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30/09/2004 - 15h47
Björk usa vozes para criar o líquido negro de "Medúlla"

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Cinema




"Guided by Voices" é título de parte dos artigos estrangeiros sobre o quinto disco de estúdio de Björk. Seria o nome mais óbvio para esse álbum, mas obviedade passa longe do líquido negro de "Medúlla", que também significa essência. Para a cantora islandesa, essencial é a voz humana, despida de excessos. Quase tudo que a cantora de voz peculiar usou no álbum mais ousado lançado por uma grande gravadora em 2004 é apenas o som produzido por cordas vocais.

Além da própria Björk, há as vozes de Mike Patton (Faith No More, Fantômas), Rhazel (o "beatbox humano"), London Choir, Icelandic Choir, Robert Wyatt (ex-baterista do Soft Machine) e Tagaq, cantora esquimó canadense especialista numa técnica tradicional do norte do país, o "canto de garganta", um impressionante exercício de respiração e som quase "hiperventilante".

Um disco conceitual -e esse tipo de conceito adotado por uma artista pop- pode se converter em algo turístico, bobo ou despropositado. A exemplo de Matthew Herbert, Björk não cai nessa armadilha. Mesmo em "Sonnets/Unrealities XI", em que canta à capela, com o Icelandic Choir, o poema "it may not always be so; and i say" (1923), do americano e.e. cummings. Trata-se de uma operação arriscada, porque potencialmente pedante (vide o mal estar causado por Marisa Monte e Arnaldo Antunes com Eça de Queiroz), mas que aqui resulta simples e bonito, nada mais.

As vozes em "Medúlla" ganham reprocessamentos e produções inteligentes o suficiente para não transformarem os sons em meros objetos curiosos, em que o meio justifica o fim. Matmos e Mark Bell estão entre os produtores.

O que está em jogo é o universo ostensivamente onírico e delirante de Björk -a medula dele, cujo cerne está em "Where Is the Line"- que se desdobra em várias formas nesta era pós-"Homogenic" (1997).

Björk introduz o ouvinte ao mundo da música líquida com "Oceania", primeiro single do álbum, apresentada na abertura dos Jogos de Atenas, de letra singela ("vocês fizeram bem para si mesmos/ desde que saíram do meu abraço molhado/ e engatinharam até a costa") e de uma força estranha -é tão precisa quanto lânguida e se liquefaz.

A voz grave de Robert Wyatt é o motor da claustrofóbica "Submarine" e deixa o submarino mais pesado e inerte, que começa a se mover lentamente na água espessa em "Desired Constellation".

Rhazel e sua voz vibrante é o acompanhamento para a de Björk em "Who Is It (Carry My Joy on the Left, Carry My Pain on the Right)", de aspecto mais pop, próximo single, para cantar junto com os braços levantados e mãos caídas sobre o lado do rosto. "Pleasure Is All Mine" (ou "plécha", como ela pronuncia) abre o disco como uma canção de ninar ou de pesar -começo ou fim-, qualquer uma vinda do fundo do mar.

E a Bahia, quem diria, está em "Mouth's Cradle", cujos fantasmas de percussão dos carnavalescos Ilê Ayiê e Cortejo Afro se fazem ouvir ao longe na melhor música desse disco, que termina com "Triumph of a Heart", fértil matéria-prima para moldes mais sólidos (remixes), de resto como quase todo o álbum.

O sucessor do introspectivo "Vespertine" (2001) deve ser digerido lentamente, em várias audições, ao final das quais você pode se sentir "violently happy".

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