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11/08/2006 - 19h01
CocoRosie traz ao Brasil sua severidade com cabelos desgrenhados; leia entrevista

ANTONIO FARINACI
Editor de UOL Música


"Uma mistura da minha severidade com os cabelos desgrenhados da Bianca", assim Sierra Rose Casady, 25, uma das metades do CocoRosie, define o trabalho da dupla formada com sua irmã, Bianca Leilani (apelidada Coco), 22, com a qual se apresenta no Brasil, de 30 de agosto a 2 de setembro, em São Paulo, Recife e Rio de Janeiro.

A dupla, que tem dois discos lançados (nenhum deles saiu no Brasil) --"La Maison de Mon Rêve" (2003) e "Noah's Ark" (2005)--, ficou conhecida por seu experimentalismo delicado e cheio de estranhezas. Os "cabelos desgrenhados" a que Sierra se refere estão presentes, por exemplo, no jorro de sonoridades inusitadas, no uso de ruídos do ambiente, na instrumentação insólita --que mistura harpa, teclados de brinquedo e percussão feita com a boca--, e no canto, que se alterna perversamente entre o quase infantil e o quase operístico.

Já a "severidade", que ela espertamente atribui a si, fica por conta da maneira meticulosa e equilibrada como isso tudo é organizado nas composições, sem soluções fáceis, nem rebuscamento. É esse senso estético apurado que garante a ordem na música do CocoRosie, sem a qual ela poderia se perder na dispersão. "Eu sou obcecada com a ordem", admite Sierra.

O clima de cumplicidade entre as irmãs é outra característica do CocoRosie que contribui para a unidade da música. Mas essa cumplicidade só surgiu na vida das duas após um inesperado encontro em Paris, em 2003, onde Sierra passava uma temporada estudando canto. Até então, as duas irmãs ainda não haviam se dado conta de seus interesses comuns. Bianca estudava moda e dava aulas de poesia, em Nova York. Ela compunha canções, mas não as mostrava para ninguém. "A gente não tinha muito contato até então", relembra Sierra, "mas quando ela entrou em casa, eu esqueci tudo o que eu estava fazendo da vida naquele momento".

Sierra e Bianca tiveram uma criação incomum. Filhas de uma pintora e de um estudioso de xamanismo, as duas passaram a infância viajando pelos Estados Unidos, segundo Sierra, sem televisão e "à parte das influências da mídia". "Os nossos pais viviam realmente à parte da sociedade", ela conta, "fomos criados para ter confiança na nossa imaginação e na nossa compreensão da vida".

Há uma "conexão inevitável", segundo Sierra, entre essa criação e o trabalho da dupla. Ela aparece numa certa espiritualidade que a música do CocoRosie evoca, ainda que algumas vezes, nos momentos menos inspirados, o faça apenas a título de paródia. Seja em "Tahiti Rain Song", que soa como uma gravação antiga recolhida em condições precárias por algum antropólogo; ou na singelez de "Noah's Ark". A paródia fica por conta de canções mais explícitas em sua intenção "cerimonial", como "Brazilian Sun" e "Candy Land", que flertam perto demais com o pastiche.

E até o amor em CocoRosie é mais um amor espiritualizado do que propriamente carnal. "Once I fell in love with you because the sky turned from gray into blue" (Uma vez eu me apaixonei por você porque o céu de cinza ficou azul), diz a letra de "Good Friday" (sexta-feira santa, em português). "You can leave me on the corner, where you found me, I'm not for sale anymore" (Você pode me deixar no canto, onde me achou, não estou mais à venda), diz "Not For Sale" de maneira sucinta e desconcertante. Um amor espiritualizado mesmo quando esta espiritualidade se mostra por sua crise, como na dramática "Beautiful Boys", que conta com a participação especial de Antony (do grupo Antony and the Johnsons) e todo seu ideário genetiano.

Antony aliás participa não apenas do disco mais recente do CocoRosie mas também de "The Desert Doughnuts", primeiro disco do Metallic Falcons, outra banda de Sierra, com a guitarrista Matteah Baim, e que ela classifica como "heavy metal para bebês". "Nós conhecemos o Antony alguns anos atrás, num show pequeno que ele fez aqui em Nova York. Nós nos apaixonamos imediatamente e viramos tipo uma família", ela conta. E completa: "nós nos encontramos sempre para brincar, fazer telepatia musical, entrar em sintonia --nós ficamos bem loucos".




COCOROSIE
com o rapper francês Spleen

São Paulo
30 e 31/08
Festival Mutzi
The Week
Rua Guaicurus, 324
Telefone: (11) 3818-3030
R$40 e R$80

Recife
1º/09
Festival No Ar: Coquetel Molotov
Centro de Convenções da UFPE
Av. dos Reitores, Cidade Universitária
Telefone: (81) 2126.8077
R$20 (inteira) R$10 (meia)

Rio de Janeiro
02/09
Circo Voador
Rua dos Arcos, S/N
Telefone: (21) 2533-0354
Preços ainda não foram divulgados


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