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"Bom poder existir sem necessariamente estar no Faustão", diz Samuel Rosa

Skank: Henrique Portugal, Lelo Zaneti, Samuel Rosa e Haroldo Ferretti - Weber Padua/Divulgação
Skank: Henrique Portugal, Lelo Zaneti, Samuel Rosa e Haroldo Ferretti Imagem: Weber Padua/Divulgação

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

26/11/2016 06h00

Muita coisa mudou desde que o Skank lançou seu foguete “Samba Poconé”, em 1996. O Brasil ainda era tetra, o sertanejo estava longe do topo e o PSDB comandava a Presidência da República. Mais: mamilos femininos se faziam onipresentes em nossa cultura pop.

Saudade? Você pode substituí-la por um show do Skank, por exemplo. A banda está em turnê tocando nove das onze faixas de seu álbum mais famoso. Neste sábado, (26) passa por São Paulo, com show no Audio Club. O ”pacote revival" inclui também o recente relançamento do disco em CD triplo, recheado de versões alternativas das músicas.

Todo esse clima de nostalgia, no entanto, não contamina Samuel Rosa. Os tempos são outros. “Na hora que eu vejo um Faustão habitado por Luan Santana e Wesley Safadão, penso: ‘Caramba, onde o Skank entraria? Será que nos reconheceriam?’”, indaga-se o músico, longe dos holofotes, em entrevista ao UOL.

Hoje, Samuel Rosa tem apego a pequenos e novos prazeres como músico. Um deles é perceber que seu público é menor e, segundo ele, muito mais interessado. “Acho que minha música tem algo a dizer e é relevante. Mas, na impossibilidade de estar na mídia, que bom poder continuar existindo”, afirma.

O que "não existe" para ele são as bandas de rock nacionais. Ao menos as que demonstram uma mínima parcela de autenticidade. “Vamos partir de que o rock seja sinônimo de transgressão, criatividade, loucura. Então, eu vejo muito mais rock'n roll em Miles Davis, que é um artista de jazz, do que em muita banda de rock brasileira”, define o vocalista, que se diz alheio a rótulos.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

UOL - “Samba Poconé” é o disco mais vendido do Skank. Mas o que ele de fato significa para a banda?

Samuel Rosa - É um disco marcante por vários motivos. Pela alta vendagem, de 2 milhões de cópias, ele foi bem representativo. Não só para o Skank, mas para todo o pop rock brasileiro. Talvez ele esteja entre os cinco mais vendidos do pop rock. Ele também mostrou para o Brasil e para o exterior a existência do Skank. Com a participação do Manu Chao, que sempre foi uma artista mais underground, mas de renome mundial.

É um disco que aborda racismo em “Los Pretos”, que tem música sobre o auge do movimento dos Sem Terra, que tem uma homenagem aos filmes dos estúdios Atlântida, às chanchadas. Isso tudo vender 2 milhões de cópias mostra como o Brasil era diferente naquela época.

Qual é a história mais insólita que a banda viveu com esse disco?

Lembro quando fomos para a Espanha, tocar em festival de música étnica. Duas indagações eram recorrentes. Uma era como o Manu Chao tinha ido parar no nosso disco e gravar três músicas nossas. As pessoas não entendiam que o Skank era famoso no Brasil, apesar de ser anônimo no exterior.

A outra: em alguns festivais, as pessoas perguntavam: “Vocês são brasileiros mesmo?”. Porque, apesar do som do Skank ser muito rítmico, a gente vivia aquela síndrome de quando o Buddy Holly foi tocar com os Crickets no Apollo [teatro do bairro do Harlem, em Nova York], e achavam que eles eram negros. As pessoas na Espanha e outros lugares tinham uma decepção: “Pô, não tem nem um tambor, um pessoal dançando no palco? (risos)

A capa do “Samba Poconé” tem a ilustração de uma mulher nua, assim como o clipe de “Garota Nacional”. Recentemente, a cantora Juçara Marçal teve um disco vetado no iTunes por trazer uma imagem semelhante. Retrocedemos?

Isso é curioso. Mas o iTunes é controlado pela sociedade americana, que é muito puritana e hipócrita. Lembro que a gente teve problemas com a MTV americana, que não passava o clipe de “Garota Nacional” porque tinha alusão ao nu, ainda que mostrasse só peito, que para eles é o que há de mais erotizado. Já existia esse questionamento naquela época. Não é de agora. Americano consegue produzir o pornô tipo “z” e, ao mesmo tempo, tem esse lado cheio de aberrações e incongruências, como a gente também tem.

O Skank sai um pouco da norma do que é ser uma banda pop ou popular. Ao longo da nossa história, a gente fez coisas legais e interessantes que não são exatamente próprias de uma banda pop. No Brasil, não pode ter um pouco de inteligência, tem que ser pop.
Samuel Rosa, vocalista do Skank

A revista “Rolling Stone” publicou recentemente uma capa classificando o Jota Quest como a maior banda pop brasileira, título bastante atribuído ao Skank. Independentemente de quem seja a maior, ainda faz sentido dizer que o pop hoje está em uma banda, e não em uma dupla ou cantor sertanejo?

Essa discussão é antiga. De tempos pra cá, senti que várias bandas querem se autoafirmar como “banda de rock” porque o rock virou sinônimo de excelência. Muitas querem se enfileirar no segmento para que isso empreste um pouco de credibilidade a coisas que na maioria das vezes são muito ruins.

Eu não me convenço da excelência de bandas no Brasil por elas se afirmarem como “rock'n roll”. Muitos desses que hoje vestem camiseta preta, se tatuam ou se proclamam rock, têm pouco de rock em sua essência.

Vamos partir de que o rock seja sinônimo de transgressão, criatividade, loucura. Se isso virou sinônimo de rock, OK. Então, eu vejo muito mais rock'n roll em Miles Davis, que é um artista de jazz, do que em muita banda de rock brasileira. Eu questiono os rótulos. Não quero ser rotulado. Rótulos paralisam. O Skank nunca se auto-intitulou nada. Somos uma banda em movimento.

Qual é o lugar do Skank na música de hoje?

É um lugar engraçado. Essa história de segmentos na música brasileira ficou muito polarizada. Hoje, o cenário não tem recheio. Ou você é muito pop, no pior entendimento da palavra, ou você é muito alternativo. Na hora que eu vejo um Faustão habitado por Luan Santana e Wesley Safadão, penso: “Caramba, onde o Skank entraria? Será que nos reconheceriam?”. Por outro lado, em outros canais mais alternativos, como o Canal Brasil, sempre vejo aquele menino do grupo O Terno, que por sinal adoro. Esse menino aparece mais que eu na televisão hoje! (risos)

Mas o Skank não tem do que reclamar. Temos shows marcados, cheios em sua grande maioria, e, com um público interessado. Nosso público hoje é mais específico, e aí entra o relançamento do “Samba Poconé”. São pessoas que de fato gostam do Skank. Não aquelas que dependem de uma música tocando no rádio.

Claro que eu também dependo [de estar na mídia], todo mundo depende. Até o Pink Floyd queria que a música deles tocasse no rádio. Mas é bom saber que eu posso existir sem necessariamente estar no Faustão ou num Canal Brasil. Eu gostaria de estar em todos! Não tenho nenhum preconceito.

Acho que minha música tem algo a dizer e é relevante. Mas, na impossibilidade de estar, que bom poder continuar existindo. Essa é a grande constatação do Skank nesse momento.

Eu tenho medo de falar sobre isso [política]. De ficar me apropriando muito de um discurso alheio. Eu sei que eu e o Skank viemos de uma classe favorecida, de uma “casta”.
Samuel Rosa

O Skank tem um histórico de músicas de cunho político, que dificilmente teriam espaço atualmente, mas muitas vezes esse discurso passava batido. Isso incomoda?

Várias coisas passam batido. A conexão das pessoas com a banda é como se fosse um degradê. Algumas não entendem. Às vezes por ignorância ou outras coisas mais importantes pra fazer na vida, o que eu não condeno. Às vezes por preguiça proposital. Muitos ignoram as coisas legais que orbitam na nossa história.

Lembro quando Manu Chao participou do disco do Marcelo Yuka, sobre os Sem Terra, e os jornais noticiavam isso com eloquência. Mas, espera aí, o Skank tinha feito isso dez anos antes, e ninguém fazia questão de lembrar! Eu entendo que, por preguiça ou intenção de não jogar muito confete, nego fala “ah, o Skank é banda pop de "Garota Nacional" e "É uma Partida de Futebol".

O Skank sai um pouco da norma do que é ser uma banda pop ou popular. Ao longo da nossa história, a gente fez coisas legais e interessantes que não são exatamente próprias de uma banda pop. No Brasil, não pode ter um pouco de inteligência, tem que ser pop. Mas o pop lá fora é genérico. Se o Damon Albarn sai do Blur e lança um disco solo, ele é pop. E disso saem coisas interessantes e relevantes. Talvez por isso as pessoas tenham uma leitura um pouco preguiçosa.

O próximo trabalho do Skank vai abordar nosso momento político convulsionado?

A gente já andou abordando isso. No nosso último disco, “Velocia” [2014], lançamos a música "Multidão”, sobre os protestos de 2013. Mas eu tenho medo de falar sobre isso. De ficar me apropriando muito de um discurso alheio. Eu sei que eu e o Skank viemos de uma classe favorecida, de uma “casta”.

Por outro lado, a gente nunca renunciou do direto de falar sobre várias coisas que nos afligem. Fizemos “In(dig)nação”, “Esmola”, “Pacato Cidadão”. Mas foi pontual. Porque a gente se recusava a fazer discurso panfletário. Claro que tem gente que acha que isso é uma forma de chegar até as pessoas de forma oportunista. Mas o Skank sempre teve pudor em relação a isso. Você vai, sim, encontrar esse tipo de letra nas nossas músicas, mas não como uma retórica, uma “cartilha do Skank”.