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19/12/2005 - 19h51
Osvaldinho da Cuíca busca sonoridades perdidas do samba
RODRIGO SIQUEIRA Especial para o UOL

Nascido em 1940, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, mas criado na roça, em Poá, Osvaldinho da Cuíca é personagem que carrega uma boa parte da história do samba que se faz na capital paulista. Seja por ter ele mesmo protagonizado momentos inaugurais, ou por ser hoje um dos maiores conhecedores do samba de sotaque paulista.
Após voltar à cidade, em 1948, para viver na Zona Norte, começou a se interessar pelo samba ainda muito cedo. Já batucava na escola quando passou construir seus próprios instrumentos. "Naquela época os tamborins eram quadrados ou sextavados, de madeira, e o couro era pregado com tachinhas, os surdos eram feitos de barricas. Eu mesmo fazia todo tipo de instrumento", lembra Osvaldinho.
Foi a sua habilidade precoce no manejo dos instrumentos que o tornou um dos instrumentistas mais virtuosos do país. Em 1958, entrou para o cordão carnavalesco Garotos do Tucuruvi e logo em seguida iniciou sua carreira como músico profissional. Osvaldinho diz ser impossível lembrar qual a sua primeira gravação, pois na época gravava todos os dias, mas orgulha-se de ter gravado com alguns dos maiores nomes da música brasileira. "Fui do erudito ao popular", sublinha ele para acrescentar, "gravei com orquestras, com o Arthur Moreira Lima, gravei com o Ataulfo (Alves), com o Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Cartola, Geraldo Filme, Adoniran Barbosa, perdi a conta de tanta gente com quem gravei. Já gravei mais de 30 mil discos", brinca.
De 1967 a 1999, integrou, de forma intermitente, o grupo Demônios da Garoa, com o qual também fez diversas gravações. Artista inquieto, Osvaldinho da Cuíca não resumiu sua carreira às gravações e estúdios. Em 1972, entrou para a Vai-Vai, sua escola de coração, para colaborar para a sua definitiva transformação de cordão carnavalesco em escola de samba. "A batida dos cordões era mais pesada, com muito bumbo e caixa. Eu introduzi o pandeiro, o tamborim, criei uma ala de frigideiras, criei uma ala de cuícas. Mas foi difícil mudar." Também foi ele o responsável pela fundação da ala de compositores da Vai-Vai. Além de colaborar com sua escola do coração, ajudou a fundar duas outras agremiações: a Gaviões da Fiel e a Acadêmicos do Tucurivi.
Desde que a sua avó o ensinou, ainda criança, a batucar com colheres nas noites de lua, a sua "ficha corrida" de contribuições ao samba e à cultura popular ganhou tal vulto que, em 1974, Osvaldinho da Cuíca foi eleito o primeiro "Cidadão Samba" de São Paulo. "Foi o maior concurso de cidadão samba que já teve. Tinha muita gente boa, eu peguei a melhor safra. Na época eu era jovem, bom de samba, bom de perna, bom de compor e eu tive o privilégio de ser eleito o Cidadão Samba, disputando com grandes sambistas", orgulha-se.
Multi-instrumentista, Osvaldinho viajou por diversos países para mostrar o samba. Entre eles, França, Japão, Holanda e Rússia, onde comandou uma equipe de 90 sambistas da Vai-Vai, entre passistas e ritmistas.
Hoje, um pouco impaciente com a excessiva profissionalização e mercantilização do carnaval das escolas, Osvaldinho dedica-se a aprofundar suas pesquisas sobre as raízes do samba de São Paulo. Raízes que têm lastro no interior do Estado, com a influências dos sambas rurais, mas que também têm características urbanas que nem sempre são lembradas. Das rodas do Largo da Banana, onde hoje está o Memorial da América Latina, aos batuques promovidos na praça da Sé, "muita sonoridade foi se perdendo no caminho", lamenta.
Aos 65 anos, morador do bairro Cambuci e se recuperando de um câncer na garganta, mas com muita disposição, Osvaldinho recebeu a reportagem da TV UOL para mostrar como eram os velhos batuques paulistanos. Com uma caixa de engraxate, como as que eram comuns na praça da Sé e que ainda hoje podem ser vistas com garotos na cidade, e alguns outros instrumentos "heterodoxos", dá para perceber porque Osvaldinho da Cuíca é considerado um dos maiores instrumentistas brasileiros.
A vídeo-reportagem sobre Osvaldinho da Cuíca é o segunda da série de documentários sobre o samba paulista que a TV UOL preparou para o o Carnaval 2006. Os vídeos enfocam o mundo do samba da capital paulista, personagens das velhas guardas, preparativos das escolas para o Carnaval e também o que a nova geração tem feito para revitalizar e resgatar as peculiaridades e os sotaques do samba de São Paulo.
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