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19/05/2006 - 20h11
Teenage Fanclub volta às origens com sétimo disco "Man-Made", que chega ao Brasil
FERNANDO KAIDA Editor-assistente de UOL Música

Depois de mais de 15 anos de uma bem-sucedida carreira que rendeu alguns discos fundamentais do indie rock britânico, como "Bandwagonesque", de 1991, e "Grand Prix", de 1995, os integrantes do Teenage Fanclub passaram por uma situação semelhente a de quando estavam começando. Como aconteceu com sua estréia, "Catholic Education", de 1990, os músicos bancaram do próprio bolso a gravação de seu mais recente trabalho, "Man-Made", lançado em 2005 e disponível agora em edição nacional pela Slag.
O disco, sétimo da carreira do grupo, saiu pela própria gravadora da banda, Pema. Em entrevista a UOL Música, o cantor e compositor Norman Blake afirma que, com o próprio selo, agora os músicos têm "total liberdade artística" para fazerem o que quiserem. "Assim que terminamos (o disco), ele pertencia apenas a nós", afirmou sobre as vantagens de lançar seu próprio trabalho.
Primeiro álbum em cinco anos, "Man-Made" foi gravado em Chicago no estúdio de John McEntire, integrante do grupo Tortoise, conhecido por suas mistura de rock, pop, improviso e experimentalismo eletrônico. Apesar do encontro inusitado para os padrões musicais dos escoceses, o disco mantém a sonoridade que deu fama ao Teenage: belas canções pop rock que bebem nas melodias de nomes como Byrds, Big Star e Neil Young. "Provavelmente este é nosso disco mais bem gravado", contou Blake sobre a parceria com o norte-americano.
"Man-Made" tem ainda outra similaridade com o começo da carreira da banda. O CD marca a volta do baterista original Francis MacDonald à formação, que conta ainda com Norman Blake, Gerard Love e Raymond McGinley.
Veja abaixo os melhores momentos da entrevista com Norman Blake, do Teenage Fanclub:
UOL - Por que vocês decidiram criar seu próprio selo após mais de 15 anos com a banda?
Norman Blake - Nós consideramos algumas opções. Uma delas era lançar o disco pela Domino Records, mas começamos a pensar em como seria simples, logisticamente, montar nosso próprio selo. Conversando com o pessoal da Domino e alguns distribuidores, decidimos que seria melhor fazer as coisas sozinhos. E tem sido ótimo. Há muito trabalho envolvido na criação de uma gravadora, mas depois de tudo acertado, temos total liberdade artística para fazermos o que quisermos, quando quisermos. Isso é realmente bom.
UOL - Como foi gravar o disco por conta própria hoje em dia?
Blake - Nós tivemos de pagar tudo do nosso bolso, o que torna o processo mais difícil. Ao mesmo tempo, assim que terminamos ele pertencia apenas a nós mesmos. Nós tivemos essa experiência no passado, quando gravamos nosso primeiro disco ("A Catholic Education", de 1990). Nós pagamos por ele e então fomos procurar um selo que quisésse lançá-lo. É uma situação similar.
UOL - Mas hoje em dia muita gente conhece a banda, então não faz diferença se vocês lançam o disco por uma grande gravadora ou por um selo independente
Blake - Obviamente as coisas mudaram na indústria musical. Há mais pessoas baixando música da Internet e acho que há menos pessoas comprando discos. Ainda assim, acho que temos sorte. Continuamos a ter uma base de fãs razoável que compra nossos discos.
UOL - Qual é a sua opinião sobre o download de músicas?
Blake - Se uma pessoa não tem dinheiro e baixa nosso disco, eu não ligo. Você não pode esperar que ela pague por isso. Mas se alguém tem dinheiro, pelo menos na minha perspectiva, eu sempre tentaria comprar o disco, mesmo que seja um download pago. Eu sou um músico e sei como é difícil fazer dinheiro. Nós temos de comer, pagar o aluguel, sustentar a família. Se as pessoas podem pagar pelo download, elas devem fazer isso.
UOL - Você percebe um aumento do número de fãs do Teenage Fanclub graças a essas novas tecnologias?
Blake - Acho que sim. Estamos nisso desde antes da Internet. Me lembro de que em nossa primeira turnê (no início dos anos 90) o agente tinha um telefone celular e aquilo foi um marco tecnológico para nós. Hoje as pessoas têm maior acesso a uma banda. Pessoas dos mais diferentes lugares entram em contato conosco pelo site. Tenho certeza de que antes da Internet eles não teriam acesso a nossa música.
UOL - Vocês pretendem lançar discos de outros grupos em seu selo?
Blake - Sim, já temos quatro lançamentos nossos: um álbum, dois singles e um compato com dois covers de músicas de Daniel Johnston que gravamos com Jad Fair. Nós queremos experimentar com nossos próprios discos antes de comercializar as músicas de outra pessoa, pois não queremos desapontá-la.
UOL - Há alguma banda que vocês gostariam de lançar?
Blake - Sim, há alguns bons nomes em Glasgow. Tem uma banda que estará no Brasil daqui a umas duas semanas chamada 1990s. Eu gravei o primeiro single deles, que será lançado pela Rough Trade. Acho que vou gravar o disco aqui em Glasgow. Eles são um grupo fantástico. Parece que eles vão ficar uma semana em São Paulo para fazer alguns shows, os primeiros deles fora do Reino Unido.
UOL - O novo disco, "Man-Made", contou com John McEntire, do Tortoise. Como foi trabalhar com ele?
Blake - Ele gravou o disco, mas nós acabamos produzindo. Ele disse: 'Eu posso gravar, mas vocês estão nisso há tanto tempo que não vou dizer o que vocês devem fazer com seu disco'. Ele é um engenheiro de som fantástico e um cara ótimo. Temos uma relação muito boa com ele. Inicialmente, ele viria gravar aqui em Glasgow, mas disse que conseguiria um bom preço para fazer o disco em Chicago, então passamos algumas semanas lá. Provavelmente é nosso disco mais bem gravado
UOL - Quando vocês entraram no estúdio, já sabiam o que queriam para o disco?
Blake - Nós tinhamos algumas canções prontas, mas não as letras. Costumamos escrevê-las no estúdio. Sempre temos uma idéia do que vamos fazer antes de entrar no estúdio. Começamos razoavelmente preparados. Não diria 100%, mas uns 65% preparados.
UOL - Como você vê "Man-Made" na discografia do Teenage Fanclub?
Blake - A maioria das bandas diria que o disco de que mais gostam é o último, pois é com o qual se relacionam mais facilmente. Acho que alguns de nossos álbuns são melhores que outros. Gostamos muito de "Grand Prix", de 1995. Ficamos razoavelmente felizes com tudo que fizemos, mas eu não costumo ouvir nossos discos. Não somos masoquistas, preferimos ouvir a música dos outros.
UOL - E que tipo de música o inspira hoje em dia a fazer a sua própria música?
Blake - Diferentes coisas. Eu gosto muito do Deerhoof, acho que eles são muito bons, os 1990s, com quem estou envolvido. Há muita coisa boa acontecendo. Como grupo temos um gosto musical bem variado. Gostamos também de nomes como Can, Neu! e de música pop. Temos uma mente bem aberta.
UOL - Do que você se lembra da turnê que fizeram no Brasil há alguns anos?
Blake - Foi fantástica! Gostaríamos de ter ficado um pouco mais. Foi ótimo tocar com os Pixies em seus primeiros shows após o retorno. Nós tocamos com eles antes de se separarem da primeira vez, na década de 90. Nos divertimos bastante, as pessoas são muito legais. Não sabíamos como seria a resposta do público ou quantas pessoas iriam aos shows, mas as apresentações estavam cheias, a platéia sabia as letras, ficamos muito felizes.
UOL - Vocês têm planos de voltar?
Adoraríamos. Estamos apenas esperando o convite.
UOL - Vocês têm a intenção de relançar seus antigos discos ou mesmo um DVD?
Blake - Se relançarmos os discos, vamos colocar muitos extras, pois sempre que gravamos um disco fazemos muitas gravações demo. Obviamente vamos remasterizá-los, mas se você pede para alguém comprar um disco novamente, deve oferecer algo a mais que faça o investimento valer a pena. Ainda temos de negociar com as gravadoras que possuem os direitos desses álbuns. Pode levar um tempo, mas vamos relançá-los em algum momento, com certeza.
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