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18/12/2006 - 22h46
Bate-papo UOL: João Marcello Bôscoli comenta o lançamento de "Elis - Edição Especial"

Da Redação


João Marcello Bôscoli, filho da cantora Elis Regina, esteve nesta segunda (18) no Bate-papo UOL para uma conversa sobre o lançamento de "Elis - Edição Especial". O box traz o álbum "Elis", de 1980, que foi restaurado, remixado e remasterizado usando como referência o disco original. "Tentamos aproximar o resultado daquele som que foi ouvido nos estúdios, durante as gravações", explica Bôscoli.

O lançamento conta também com um DVD do programa "Jogo da Verdade", da TV Cultura, gravado em 1982, com a última entrevista da cantora, gravada nove dias antes de sua morte.

Na época, as declarações de Elis Regina geraram polêmica, mas Bôscoli acredita que não terá o mesmo impacto na sociedade atual: "depois de Paris Hilton e Britney Spears saírem sem calcinha e as pessoas pararem para comentar, acho que não vai ser uma frase da Elis que vai criar polêmica", comenta.



Confira a seguir a íntegra da conversa que contou com a participação de 221 pessoas.

(08:14:41) BATE-PAPO UOL: o que tem nesse box "Elis" que está sendo lançado agora?
(08:17:07) João Marcello: Tudo bem, e você? Essa caixa contém uma edição que foi restaurada, remixada e remasterizada. É o album "Elis - Edição Especial" que tem músicas do Gil, do Tom Jobim e outros. A gente pegou as fitas masteres, analógicas e restauramos e remixamos usando o disco original como referência. Naquela época, no momento de gerar o vinil, era preciso tirar os graves muito fortes senão a agulha pulava, algumas músicas também tinham durações maiores e como o disco tinha uma limitação de tempo, precisavam ser cortadas. Tentamos aproximar o resultado daquele som que foi ouvido nos estúdios, durante as gravações, tentamos ser bem fiéis a isso. E ainda têm os bônus, e três músicas a capela. No DVD tem a última entrevista que a Elis deu em 1982.

(08:15:31) BATE-PAPO UOL: Por que a decisão de lançar em DVD essa última entrevista de Elis?
(08:18:18) João Marcello: Porque pertence ao mesmo período desse disco, em 81 ela fez a turnê desse CD, em 82 ela deu essa entrevista que condiz bastante com o que ela pensava. A gente resolveu reunir para mostrar para as pessoas o que ela pensava.

(08:17:03) BATE-PAPO UOL : Na caixa, há um aviso que diz que todas as vozes dela foram gravadas numa única tomada. Como foi isso? Está assim também no disco original de 1980?
(08:20:40) João Marcello: A Elis só gravava dessa forma, o Ed Motta disse que isso é bem coisa de músico de jazz, que não faz emendas. Tem uma música que entrou a voz guia, que era apenas para guiar a banda. Quem é do ramo faz assim, quem não é precisa fazer vários takes para ir montando. Isso não é um crime, é uma outra maneira de se fazer. O Sinatra nunca gravou sem ser com a banda, é algo orgânico. Hoje, as pessoas usam a tecnologia para esconder a falta de talento. Não ter uma afinação perfeita é uma característica, isso não é ruim.

(08:18:22) BATE-PAPO UOL: E o lançamento de "Elis" é amanhã aqui em SP. Como vai ser o evento?
(08:23:06) João Marcello: Nós vamos reunir algumas pessoas, o Zuza, o Natan Marques que gravou esse disco, depois vamos ter uma rodada de debates para explicar o que acontecia naquela época. Eu assisti parte das gravações, mas o Natan estava lá o tempo todo. Quem sempre escutou o CD vai perceber que não mudou muito, só o áudio que está melhor. Eu saia do colégio e ia para as gravações, tem a coisa da música "O Trem Azul", nesse dia eu assisti. Nunca mais esqueço também da música "Só Deus é Quem Sabe", que eu estava conversando e era um take bom e me pediram para fazer silencio.

(08:20:42) BATE-PAPO UOL: O que vc acha que a Elis representa para a MPB hoje, 25 anos depois de sua morte?
(08:25:23) João Marcello: Ela é maior que a MPB, ela é uma cantora que só vivia para fazer isso. Como ela surgiu ainda nos anos 60, ela pegou um pouco do rock and roll e ela foi atravessando muito da música brasileira, depois ela namorou mais de perto com o soul, depois que casou com o César ela começou a gravar outros compositores. Ela canta bossa nova como ninguém, canta samba como ninguém. Se o Brasil pode ser levado a sério, ela é a cabeça de chave. A gente descobriu que Madonna, Alicia Keys, Nora Jones todas essas escutam Elis Regina. Ela é uma cantora das cantoras.

(08:23:44) Flávio Côrtez: A versão 'a capella', da música Trem Azul, foi finalizada justo na hora dos agudos inumanos, que Elis emitia. Por que essa escolha foi feita? Mesmo sem o duelo com a guitarra, não seria interessante o registro de um dos momentos vocais mais bonitos da MPB (eu pelo menos nunca ouvi nada parecido)?
(08:27:15) João Marcello: Flávio, você tem toda a razão, quando eu ouvi a música, eu avaliei isso. Aquele vocal só funciona com a guitarra e a guitarra só funciona com o vocal. A Elis não queria que ficasse algo pirotécnico que ultrapassasse a melodia, que era o principal. Só a voz sozinha, não rola. Só a voz e a guitarra saltava muito e ficava sem mais porque, se aquela coisa fosse feita para estar em primeiro plano não iria funcionar, mas a gente pensou muito nisso, ficamos dias discutindo isso.

(08:26:58) Marcus: Houve rumores, na época, de que o show Transversal do Tempo seria lançado na íntegra. Ainda existiriam as gravações?
(08:28:06) João Marcello: Marcus, teoricamente, tudo o que a Elis fez até 79 está na Universal, eles mantém o acervo irretocável. Então, se existe, está lá. E se está lá, eu vou fazer isso um dia. Ano que vem saem mais dois discos.

(08:28:03) Flávio Côrtez: Muito já se falou, em relação à confecção de um filme que retrate a vida de Elis. Inclusive, isso é motivo de divertimento nos diversos forúns sobre a cantora, na internet. Por que o filme nunca saiu do papel? Houve possibilidade? Alguém quis filmar? Houve veto? Há projetos? Comente.
(08:31:12) João Marcello: Flávio, na verdade, várias pessoas falaram de fazer, mas não levaram a diante. Algumas pessoas falaram que deixariam a gente ficar mais velho. Agora o Ricardo Wadignton vai fazer um especial. Tudo o que eu puder fazer, eu vou fazer. Hoje eu descobri um especial da Elis na Alemanha, estou cuidando das coisas junto com a Globo. Toda hora tem alguma coisa, não acredito que seja uma missão minha e dos meus irmãos. Eu lancei o DVD, foi o primeiro, mas não tenho que lançar o primeiro filme também. As pessoas são muito griladas, é um assunto polêmico, as pessoas acham complicado.

(08:28:44) Witorino: Como foi produzir esse disco, entre todos que você produziu, você poderia dizer que esse foi o que te deixou mais realizado?
(08:32:23) João Marcello: Witorino, eu não sabia que a Elis cantava tanto. Isso porque você ouve a faixa mais de cem vezes num dia, eu não sabia, não tinha a menor idéia. Foi a melhor coisa que eu já fiz vestido na minha vida. Ano que vem eu vejo como vou trabalhar com outras pessoas.

(08:31:43) Carlos: Tudo bem? Para mim é muito emocionante 'fala' com o filho de Elis. Ela é simplesmente fantástica. Tinha 14 anos anos qdo ela se foi. Tenho 23 cds. Gosto de ouvi-la cantar e falar. Vamos ter isso no lançamento, Elis cantando e falando?
(08:35:28) João Marcello: Carlos, o conteúdo é exatamente este. Tem versões a capela e tem a última entrevista dela. É engraçado como é contemporâneo, tem o lado do trabalho dela, a generosidade. Muita gente poderia ter visto essa entrevista antes de tanta diluição que andaram fazendo por ai. Fernando Faro, disse que "Deus tira daqui e põe ali. Mas a Elis tinha aqui e ali". Quando a Elis morreu a máquina deu uma modificada. As únicas pessoas que ainda não se ligaram que o disco morreu são os artistas, até as gravadoras já se ligaram. O que a gente está vendendo é a música, não a mídia. Mas não tem jeito, a música vai caminhando em outras direções e ninguem pode conter.

(08:32:48) Edson: João...A Elis deixou alguma coisa gravada do próximo disco que ela lançaria? Existe possibilidade de isso ser lançado, caso exista?
(08:41:04) João Marcello: Edson, a gente tem uma gravação feita em estúdio do Roberto de Oliveira, ele vai lançar trechos. Qualquer coisa que a gente tenha dos shows não é completo, na época era um trampo, não tinha essas câmeras de hoje. No máximo podemos juntar esses fragmentos. A gente que fechar um acordo com a Globo para juntar todas esses trechos que eles têm da Elis por lá. Tem, inclusive, um clipe em que ela aparece com uma bandeira do Brasil escrito "Elis Regina" e na época na pode ir ao ar.

(08:39:17) Carla: Boa noite.......e aproveitando a pergunta anterior, vc acha que muitas cantoras tem o estilo de Elis ou nao?? ainda hoje se influenciam ou nao?
(08:43:15) João Marcello: Carla, em primeiro lugar, eu como gosto de Elis, assim como os grandes cabeças de chave da música, eles estão ai para inspirar, não para ofuscar. Conheço algumas cantoras que não gostam de Elis, e é de coração. Ela acaba sendo referência, mesmo que seja para ir para o oposto. Eu prefiro não falar, porque artista é um bicho que partícula de pó tiram eles do sério. Maria Rita não vale, claro que parece, é genético, mas parece mais Silvinha Telles do que Elis.

(08:41:13) Witorino: Quanto tempo demorou pra esse Box ficar pronto?
(08:45:07) João Marcello: Witorino, foram 3 meses, isso desde que o tape chegou às nossas mãos. Antes disso foi muito mais tempo. O DVD é um trabalho mais de resgate e restauração dos arquivos da TV Cultura - lá eles cuidam com um carinho muito grande dos arquivos. Na verdade esse DVD é menos crítico de ser trabalhado do que o Programa Ensaio, que tem duas entradas de som - o da entrevista e dos ensaios.

(08:43:17) old school: por que você escolheu o disco "Elis" para ser relançado agora e não outro? esse é o seu disco favorito dela?
(08:51:33) João Marcello: Old School, estou conversando com o Milton Nascimento para fazermos a restauração do Clube da Esquina nesses mesmos moldes. Tem o Cartola, o Paulinho da Viola, que vamos lançar também. Hoje, de um lado, a Trama Virtual tem 35 mil artistas independentes, eu nunca imaginei trabalhar com tanta gente assim, e de outro, eu estou trabalhando com os melhores artistas do século XX.

(08:45:41) Vinícius: Olá, João. Primeiramente, gostaria de lhe dar os parabéns pelo resgate da obra de sua mãe, das mais importantes da nossa música, acredito eu. O que me surpreende muito, nesse álbum, é a sua contemporaneidade. "Só Deus é quem sabe", por exemplo... Se não soubesse que era Elis cantando, certamente diria que era uma gravação de hoje. O que você aponta de contemporâneo nele? E no que ele difere dos demais álbuns lançados pela Elis?
(08:48:45) João Marcello: Vinícius, acho que esse álbum retoma uma certa leveza, os trabalhos anteriores refletiam uma época muito dura, tratando de desaparecidos, de política e tudo mais. Esse disco veio no final do ano, ele tem esse clima de Reveillon, e a gente já tinha comprado alguns discos novos, de final de ano. A Elis tinha a capacidade de traduzir profissionalmente exatamente o que ela queria dizer naquele momento, do que ela estava vivendo. Também tem uma levada mais funk, soul, depois de uma época disco. Como as pessoas estão voltando aos anos 80, isso parece ser muito contemporâneo.

(08:46:55) Carlos: Como vc encara o fato de Elis ainda ser tocada com frequencia na Tv. A Globo volta e meia tem uma música de Elis na trilha. Ultimamente Alô, alô, marciano e agora Fascinação. Como vc vê isso?
(08:50:11) João Marcello: Carlos, eu fico muito feliz. É muita sorte também, tem muitos artistas maravilhosos que não tem tanta sorte. Eu fico feliz. Acho que a Gal é campeã em novelas, e Elis, que não grava há 25 anos, fica em segundo lugar. Uma grande obra de arte não vai até você, você tem que ir atrás do que você gosta.

(08:49:17) old school: além da Elis, quais outros artistas você gostaria de fazer esse trabalho de relançamento?
(08:51:33) João Marcello: Old School, estou conversando com o Milton Nascimento para fazermos a restauração do Clube da Esquina. Tem o Cartola, o Paulinho da Viola, que vamos lançar também. A Trama Virtual tem 35 mil artistas, eu nunca imaginei isso, e de outro lado eu estou trabalhando com os melhores artistas do século XX.

(08:50:41) Pat Gomes: Oi, João!Parabéns pelo belo trabalho que você tá fazendo! A Trama é um diferencial no ramo das gravadoras brasileiras
(08:53:22) João Marcello: Pat Gomes, obrigada. Para me deixar mais feliz é só parar de chamar a Trama de gravadora. A Trama é uma casa de música, a gente trabalha com música de todas as formas. Mas que bom que você percebe, a gente trabalha com isso e tentamos fazer o melhor. A indústria da música precisa restaurar essa magia, essa diversão.

(08:50:52) ArtGroupie: O sucesso comercial da versão remasterizada de "Elis & Tom" ajudou ou atrapalhou as negociações para novos lançamentos?
(08:54:33) João Marcello: Art Groupie, só ajudou, cara. Nunca, nada com relação à Elis dá errado. Ninguém tem interesse em atrapalhar, nunca tive nenhum problema. Inclusive, renovamos a licensa do "Elis & Tom" por mais 18 meses. Tem que compartilhar mesmo.

(08:51:56) Flávio Côrtez: Na reedição do disco, alguns outros clássicos foram retirados. Aqueles que foram adicionados no último lançamento do disco. Músicas como "Tiro ao Álvaro" e "Outro Cais" ficariam de uma beleza absurda, caso fossem polidas (no bom sentido) ainda mais. Por que não o fizeram?
(08:56:30) João Marcello: Flávio Côrtez, essas músicas não fazem parte do álbum "Elis - 1980". Foram gravações extras que não tem a identidade do disco. Essa gravação de "Tiro ao Alvaro" não tem mais que vinte minutos, foi tudo muito rápido. Como essas músicas não faziam parte, colocá-las no CD poderia ficar como um Frankestein, já que não pertencem a uma mesma identidade.

(08:53:07) Pat Gomes: Desculpa! A Trama faz música! Gravadora tem um estigma complicado, né?
(08:56:45) João Marcello: Pat, não precisa pedir desculpas.

(08:53:41) Felipe dos Santos: João, eu também gostaria de perguntar se você se recorda a respeito da mudança de formação na banda de Elis para o disco agora relançado. Afinal, muitos dos músicos que trabalharam em "Saudade do Brasil" não prosseguiram na banda, ou depois voltaram para a turnê de "Trem Azul", como Sérgio Henriques, nos teclados, e Octavio Bangla no saxofone.
(08:58:57) João Marcello: Felipe, não tinha metais nesse disco, tinha só um solo de sax que foi decidido depois. O Sérgio Henrique gravou ao vivo no estúdio, porque esse era o conceito e não era uma coisa que o César fazia. Eles fizeram igualzinho faziam no palco. A troca de músicos tem a ver com o som. A Elis trocava muito a banda também.

(08:54:49) Laine: Essa entrevista causou polêmica no passado acredita que possa acontecer o mesmo impacto???
(09:00:10) João Marcello: Laine, depois da Paris Hilton e da Britney Spears saírem sem calcinha e as pessoas pararem para comentar, acho que não vai ser uma frase da Elis que vai criar uma polêmica. O Brasil perdeu os limites, parece que vale tudo. E agora são 92%, né?

(08:56:42) Carlos: Elis já foi homenageada de diversas formas: teatro, tv, música, o q falta para o Brasil reverenciar essa q é a nossa maior cantora de todos os tempos? Elis é um orgulho nacional.
(08:50:11) João Marcello: Carlos, eu fico muito feliz. É muita sorte também, tem muitos artistas maravilhosos que não tem tanta sorte. Eu fico feliz. Acho que a Gal é campeã em novelas, e Elis, que não grava há 25 anos, fica em segundo lugar. Uma grande obra de arte não vai até você, você tem que ir atrás do que você gosta.

(08:56:57) Flávio Côrtez: Elis ficou cerca de um mês, com Wayne Shorter, nos EUA, em 1981. Eles gravariam um disco juntos. Eu penso que um mês é tempo de sobra para o início de um trabalho. Existe alguma canção, algum registro do encontro?
(09:03:14) João Marcello:Flávio, na verdade eles fizeram algumas coisinhas mas não registraram. Não rolou o projeto porque não teve uma química. Ela era uma pessoa que não estava nessa do label. Ele é uma fofura, mas não rolou a química.

(08:59:22) Aline tübingen: Moro na Alemanha, haverá algum lançamento do box por esses lados aqui tb. Caso haja nós brasileiros daqui agradecemos!!!
(09:04:33) João Marcello: Aline, sim, haverá. Temos o trabalho com uma exportadora. É interessante porque nunca entrei numa loja que não tivesse um CD da Elis. Não temos uma data, mas está para sair na Europa toda. Aqui no Brasil, a indústria fonográfica toda ficou prejudicada com o tal ponto cego no espaço aéreo lá da Amazônia. Tem gente indo buscar as coisas até de camelo. Se não fosse por esse problema já estaria nas lojas daí.

(09:03:03) Felipe dos Santos: Após ler a respeito do lançamento de uma caixa ainda mais alentada de "Elis - 1980", com o cartaz, o programa e outras coisas do show "Trem Azul", pergunto se o programa do show é bem completo.
(09:05:34) João Marcello: Felipe, é igual ao programa do show naquela época. É igualzinho, como ela não está mais viva, te passo o telefone do diretor do show para você reclamar. Tem muitos mimos também.

(09:05:43) João Marcello: Que entrevista mais fácil, é muito fácil falar de Elis. Muito obrigado gente, até a próxima.

(09:05:58) Adriana/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de João Marcello Bôscoli todos os internautas. Até o próximo!

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