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01/04/2005 - 22h06
Tom Zé resgata vanguarda paulista com "homenagem" ao pagode

ANTONIO FARINACI
Editor de UOL Música


Em seu disco mais recente, "Estudando o Pagode - na opereta Segregamulher e Amor", o cantor e compositor Tom Zé, 68, apresenta uma opereta sobre a violência contra as mulheres e a massificação do pagode.

A conjunção dos temas é no mínimo inusitada, mas para esse compositor baiano, um dos precursores do tropicalismo, a combinação parece natural: "O pagode e a mulher têm em comum o fato de serem dois excluídos, e eles vêm reivindicar seus direitos nesta opereta", explicou o músico em entrevista exclusiva para a TV UOL.

Para o músico, tanto o gênero musical quanto as mulheres são segregados. Um, culturalmente, as outras, politica e sexualmente.

"Hoje, a condição do homem diante da mulher é a de um mendigo", diz. "O homem passou tanto tempo maltratando a mulher que hoje ela está acuada. Ele pode até seduzi-la, levá-la para a cama, fazer com que ela abra o seu corpo, mas não a sua alma", filosofa.

O disco apresenta uma insólita narrativa, que empresta sua estrutura em parte de óperas e em parte das tragédias gregas. O resultado remete aos espetáculos fortemente teatrais da chamada "vanguarda paulista", dos anos 80, capitaneada por Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção.

A semelhança fica ainda mais evidente com a participação "sete vezes especial" da cantora Suzana Salles, em sete das 16 faixas do disco. A cantora, uma das musas e maiores entusiastas do movimento, participou do disco seminal de Arrigo, "Clara Crocodilo", e integrou a célebre banda Isca de Polícia de Itamar.

"A Suzana entendeu tudo o que eu queria", elogia Tom Zé. De seu lado, a cantora explica que a indentificação com a linguagem musical e cênica de "Segregamulher e Amor" vem justamente de sua experiência anterior com Arrigo e Itamar.

Outra semelhança com a vanguarda paulista, fica por conta da mistura explícita de elementos de alta cultura e cultura de massa. No novo disco, Tom Zé pesca referências nas polêmicas teorias da antropóloga austríaca Riane Eisler, sobre como as sociedades matriarcais teriam sido substituídas pelo domínio patriarcal, mistura-as com citações à psicóloga Maria Rita Kehl, com o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, com o sambista paulistano Adoniran Barbosa e... com pagode.

Tom Zé garante que o disco não é "irônico" com relação ao pagode. "Eu estudei o gênero, ouvi pagodeiros, assim como estudei o samba quando gravei há 20 anos meu disco 'Estudando o Samba'. É uma homenagem", diz.

Na entrevista, o músico pediu ainda desculpas aos pagodeiros Netinho e Belo por declarações que deu à Folha de S.Paulo, e que teriam dado a impressão de que ele estava denegrindo o gênero do pagode.

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