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16/02/2006 - 19h18
"Não sinto a menor culpa ao baixar algo da Internet", diz líder do Nada Surf

FERNANDO KAIDA
UOL Música


Dez anos depois de estourar com a faixa "Popular", presente em seu disco de estréia, "High/Low" (1996), o grupo Nada Surf enterra definitivamente a imagem de banda-de-um-hit-só com "The Weight is a Gift", que acaba de sair no Brasil.

O disco é o segundo do trio de Nova York pelo selo independente Barsuk, com quem passaram a trabalhar em 2002, após a saída da gravadora Elektra, devido ao fraco desempenho do segundo disco, "The Proximity Effect", de 1998.

"Temos sorte por termos uma segunda história", disse o guitarrista e vocalista Matthew Caws em entrevista a UOL Música sobre o caminho pouco comum de começar em uma gravadora grande para ir para uma menor. "Foi bom o rock estar em evidência nos últimos anos pois pudemos recomeçar". Além de Caws, tocam na banda o baxista Daniel Lorca e o baterista Ira Elliot.

Foi neste recomeço que surgiu o melhor trabalho da banda até agora, "The Weight is A Gift". Com uma sonoridade mais próxima de seu disco anterior, "Let Go", de 2002, o trio se distancia da música mais energética e, por um lado, adolescente, do início de carreira. "Nos primeiros discos, nós achávamos que tínhamos de agitar o tempo todo, como se fosse uma obrigação biológica", conta Caws.

Com canções de levada mais tranquila e melódica, o disco soa como uma mistura de indie rock e soft rock dos anos setenta. Mesmo sem um hit que possa repetir o sucesso de "Popular", nas 15 faixas do CD --quatro delas bônus que entraram na edição nacional--, o grupo soa mais coeso e melhor do que nunca. "Concrete Bed", "What is Your Secret?" e "All is a Game" são algumas das músicas que se destacam no repertório.

Em entrevista a UOL Música, direto de sua casa em Nova York, o cantor falou sobre "The Weight is a Gift", a turnê da banda pelo Brasil em 2004 --"vamos voltar com certeza", promete--, o hype em torno de novas bandas e sobre o download de músicas da Internet: "Não sinto a menor culpa ao baixar algo de qualquer lugar", afirma. Leia abaixo os melhores momentos da conversa.

UOL - "The Weight is a Gift" não parece o Nada Surf, se comparado com seu disco mais conhecido, "High/Low". Como você vê este novo CD dentro de sua discografia?
Matthew Caws - Acho que ele tem mais a ver com o disco anterior, "Let Go", de 2002, do que com os dois primeiros. Musicalmente ele tem o mesmo clima, no qual tentamos deixar as canções guiar que tipo de sonoridade o disco teria em termos de produção, etc. Nos primeiros discos, nós achávamos que tínhamos de agitar o tempo todo, como se fosse uma obrigação biológica. Mas descobrimos que às vezes você consegue agitar e outras vezes não. Em sua essência, "The Weight is a Gift" é um disco mais triste, mas as músicas são pra cima e felizes. Acho que é um disco bem positivo.

UOL - O que motiva você a escrever as letras?
MC - Muito do que escrevo é parte de uma visão abrangente de minha vida, como um dia ou uma semana. Para mim, escrever uma canção é como limpar a casa: sou eu tentando organizar as minhas coisas. É uma espécie de diário, no qual coloco coisas pelas quais estou passando. Muita coisa é escrita de maneira metafórica, já que não quero revelar explicitamente pelo que estou passando em minha vida pessoal. Porém, não acho que a maneira como me sinto sobre o que estou passando seja algo privado. Obviamente, gosto de contar como me sinto, caso contrário não escreveria canções por tantos anos. Se estou triste, posso me expressar através de uma canção. Você tira algo de si mesmo e coloca neste pacote de três minutos. É uma espécie de exorcismo. Sempre termino me sentindo melhor. E é mais barato que o terapista.

UOL - As novas músicas têm uma sonoridade mais suave e é bastante melódico. Foi algo intencional?
MC - Não foi intencional. Toda vez que fazemos um disco, aprendemos um pouco mais sobre o que gostamos. A verdade é que não sabíamos o que estavamos fazemos em "The Weight is a Gift". Eu gosto muito quando a música faz você se sentir bem fisicamente, como um disco do Fleetwood Mac, com aquele som pop de FM dos anos 70. Busco uma satisfação imeditada na música que eu ouço ou na que faço. Seja agitar você, fazer querer dançar ou dar vontade de comer um doce.

UOL - O que você ouvia durante a gravação do disco?
MC - Tenho ouvido basicamente rap nos últimos anos. Não gosto de 99% do hip hop atual, mas do 1% que sobra eu ouço muito nomes como Bennie Siegel, Jay-Z e Nas. Como eu ouço muito rock, de tempos em tempos passo a escutar outras coisa para dar um tempo aos ouvidos. Também faço isto para não ficar imune a grandes discos de rock, que de repente podem não me dizer nada. Há alguns nomes que estão em nosso selo, Barsuk, dos quais gosto bastante. Um deles é John Vanderslice. A produção de seus discos lembra uma combinação inusitada de Beach Boys e Justin Timberlake. Mas não no jeito de Timberlake cantar, e sim no som dos produtores como Pharrel, que gravam com ele.

UOL - Vocês tocaram aqui em 2004. Do que você se lembra da turnê?
MC - Foi sensacional. Quando nos convidaram para tocar aí, nós pensamos: "Ok, ótimo, vamos ao Brasil, mas quem estará nos shows?". Eu esperava umas 200 pessoas, mas eram 800 que sabiam todas as letras. Foi uma das melhoes experiências que tivemos. Foram grandes apresentações.

UOL - Vocês já foram convidados para voltar?
MC - Sim, com certeza! Só não sabemos ainda quando será possível. Vamos voltar, mas temos muitos lugares para tocar.

UOL - Além de ter um site, a banda também tem uma página no site de relacionamento myspace.com. Como vocês utilizam a Internet para promover a banda?
MC - Os shows no Brasil foram uma prova de como a Internet pode ajudar, pois foi lá que as pessoas conheceram as músicas. Às vezes eu escrevo no diário (do site), mas não controlamos muito o que acontece na Internet, além de atualizar o site. Eu comprei um iPod recentemente e andei baixando umas músicas no iTunes. Há tempos atrás, eu baixava músicas no Napster. Acho que discos são muito caros. Eu já gastei muito dinheiro comprando discos. Particularmente não sinto a menor culpa ao baixar algo de qualquer lugar.

UOL - Então você não se importa se alguém baixa seus discos
MC - Nem um pouco. Não tem o menor problema. O que for mais fácil para você curtir a música. Se alguém está interessado em um disco, filme ou livro, isto é positivo. Se você tem dinheiro, acho que deveria comprar discos, mas se não tiver, faça o que puder para curtir. Seria triste cortar o entusiasmo da pessoa por causa do dinheiro. Siga aquilo pelo qual está interessado.

UOL - Hoje em dia a banda é maior nos Estados Unidos do que na época em que vocês lançaram seu primeiro disco, "High/Low", que trazia a canção "Popular", seu maior hit até hoje?
MC - Aquele disco vendeu bastante, mas em termos de público temos muito mais gente vindo aos shows hoje em dia. Além disso, na primeira turnê havia muita gente que aparecia por causa de uma música só. Agora, as pessoas conhecem várias. Em fevereiro, quando formos para Los Angeles, será a terceira vez seguida que tocaremos em lugares com maior capacidade do que na vez anterior. É ótimo ver isso acontecendo em nosso país após 10 anos.

UOL - Vocês ainda têm de tocar "Popular" nos shows?
MC - Não muito. Uma ou duas pessoas pedem. O engraçado é que há pessoas que vêm ao show e não querem ouvir essa música de jeito nenhum. Tipo estes garotos indies que ficam falando: "não toque isto!". No final, nós ignoramos todo mundo e fazemos o que temos vontade. Ela é uma boa canção.

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