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De suruba com Yes a ladra de Alice Cooper: as loucuras da bio de Rita Lee

A cantora Rita Lee, que lançou autobiografia nesta quinta (16) em São Paulo - Ale Frata/Estadão Conbteúdo
A cantora Rita Lee, que lançou autobiografia nesta quinta (16) em São Paulo Imagem: Ale Frata/Estadão Conbteúdo

Do UOL, em São Paulo

18/11/2016 06h00

A paulistana Rita Lee Jones, ou a “maior roqueira do Brasil”, como ficou conhecida, já fez de tudo nesta vida de Deus do livre-arbítrio. E o clichê cai como uma luva aqui. Em seus 68 anos de vida, a cantora que nasceu no bairro da Vila Mariana protagonizou algumas das mais deliciosas historietas do universo “sexo, drogas e rock'n'roll” brasileiro.

Parte relevante delas, algumas descritas em tom quase mítico, está espalhada nas 296 páginas de “Rita Lee – Uma Autobiografia” (Globo Livros, R$ 44,90), lançada esta semana em São Paulo. Com uma escrita deliciosa, o livro usa de tom informal, que é a cara da autora, para dissecar memórias e loucuras editadas em formato de pílulas, ora anárquicas ora hilárias, sempre relevadoras.

Capa da autobiografia de Rita Lee, que traz o primeiro RG da cantora, datado de 1966 - Divulgação - Divulgação
Capa da autobiografia de Rita Lee
Imagem: Divulgação

Entre tantos casos e personagens, é árdua a tarefa de elencar os melhores momentos do livro. Mas vamos lá. Prévia 1: Rita Lee já namorou o chefão da gravadora PolyGram, André Midani. Foi ele quem bancou o primeiro álbum do grupo Tutti Frutti. Prévia 2: Ela já fez vigília em Londres para tentar tirar uma lasquinha dos Beatles, mas não foi bem isso que aconteceu.

Loucura (aí sim!) 3: Rita já ficou louca, mas tão louca de LSD após um show de Elton John na Inglaterra que acabou indo parar na cama com o ... Yes e suas groupies isso sem falar no dia em que ela maquinou o sequestro de Mouchie, nada menos que a cobra clássica usada por Alice Cooper.

Mentira ou verdade? No fim das contas, isso importa pouco. O livro é leitura obrigatória para quem teve ou gostaria de ter algum contato com o imaginário roqueiro. E não só com ele.

Leia abaixo sete aventuras contadas por Rita Lee em sua nova obra.

Tietando (ou tentando tietar) os Beatles em Londres

“Chuva, frio, terremoto, asteroide, nada abalaria a militância beatlemaníaca amontoada atrás de cordões de isolamento a poucos metros da porta do predinho da Apple, um tanto mixuruca pela fama que tinha. De repente, a onda humana se desloca para o estacionamento, de boca em boca a notícia de um Beatles saindo pela porta dos fundos. Os policias seguem junto segurando o comboio e, nessas, a porta da frente da Apple fica desimpedida, mais que depressa voo até lá e, gulosa, lambo a maçaneta (...) Pois bem, estava eu quase chegando à estação do metrô quando passa por mim um Rolls-Royce branco e vislumbro a cabeça de John Lennon no banco traseiro. Congelo no ato. Nem para correr atrás ou gritar fui capaz. Só consegui me consolar a possibilidade de aquele cabeça ser apenas da Yoko Ono.”

Expulsa dos Mutantes por não ter "calibre"

Rita Lee na época dos Mutantes - Reprodução - Reprodução
Rita Lee na época dos Mutantes
Imagem: Reprodução

“(...) minha saída dos grupo aconteceu bem nos moldes de ‘o noivo é o último a saber’, no caso, a noiva. Depois de passar o dia fora, chego ao ensaio e me deparo com um clima tendo/denso. Era um tal de um desviar a cara pra lá, o outro olhar para o teto, firular instrumento e coisa e tal. Até que Arnaldo quebra o gelo, toma a palavra e me comunica, não nessas palavras, mas o sentido era o mesmo, que naquele velório o defunto era eu. ‘A gente resolveu que a partir de agora você está fora dos Mutantes porque nós resolvemos seguir na linha progressiva-virtuose e você não tem calibre como instrumentista.’ Uma escarrada na cara seria menos humilhante. Em vez de me atirar de joelhos chorando e pedindo perdão por ter nascido mulher, fiz a silencisosa elegante. Me retire da sala em clima dramático, fiz a mala, peguei Danny (a cachorra) e adiós.”

Na cama com o Yes

“Impressionante como em cada esquina de Londres a gente encontrava um brazuca órgão do tropicalismo. Na rua dou de cara com Toninho Peticov, sempre animado e sabendo tudo o que rolava na cidade. A pedida para o dia seguinte era Elton John no Crystal Palace abrindo para o Yes. Hãã? Seria aquele o prato frio da vingança por ter sido expulsa da banda? Enquanto ‘os the brazilian Sim’ copiavam o som deles no Brasil, eu os assistia ao vivo em Londres. Na metade da apresentação de Elton, tomei uma pedrinha que foi bater nos primeiros acordes do Yes. Com LSD impossível não existe, não me pergunte como fui parar no palco sentadinho no maior flerte. Também não me pergunte como fui parar no camarim deles e muito menos acordar descabelada, plissada, godê numa cama rodeada de um monte de outros achados e perdidos humanos. Rita, quem diria, você groupie do Yes!”

Cobra de Alice Cooper "subtraída" por Rita Lee - Reprodução - Reprodução
Cobra de Alice Cooper "subtraída" por Rita
Imagem: Reprodução

Furtando a cobra de Alice Cooper

“Tudo porque uma hora lá ele entra no palco cachoalhando violentamente uma cobra e depois de fazer seu número de fodão, atira a bichinha no chão e pisoteia. Um contrarregra entrava na moita e a recolhia (...). Passei a lábia no segurança do backstage e entrei (...) De cara fui com a cara do roadie, um inglês chamado Andy Mills. Digamos que fomos com a cara um do outro e cinco minutos depois fugimos de lá levando a gaiola com a jiboia e de quebra outra jiboinha bebê que seria treinada também para atuar nas micagens grotescas do canalha. A cobra que foi maltratada no palco chamava-se Mouchie, aquela mesma que está na caba do disco ‘Killer’. A cobrinha bebê era Angel e adorava se enrolar de pulseira no braço dos humanos.”

Namorico com chefe da PolyGram

“Quem pensaria em montar o show de um disco-catástrofe [ ] que nunca saiu? Sim, eu e meu ego equivocado. Deu tão ruim que nem dos figurinos me lembro. Dizem que saí em turnê pelo Brasil a bordo de uma nau dos desesperados, a grana que entrava era fumada, cheirada, bebida e comida. Como Midani me deu uma nova chance depois disso, eu não sei. Mentira, sei sim, rolava um namorico. (...) Midani não desistiria tão cedo do meu ‘talento musical’, acredito que muito por causa do nosso casinho. A fim de domar minhas futuras, rebeldices, convocou uma mesa redonda junto a “peritos” de várias áreas do entretenimento para delinearem a futura imagem e semelhança  da próxima sensação da gravadora: eu.”

Aborto

“Já em casa, continuamos [Rita e Roberto de Carvalho] ‘fazendo amor no-chão-no-mar-na-lua-na-melodia-por-telepatia’ várias vezes ao dia e, claro, em pouquíssimo tempo embarriguei novamente. Gravidez extrauterina, disse o médico, a se pensar numa curetagem levando em conta a recente cesariana complicada ainda em fase de cicatrização. O que me fez decidir mesmo por interromper foi a hemorragia que aconteceu dias depois e pirei de vez. Mesmo já tendo abandonado a religião, entre no ‘mea-culpa’ catolicista e me autocondenei ao mármore do inferno. Até hoje me chicoteio pensando que talvez aquele baby poderia ter vingado, que foi um ato precipitado, que daquele momento em diante eu estaria condenada a lamentar a decisão para o resto da vida (...) Nenhuma mulher faz aborte sorrindo. Cabe a elas, e somente a elas, a decisão de interromper uma gravidez, assim como de segurar sozinhas as consequências moral, espiritual e oskimbau.”

As amigas Elis Regina e Rita Lee; de estilos diferentes, não havia competição - Reprodução - Reprodução
As amigas Elis Regina e Rita Lee; de estilos diferentes, não havia competição
Imagem: Reprodução

Grávida na cadeia, salva por Elis Regina

“Só pode ter sido manobra do meu Anjo da Guarda ter acontecido justamente no dia em que eu estava tendo um sangramento com cólicas insuportáveis (...) O perigo de aborto era real. Nada foi feito. Naquele exato momento, chega uma carcereira dizendo: ‘Rita Lee, chegou um artista famosa aqui na portaria e tá junto com o filhinho rodando a baiana querendo te levar de qualquer jeito’ (...) Céus quem seria essa santa porreta que me aparece exatamente na hora que eu mais preciso, Nossa Senhora das Roqueiras? Chego corcunda de dor na sala do delegado e quem vem me dar um abraço dos mais fofos que já recebi na vida? Elis, aquela que fazia cara feia para os roqueiros! Elis, a musa mor da MPB! (...) O delegadinho da vez, sem saber se pedia autógrafo ou enfiava a cara no apontador de lápis, fazia papel do falsinho atencioso, ora oferecendo cafezinho, ora perguntando sobre música. Elis ignorou o cara e disse em alto e bom som: ‘Se um médico não chegar em cinco minutos, você é que vai precisar de um cafezinho, porque eu vou convocar uma coletiva e denunciar o que está acontecendo aqui com minha amiga Rita Lee.’”

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