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24/03/2006 - 09h40
Medeski, Martin and Wood improvisa, experimenta e recebe uivos de aprovação
RODRIGO BARRADAS Editor de UOL Diversão e Arte

Não é à toa que o contrabaixista Chris Wood, em entrevista ao UOL, afirmou seu otimismo em relação à cena jazzística norte-americana atual. Com 15 anos de estrada e uma boa dezena de álbuns em seu currículo, sua banda principal, Medeski, Martin and Wood, é capaz de levantar um público de maneira difícil de ser igualada por seus contemporâneos do (vá lá) jazz.
Wood diz isso com uma ponta de vingança. Afinal, quando seu trio começou a produzir, no início dos 90, o conservadorismo da geração que se convencionou chamar de young lions dominava o jazz. MMW e seus colegas de espírito, como Marc Ribot e Dave Douglas, comiam pelas beiradas. Hoje, a indústria do jazz tradicional vive uma indigência jamais experimentada, e os músicos buscam saídas. "Vejo que os tradicionalistas daquela época estão procurando formas mais criativas", diz o baixista.
E não é para menos. O segundo show do trio nova-iorquino na excursão deste ano pelo Brasil lotou o Bourbon Street com o tipo de público que a indústria fonográfica mais persegue: jovens, entre os 20 e os 30, interessados por música o suficiente para, de fato, comprar discos.
Essa já é uma tradição no trabalho de MMW. Em 1996, com o lançamento de seu disco mais popular, "Shack-Man", o trio firmava posição como, possivelmente, o grupo de (vá lá de novo) jazz mais popular entre jovens nos EUA. Sua mistura de transe, psicodelia, funk e soul jazz teve apelo imediato entre os universitários que escutavam drum and bass, trance e os sons das jam bands como Phish, que, na trilha do Grateful Dead, misturavam rock com todo tipo de material que proporcionasse longas improvisações que abastecessem tanto o corpo quanto a mente.
O notável é que, se bandas como Phish mantiveram entre seus ouvintes essencialmente aquelas mesmas pessoas de meados da década passada, o MMW segue atraindo gente que tem 20 anos agora, em 2006. Em vez de escutar trance e drum and bass, essas pessoas se dedicam, hoje, a outras formas de música eletrônica e, especialmente, ao hip hop, com os quais o MMW mantém a mesma tênue relação que estabeleceu com os sons mais populares dos anos 90.
Dito apenas dessa forma, pode parecer que o trio faz concessões a estilos mais em voga para obter sucesso. Mas quem estava presente ao show do Bourbon dificilmente chamaria o som da banda de oportunista ou comercial. O que se viu foi um público jovem - junto com os fãs dos anos 90 e aqueles de todas as idades que apreciam improvisos e invenções - reagir a um som na melhor tradição experimentalista do jazz como se estivesse assistindo Franz Ferdinand, TV on the Radio ou DJ Shadow.
No início, John Medeski (teclados), Billy Martin (bateria e percussão) e Chris Wood (baixo acústico e elétrico) testaram a paciência desse público. Foi quase uma hora de pequenos ruídos de teclado e percussão (sempre com a âncora fiel do baixo de Wood) explosões improvisadas ad lib e experimentalismos à Cecil Taylor inseridos no repertório menos acessível da banda. Nas raras oportunidades de se divisar alguma melodia cantável, a banda apresentou uma tela em que a audiência buscou adivinhar (ou projetar) a música de que se tratava. Entre as possibilidades ouvidas entre a platéia (e expressadas), estiveram Peter Tosh ("Legalize It"), PJ Harvey, Bobby Timmons ("Moaning"), Tom Jobim ("Garota de Ipanema"), Ray Charles ("What'd I Say") e outras que este repórter não teve a oportunidade de ouvir.
Quando estava quase no ponto de perder o público, com a conversa chegando num tom mais alto e muitos recorrendo ao bar, o grupo mostrou a experiência adquirida com muita estrada (muita mesmo: os integrantes já chegaram a vender seus apartamentos porque passavam todo o tempo morando dentro de uma van). Atacou com o tradicional gospel "Is There Anybody Here that Loves my Jesus", que abre o seu disco mais popular, "Shack-Man", de 1996.
A partir desse momento, e por quase todo o tempo que se seguiu ao intervalo, a banda não abandonou mais o groove, ora relaxado, ora mais frenético. O público respondeu com evidente empatia, especialmente nas outras duas faixas de "Shack-Man" apresentadas.
No bis, com a catarse já instalada entre o público, a banda misturou "Bemsha Swing", de Thelonious Monk com "Lively Up Yourself", de Bob Marley, em versão acústica, antes de embarcar numa bela melodia, bem calma, que foi morrendo aos poucos e preparando a platéia para, depois de duas horas e meia (o show se iniciou por volta das 23h e encerrou à 1h30), voltar para casa.
Como se não bastasse a ótima experiência estética que foi o segundo show de MMW no Brasil em 2006, a noite ainda valeu, portanto, por sua dimensão comportamental. Afinal, não é sempre que se vê improviso e experimentação no palco conviverem com uivos de aprovação, camisetas de Raul Seixas e meninas se beijando na platéia.
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