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25/03/2008 - 22h22
"Morrerei sendo transgressor", diz Ney Matogrosso; leia entrevista

MARCUS MARÇAL
Da Redação


Rafael Andrade/Folha Imagem

Ney Matogrosso em sua casa no Leblon (RJ) em 10/10/2007

Ney Matogrosso em sua casa no Leblon (RJ) em 10/10/2007


Ney Matogrosso inicia temporada no Citibank Hall, em São Paulo, para promover o álbum "Inclassificáveis", que chega às lojas nesta sexta-feira (28). Das apresentações inicialmente agendadas de 28 a 30 de março, o cantor estendeu a temporada para de 3 a 5 de abril, devido à procura por ingressos.

Em entrevista ao UOL, o cantor discorreu sobre seus 35 anos de carreira e declarou que sempre foi transgressor e morrerá assim. Matogrosso sempre manteve uma postura anárquica nos palcos desde o início de carreira e comentou a respeito: "Gostaria que as pessoas se manifestassem independentemente do ambiente dos shows. Mostro às pessoas que é possível existir de uma maneira diferente de 99% da população - que um pensamento diferente pode se manifestar no mundo", disse.

No repertório do show, Ney Matogrosso interpreta temas como "O Tempo Não Pára" (Cazuza), "Divino e Maravilhoso" (Caetano Veloso), "Um Pouco de Calor" (Dan Nakawaga), "Ouça-me" (Itamar Assumpção) e a faixa-título, entre outros.

A direção musical do espetáculo de aproximadamente hora e meia é assinada por Emilio Carreira, ex-integrante do grupo Secos e Molhados, que também toca piano e teclado. Sua banda ainda é formada por Carlinhos Noronha (baixo), Júnior Meirelles (guitarra e violão), Sérgio Machado (bateria), DJ Tubarão (percussão e toca-discos) e Felipe Roseno (percussão). O estilista Ocimar Versolato foi responsável pelo figurino e Milton Cunha assina a cenografia.

UOL - Como você define o álbum "Inclassificáveis"?
Matogrosso: Eu gosto muito dele, acho diferente dos que já fiz até agora. Estou com uma banda nova e gosto muito do resultado. Consegui um repertório e formar uma história interessante para o disco, que é um resumo do repertório do show.

UOL - "Inclassificáveis" é marcado pelo pop-rock. O show é uma espécie de divisor de águas na sua carreira, ao promover conexões com seus primórdios, mas sem deixar de ser atual?
Matogrosso: Só não concordo que ele remeta aos Secos e Molhados, pois já desenvolvi outros trabalhos voltados ao pop-rock. Em nenhum momento, eu tive isso em mente. Acho que isso acontece devido à participação do Emílio, mas eu não fui atrás dele com esse intuito. Um trabalho como esse me permite uma atitude mais enfática. Quando eu faço um recital com quatro violões, naturalmente preciso me mostrar mais contido. E eu tenho muito mais liberdade de ação, quando é um trabalho com uma banda e um repertório como esses. Estamos vivendo o momento presente e minha conexão é com o agora. Não renego o que já fiz, mas não tenho saudade. E meu trabalho naturalmente representa o presente.

UOL - O roteiro do espetáculo foi moldado durante a turnê?
Matogrosso: É impossível começar um trabalho com certezas absolutas, sem passar pelo crivo do público. O que determina as mudanças é o funcionamento das coisas. Vi que o show estava muito extenso e cortei músicas, trocas de acessórios, para deixar o show enxuto. Isso só aconteceu no último show na última temporada em São Paulo.

UOL - Fale um pouco sobre o apelo visual de álbum e show.
Matogrosso: Sempre me preocupo muito com isso, mas em "Inclassificáveis" eu particularmente dei uma atenção maior a isso. Meu interesse foi fazer um trabalho com um aspecto visual muito bem colocado. Fiz as fotos em estúdio, com iluminação de show, mas no DVD optei por enfatizar minha movimentação no palco. O álbum ao vivo é uma segunda etapa. Quando eu entrei em estúdio, o show já estava pronto. Então gostei de manter esse arquétipo, que se multiplica durante as apresentações ao vivo. E posso dizer o que me inspirou a chegar aí, mas se trata de uma reprodução. Eu vi um documentário sobre os incas e, em certo trecho, dizia-se que, durante cerimônias no Lago Titicaca, os imperadores incas ficavam nus e passavam ouro em pó no corpo e mergulhavam no lago a fim de que o ouro pudesse voltar para os deuses. Achei essa história engraçada e a partir daí desenvolvemos o figurino. Conversei com Ocimar e elaboramos essas idéias.

UOL - Como se deu a escolha das músicas?
Matogrosso: Gosto muito de fazer roteiro e o show possui uma espinha dorsal nas músicas "O Tempo Não Pára", "Mal Necessário", "Ode Aos Ratos", "Inclassificáveis" e "Divino Maravilhoso". Essas canções sustentam toda a história, com uma abordagem muito específica. E nos intervalos entre as músicas, eu abro o leque temático para outros assuntos. Meu critério quanto à escolha do repertório é: eu ouvir a música, entender a letra e me perguntar se gostaria de comunicar isso, caso eu fosse compositor - se este assunto faz parte do meu universo e me interessa de alguma forma. Isso é o que me move. Sou apenas um intérprete e meu trabalho é dar meu ponto-de-vista sobre o repertório que não foi composto por mim - desde que eu esteja de acordo com a proposta.

UOL - "Inclassificáveis" é também uma resposta ao pragmatismo previsível das verdades absolutas a respeito de música?
Matogrosso: Eu não tenho esse tipo de preocupação e não sou dono da verdade. Estou apenas me colocando dentro do espectro da música brasileira com a minha verdade e com aquilo em que acredito. Essa questão não compete a mim. As pessoas é que vão ou não fazer esse julgamento.

UOL - Sua postura de enaltecer sua individualidade torna o material uma afirmação política?
Matogrosso: Resguardo minha individualidade em parte, pois aquilo ali reflete o meu pensamento. Sim, expressar o que se pensa e não seguir os ditames pré-estabelecidos é sempre transgressor. Eu sou assim e morrerei sendo. De uma maneira geral, acho que as pessoas não se expõem verdadeiramente e esse é o problema. Falo isso de uma forma bem genérica. Acho significativo você ver o trabalho de uma pessoa e saber quem é ela por trás daquilo, seus pensamentos, o que ela pretende. Não acho que seja uma obrigação, mas certamente isso é mais interessante.

UOL - Quais fatores foram primordiais para a criação sua persona pop nos palcos?
Matogrosso: Durante muito tempo, eu achei que era dois e por isso, esquizofrênico. A partir de determinado momento, percebi que isso não era verdade e juntei essas duas facetas. Eu sou tudo isso e é claro que, fora do palco, minha postura é outra, pois prefiro observar a ser observado. O que faço no palco foi liberado pelo meu inconsciente, mas também faz parte de mim. Não é uma elaboração, simplesmente abri a porta e deixei sair.

UOL - Você é um artista veterano e consegue ser sucesso de público e crítica. A que atribui a razão do apelo de seu trabalho no decorrer das décadas?
Matogrosso: Eu não sei, só posso dizer que tudo é verdadeiro de minha parte. Não faço as coisas apenas para ganhar dinheiro. Quando me jogo nesses trabalhos, eu realmente acredito nos temas que abordo e me jogo com essa fé. É atraente as pessoas verem um artista totalmente entregue em cena. Acho que já confiam em mim e sabem que, se eu lanço um trabalho, é realmente alguma coisa interessante. Sabem que não vou perder meu tempo fazendo bobagem porque antes de tudo é uma questão individual que está em jogo. Pois isso, sempre há essa necessidade de apresentar material interessante, tanto em disco quanto nos palcos.

UOL - A resposta da audiência seria devido à transgressão comportamental que você simboliza há muitos anos?
Matogrosso: Não sei, acho que são várias coisas que devem chamar a atenção das pessoas. Não acho que a transgressão seja a razão, é apenas um dos fatores. Gostaria que as pessoas se manifestassem independentemente do ambiente dos shows. Mostro às pessoas que é possível existir de uma maneira diferente de 99% da população - que um pensamento diferente pode se manifestar no mundo. Então gostaria de influenciar as pessoas nesse sentido: sejam, vivam, existam plenamente, sem se submeter a critérios pré-estabelecidos. Quais são os critérios que estabelecem essas regras? Acredito que eu mesmo possa determinar meus limites e saber o que é bom ou ruim para mim -- até o que me é permitido sou eu quem vai estabelecer.



NEY MATOGROSSO EM SÃO PAULO
QUANDO: 28, 29 e 30/03 e 3, 4 e 5/04
ONDE: Citibank Hall - av. dos Jamaris, 213, Moema, São Paulo
QUANTO: De R$ 50 a R$ 120
INFORMAÇÕES: 0/XX/11/6846-6040
NA INTERNET: Citibank Hall


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