![]() |
PÁGINAS ESPECIAISSITES
![]() |
Terceiro Air é trilha para cabaré pós-moderno
Jan Fjeld O som psicodélico, os arranjos atmosféricos e os barulhinhos gostosos aqui e acolá continuam presentes no novo álbum, "Talkie Walkie" (Source/Virgin, 2004), da dupla francesa Air. O terceiro álbum reúne as características que deram certo nos dois trabalhos anteriores e, como costuma comprovar a história, se o terceiro for bom, a banda consegue se firmar no panteão do pop. "Talkie Walkie" é um álbum de gente grande.
No álbum, a dupla Jean-Benoít Dunckel e Nicolas Godin apresenta dez faixas que utilizam uma infinidade de instrumentos análogos e vocais filtrados. As músicas são intimistas, impressionistas. Os títulos dão as dicas: "Venus", "Universal Traveler" e "Surfing on a Rocket". Parece que Air faz música para um cabaré pós-moderno: um cabaré em que as pessoas ficam sentadas, confortáveis, sem ver nada, só viajando na fluidez do som. O álbum retoma o caminho do seu primeiro e aclamado "Moon Safari" (Source), lançado em 1998 e utiliza alguns dos acertos do segundo e mais experimental, "10.000 Hz Legend" (Source) de 2001. Como nos álbuns anteriores, o som do terceiro é melancólico, a produção continua cheia de camadas sintetizadas e as letras são bastante cifradas. O que há de diferente neste álbum é uma estranha calmaria, um uso mais acentuado de instrumentos não digitais (flauta, violão e harmônica), há menos experimentações e uma verve mais pop. Em "Talkie Walkie", não há tentativas, há acertos; os arranjos são primorosos, as dinâmicas nunca ultrapassam "mezzo forte" e é tudo muito bonito. No seu segundo álbum, "10.000 hz Legend", parecia que Dunckel e Godin sofriam de uma overdose de influência de Pink Floyd. No álbum novo, a principal influência fica por conta dos arranjos e sonoridades mais próximos ao outro gigante no mundo pop inglês, o grupo 10cc, que por sua vez se inspirava na produção pop rock anos 60/70 para o seu som meio irônico, altamente sintetizado e sempre muito pop. A música "Run" é sobre um amor que não deu certo. A menina sagrada (holy girl) está correndo do amante que conta a história. Como no clássico "I'm Not In Love", de 10cc, "Run" usa as mesmas técnicas tanto nos vocais como no fundo de teclados que acompanham a música, que mais parece um lânguido assopro. É ao mesmo tempo épica e intimista. A música "Surfing on a Rocket" traz um vocal que reverencia os arranjos de bandas pop dos anos 60 como The Hollies e The Yardbirds. Novamente, uma referência ao 10cc, cujo vocalista e guitarrista Graham Gouldman compôs um dos maiores sucessos dos Yardbirds, "For Your Love" em 1965. A letra de "Surfing on a Rocket" expressa a solidão, fala sobre um ser que está perdido no espaço e no tempo. É sintomático do clima do álbum. "Cherry Blossom Girl" é na mesma linha, mas há solos de flauta e um refrão que pergunta se a moça da flor da cerejeira vai fugir se seu amante tentar ser verdadeiro ("will you run away if I try to be true"). A dupla Dunckel e Godin, ambos compositores, produtores e músicos, nativos de Versailles, cidade próxima a Paris, fez os primeiros passos em direção a fama com músicas incluídas em coletâneas ou em EPs na categoria "nova música eletrônica francesa". Neste terceiro álbum solo, não há nada muito eletrônico e não há nada para a pista, é pop psicodélico para ouvir deitado. Ou melhor, deitado. E acompanhado. >> Visite o site da distribuidora da banda nos EUA, Astralwerks, e assista a um vídeo com comentários faixa a faixa da dupla.
|
| ||||||||||||||||||||||||||||||||