolo já dividiu o palco com Ney Matogrosso e Caetano Veloso, compôs para Gal Costa, chamou atenção de Chico Buarque ao modernizar "Cálice" e, agora, celebra uma nova amizade nos palcos. A vontade de cantar as canções do paulista fez com que Milton Nascimento convidasse o rapper para uma série de shows. "Procuro pensar que são pessoas que eu conheci na vida e que gostam de mim e eu gosto delas. Se você parar para pensar na obra de cada uma delas, é capaz de você ficar mudo", ele observa, reforçando sua simplicidade.

No palco, a conexão de Criolo é direta com o público, mas a clara compreensão nem sempre encontra o mesmo eco nas entrevistas. O assunto pode ser Copa do Mundo, política, a cidade de São Paulo: para ele, as questões vêm em camadas e, como se seu pensamento fosse sempre musicado, costuma lançar mão de analogias para responder ("Falam de todas as cores de azul, mas são as cores de azul que te mostraram. Se você quiser criar uma cor de azul, vamos ver se vão aceitar", ele devolve sobre as eleições presidenciais).

Em entrevista a Lázaro Ramos no programa "Espelho", do Canal Brasil, Criolo acabou virando meme na internet ao digressionar sobre a emergente classe C brasileira. As analogias sobre os mais variados tipos de leite viraram piadas na mão dos internautas. Dessa vez, ele diz que as pessoas estão certas em fazer troça: "Eu realmente preciso aprender a me expressar melhor".

UOL - Você compôs recentemente uma canção com Milton Nascimento chamada "Dez Anjos". Como aconteceu essa parceria?
Criolo - Nós fizemos, mas não vamos cantá-la. Essa canção foi concebida para o disco da Gal [Costa]. A Gal pediu uma canção para o Milton [Nascimento] e o Milton me pediu um texto e musicou. Nós íamos cantá-la no Palácio das Artes [em junho, em São Paulo], mas aí a gente pensou bem e vamos deixar a Gal cantar primeiro, depois a gente canta. Fala um pouco do nosso cotidiano.

E a amizade com o Milton?
Quem me apresentou ao Milton foi o Ney Matogrosso no Prêmio da Música Brasileira, há dois anos. Eu cheguei ali no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, estava o Ney e o João Bosco, que era o homenageado da noite pelos 40 anos de carreira. Começou a chegar muitas pessoas e o Ney falou: "Vamos ali para descansar e organizar as coisas". Era o camarim do Milton. Surgiu de modo natural. Primeiro ficamos amigos.

Milton Nascimento comentou que vocês montaram o show com apenas um ensaio e que tudo funcionou de uma maneira tão forte que vocês decidiram marcar novas datas.
Ele gosta de algumas músicas de "Nó na Orelha" e ele queria cantar. É uma parada que ele estava curtindo. Ele tem o álbum há um tempo já. Só não tinha rolado da gente se conhecer. Foi um pedido, uma ideia dele. Viramos muito colegas mesmo. O show é uma celebração de dois amigos que estão ali e querem dividir um pouco a felicidade desse encontro da vida. É um show bem despretensioso, é mais para celebrar nossa amizade. Ele canta a minha música, a gente canta junto. É a banda do Milton e eu sou convidado dele.

Criolo abraça Milton Nascimento no primeiro show da parceria, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Criolo abraça Milton Nascimento no primeiro show da parceria, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte
Imagem: Reprodução/Facebook

Você estourou para além do rap em um momento em que pensava na aposentadoria. Agora você tem uma parceria com Milton, já dividiu palco com Ney Matogrosso e Caetano Veloso. Como você encara ser abraçado por essa geração?
Cara, procuro pensar que são pessoas que eu conheci na vida e que gostam de mim e eu gosto delas. Então tudo se simplifica. Se você parar para pensar na obra de cada uma dessas pessoas, é capaz de você ficar mudo. Mas não é por esse caminho, é pelo caminho de amizade, e as coisas vão ficando mais leves.

Ao mesmo tempo que você é engrandecido por esses artistas, existe um movimento dentro do rap por um som sem concessões. Acredita que, estando ao lado desses artistas, você deixa o lado mais puro do rap de lado?
Na verdade eu nunca senti isso, não, cara. Eu tenho amizade com pessoas, né? Eu admiro essas pessoas antes de imaginar que eu ia escrever meus textos. Vai falar de Racionais, que eu ouço desde pequenininho, para quem vai fazer 40 anos como eu.

O Edi Rock, d'Os Racionais, comentou uma vez sobre os fãs xiitas...
(interrompe) Mas você não pode me comparar ao Edi Rock. Ele é um grande ícone da música brasileira, eu sou uma formiguinha.

Não é uma comparação...
(interrompe) Não é comparando. Estou te dando um parâmetro de quanto maior o lance, mais opiniões podem acontecer, mais divergências de ideias podem rolar. Estou muito pequenininho na frente desses caras.

E o disco novo?
Estou aqui no estúdio, inclusive.

Em que pé está?
Está no mesmo caminho.

A banda é a mesma?
A mesma turma. [Marcelo] Cabral e [Daniel] Ganja produzindo. O que a gente tem de interessante, rico e maravilhoso é que agora as outras pessoas da banda estão interagindo em muita coisa no disco, participando de arranjos. São músicos muito especiais. São grandes artistas, no sentido de concepção e criação.

O disco sai este ano?
No final do ano, se Deus quiser.

E nome, já tem?
Não. Pior que não. Não tenho a mínima ideia. Depois que todo mundo der a sua contribuição, aí vira uma coisa.

Quem é esse Criolo que volta ao estúdio agora?
É o Criolo que, se faltar água, vai ficar sem tomar banho, como todo mundo. Você sempre é a mesma pessoa, só que uma vez eu tive dez anos de idade, hoje eu tenho 40.

É a mesma pessoa, mas com vivências e experiências diferentes...
Sim, eu aprendo muito com essas pessoas que estão ao meu lado. Minha amizade de 21 anos com o DJ Dan Dan, todo dia ele me ensina coisas. [Sou] Cidadão comum, bicho. É que eu não desisti, né, leke? Quando eu achei que não ia dar mais, eu ainda... (suspiro). Eu não desisti, foi só isso.

E, no momento em que você queria aposentar, veio o "Nó na Orelha"
Inclusive eu fiz um DVDzinho, "Criolo Live in SP", em comemoração de 20 anos de carreira e reuni todos meus amigos que sempre me apoiaram. Eu não ia mais subir aos palcos. Velho, tem pessoas que estão me ajudando, o Cabral, o Ganja, meu pai estava aqui ontem. Muita gente me ajudou e estendeu a mão no "Nó na Orelha". Hoje eu estou tendo a felicidade de continuar nessa luta, e as pessoas ainda se dispõem em estarem comigo. É saber que não é só você. Você é parte de uma parada. É lógico que vem sua história de vida, o que você deseja, vem a história da sua mãe na cabeça, do seu sobrinho, você lembra do rolê que você pediu para cantar e foi conseguir às 7h da manhã quando já não tinha mais ninguém no baile. É muita coisa que passa pela cabeça. Ao mesmo tempo, saber que é uma fragilidade você querer subir ao palco, fazer um registro musical do seu texto, tudo isso mostra essa fragilidade que, na verdade, você precisa para se expressar. Tem tantas pessoas que conseguem se resolver e não precisam de palco.

Você precisa?
Não sei, cara. Estou conversando com você independente de ser uma entrevista ou não. De ser humano para outro ser humano. Estou só aproveitando esse momento.

Essa dúvida de parar nunca mais lhe ocorreu?
Não era dúvida, era uma certeza. Velho, eu precisava arrumar trampo de algum bagulho, né? Tem que pagar luz, comida, vestir, né? Você precisa de roupa no frio. Coisas normais do cotidiano.

Você duvidou, certa vez, se valia a pena lançar outro disco.
É que o "Nó na Orelha" me trouxe muita felicidade. Tem a necessidade de outra parada? [O álbum] Mostrou que eu era capaz de me comunicar, capaz de produzir coisas diferentes, ao mesmo tempo engrandecer e enaltecer meu berço, que é o rap. Qualquer coisa que acontecer agora, meu Deus do céu. Tudo que acontecer na carreira e na minha vida, seja a agulha no palheiro, uma folha que cai da árvore e somou no quintal, tudo é lucro. Eu morei em um porão. Se você assiste ao filme "Vidas Secas", parece meu pai e minha mãe vindo para São Paulo. Passamos fome. Falar de quem eu sou, de onde eu vim, esse é o grande lance da parada para mim. Pessoas que nem queriam falar sobre o rap, ter um pouco de respeito e entender que existe ali, naquele jovem, um escritor, que quer contribuir. Estamos sempre em construção. Isso aqui é uma passagem também, né? A gente é cobrado de muita coisa.

A canção "Não Existe Amor em SP" se tornou uma espécie de hino e provocou reações em pessoas que quiseram provar que, na verdade, existe amor na cidade. Hoje, após três anos, começa a surgir amor por aqui?
Todo mundo carrega em si um punhado de amor, mas que ambiente essa cidade proporciona para que esse amor não se torne frustração? Todo mundo é frágil e todo mundo é forte.

Em um ano em que a Copa do Mundo gerou controvérsia, que a presidente Dilma Rousseff foi xingada em estádios, e que uma eleição bem acirrada aponta logo mais, como você tem acompanhado tudo isso?
Vou te responder com uma colocação: você já reparou que currículo tem que ter foto? Isso já responde tudo, irmão.

Em que sentido?
Ué, o que importa realmente? Não sei, é uma questão que eu coloco para você. Você vai ter mil respostas. O que a sociedade está dizendo com isso? Isso vai se ramificando em mil situações.

Mas, na prática, como você vivencia essas questões?
A questão não é essa. Por isso que eu falo da foto no currículo. É algo que vem de antes, entendeu? Não adianta falar da cor do seu sangue, se você estava vendo que a bala estava vindo e eu não gritei para você pular.

Sua resposta não parece distante e um tanto negativa das questões concretas?
Não sei, cara. Se você andar na rua por 20 minutos, você vai contar, no mínimo, cinco moradores de rua. A vida é isso. Se eu fosse negativo, já teria me matado. Todo mundo quer esperança, um dia melhor. Você não nasceu para sofrer. Nasceu por uma situação, por uma conjectura, e você tem vida. Agora o que vai ser disso, se até o subjetivo é manipulado? Falam de todas as cores de azul, mas são as cores de azul que te mostraram. Se você quiser criar uma cor de azul, vamos ver se vão aceitar.

Sobre política...
(interrompe) Não quero exatamente falar sobre isso. É raso, né, cara? Isso aí é uma explosão de um marco que, até chegar esse marco, muita coisa aconteceu. O que que vem antes disso? Isso é um bagulho que está posto. Por que da necessidade disso tudo? Quem interveio, cada um com seu interesse, para ser como está hoje? É nesse sentido que eu falo, chega a ser inocente. É como eu querer debater sobre a plantação de determinado alimento e você está há quatro dias sem comer. Você não quer nem saber desse papo, você quer um prato com comida.

É algo que não está nivelado, então?
Lógico que não. Se você parar para pensar que escola pública no país só existiu por causa da revolução industrial, não tem muito o que ficar falando.

No começo do ano, você virou meme na internet com a entrevista para o Lázaro Ramos. Parece que ninguém entendeu suas respostas, ou, aparentemente, acharam engraçadas as associações que você fez. O que achou do caso?
Isso aí o pessoal está certo. Eu tenho muita dificuldade de me comunicar. Se eu estou ousando dar opinião de alguma coisa que me perguntaram, eu tenho que saber me comunicar o melhor possível. Eu poderia me omitir, é um direito meu.

Mas no palco sua mensagem chega direta, sem ruído.
Lógico. Até meu "bom dia" vai ser diferente do "boa noite". Passou-se o dia inteiro. Você é a mesma pessoa, mas você não sabe como está a latência da sua alma do dia para noite. Acho que isso é estar vivo, senão você é um robô, aperta um botão e tem a resposta ali, como uma calculadora. Eu não tenho proporção para o tamanho da parada, estou aprendendo. Eu realmente preciso aprender a me expressar melhor.