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06/12/2006 - 19h04
Transe tribal do Konono Nº 1 encerra a Bienal de SP: leia entrevista com o criador do grupo

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Música


Divulgação

Acima, Mimgiedi-Mawangu, criador do Konono Nº 1; abaixo, o instrumento likembé

Acima, Mimgiedi-Mawangu, criador do Konono Nº 1; abaixo, o instrumento likembé

O QUE É KONONO?
Konono no dialeto lingala é o ato de se constringir, de se encolher quando está frio, ou a contração que acontece com o corpo depois da morte, explica o fundador do grupo Mimgiedi-Mawangu

Recém-chegados de Kinshasa, os nove membros do grupo Konono Nº 1 jantavam numa churrascaria rodízio em São Paulo na noite da última terça. O grupo volta ao país depois de receber este ano o prêmio revelação de world music, concedido pela BBC, da Inglaterra.

"Miguel Fernando", se apressou em traduzir o próprio nome para o português o criador da banda Mimgiedi-Mawangu, de 73 anos. Nascido e criado numa região congolesa próxima a Angola, Mawangu fala um pouco de português e é fluente apenas no dialeto lingala, dessa região.

Com tradução para o francês feita pelo empresário Aharon (nenhum outro membro do Konono fala inglês ou francês _ a República Democrática do Congo é ex-colônia belga), Mawangu, o "sr. Fernando", falou com o UOL sobre os shows que fará em São Paulo nos dias 8 e 9, no Auditório Ibirapuera, no evento de encerramento da 27ª Bienal de Artes de São Paulo. Antes o grupo toca no Boulevard São João, no centro, nesta quarta e quinta.

"Tenho a impressão que será uma conexão automática. Quero transmitir alegria a todos os espectadores por meio do som. Quanto mais alegres eles ficarem, mais alegre eu vou ficar. Vai ser explosivo", diz Mawangu sobre o que espera dos shows em São Paulo.

Há muitos anos morador de Kinshasa, capital do Congo, Mawangu diz que o Konono Nº 1 mudou desde que foi criado no começo dos anos 70. "Mudaram os integrantes, e a música se tornou mais acelerada com o passar do tempo, senão seria a mesma batida." E que batida é essa?

Basicamente é produzida por um instrumento chamado likembé e por instrumentos criados a partir de peças usadas de automóveis, objetos de cozinha, apitos, microfones artesanais e eletricidade para os amplificadores.

A espinha dorsal do som do Konono é o likembé, uma espécie de piano de dedo, formato por lingüetas de ferro tensionadas que produzem um som peculiar. "O likembé é um instrumento usado pelos antepassados, originalmente formado por lingüetas de bambu. Passei a usar o ferro no lugar do bambu e acomplá-lo a amplificadores. Apenas atualizei um conhecimento do passado", disse Mawangu depois de jantar.

"A música vem da cultura bazombo e também de pequenas culturas diferentes que possuem a mesma língua, comuns na fronteira entre Congo e Angola, onde surgiu o grupo", explica o músico e ex-motorista de ônibus de Kinshasa.

Sobre os instrumentos adaptados de carros e outras origens, Mawangu diz: "No princípio pensava que precisava de instrumentos convencionais, como um prato de bateria, mas não havia dinheiro para comprá-los. Então pensei: o que parece com um prato de bateria? Uma panela de cozinha. Então procurei por objetos que pudessem substituir os instrumentos convencionais e funcionou. Todo mundo pode fazer música sem esperar que alguém ajude. Você pode fazer música a partir das suas próprias idéias."

O resultado dessas idéias é um transe tribal original, áspero, dançante e alegre a um só tempo, com canções que chegam a sete, oito, dez minutos. Com o disco "Congotronics" (o único do grupo em mais de 30 anos), lançado em 2005 na Europa pelo selo belga Crammed, o mundo descobriu que essa música autóctone é uma espécie de elo perdido entre o kraut rock de Can e Faust, a experimentação eletrônica de Aphex Twin e a no wave de DNA (de Arto Lindsay).

Desde 2005 o Konono Nº 1 conquistou platéias do velho continente, Japão e EUA, com músicos e dançarinos no palco. Ao Brasil, o grupo já havia vindo em 2005 para o festival PercPan.

Como Viver Junto
Do Congo também é Lisette Lagnado, curadora da Bienal de SP, que convidou o grupo para encerrar o evento. Pergunto ao músico, que viveu sob a ditadura sanguinária do general Mobutu Sese Seko, o que significa o tema desta edição, "como viver junto". "O tema é muito importante e engloba tudo. Viver junto implica a idéia do amor. Se não há amor e se não há música, é a guerra", é a resposta direta de Mawangu.

O que me levou a pergunta seguinte: A música do Konono me parece alegre, ainda que rude. O que dizem as letras das canções, todas em lingala? Antes de responder ele ri e faz uma pausa. Ri novamente e diz: "A maioria das músicas que eu toco foram feitas há muito tempo, antes do período colonial [encerrado em 1960]. E era uma forma de educar as crianças, quando não havia escolas, de transmitir o conhecimento para os mais jovens e ensiná-los a amar uns aos outros. E a viver junto."

Origem
Em 1976 ou 78 (Mawangu não sabe ao certo), um radialista francês chamado Bernard Creton foi a Kinshasa para fazer um disco com a música local, o que não aconteceu. Mas ele guardou a matriz da gravação até o ano 2000, quando a tocou na rádio. Então um engenheiro de som belga chamado Vincent Kenis, do selo Crammed, ouviu a música. Kenis entrou em contato com Creton e, a partir disso, foi para Kinshasa para encontrar o Konono _e isso não foi tão simples quanto essa frase. Em 2005 lançou o disco "Congotronics", elogiado por críticos dos dois lados do Atlântico e do Japão.



KONONO Nº 1
Onde: Boulevard São João, Av. São João S/N - Centro de São Paulo. Informações, tel.:(11) 3111-7000
Quando: Dia 6, às 18h, e dia 7, às 12h
Quanto: Grátis

Onde: Auditório Ibirapuera, Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº - Portão 2 do Parque do Ibirapuera. Informações, tel.: (11) 5908 - 4299
Quando: Dias 8 e 9/12, às 20h30
Quanto: R$ 30 e R$ 15 (meia entrada)
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