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14/05/2008 - 18h53
Gilberto Gil quer experimentar possibilidades da tecnologia com novo disco, "Banda Larga Cordel"

MARCUS MARÇAL
Da Redação


Divulgação

Ministro da Cultura, Gilberto Gil lança "Banda Larga Cordel"

Ministro da Cultura, Gilberto Gil lança "Banda Larga Cordel"


Em seu novo disco, o ministro da Cultura Gilberto Gil reafirma a influência da tecnologia em sua música. Produzido pelo ex-Mutantes Liminha, "Banda Larga Cordel" mistura Internet e artesania cordelista em seu título e aborda poeticamente relações entre arte e tecnologia.

Em entrevista coletiva virtual nesta quarta-feira (14), o cantor e compositor de 65 anos declarou que este foi o único modo de abarcar a totalidade de temas em um só conceito. "Hoje é bem diferente de tempo atrás. Vivemos uma época mais estimuladora e com grande impacto na criação e rearranjo de idéias, em função das possibilidades atuais de copy & paste para a criação poética, além da velocidade e acessibilidade na propagação de informações. E com todas as referências de recombinações, abertura e a quantidade de faixas, o máximo que eu poderia fazer é juntar as diferentes canções sob o título 'Banda Larga Cordel'. O título é o máximo de amarração que poderia dar a esse repertório", declarou.

"Banda Larga Cordel" é o primeiro disco após o fim de antigo contrato com a Warner, que comercializará o material em diferentes formatos. Temas como inclusão digital, Creative Commons, Software Livre são assuntos recorrentes na pauta do ministro e também tangenciam sua música. E em se tratando de trabalho autoral de um ministro da cultura, o lançamento abre precedente para discussões relacionadas às questões da comercialização de fonogramas e autoralidade, entre outras.

A faixa-título é a mais politizada canção do álbum e estimula a política de inclusão digital, em função das amplas possibilidades de comunicação propostas pela tecnologia. Dentre as 16 faixas do disco, também se destacam o samba minimalista "Formosa" e "La Renaissance Africaine", canção sobre o abandono do continente africano e, segundo o artista, "a última fronteira da exploração e do colonialismo". Outro tema forte de "Banda Larga Cordel" é "Não Tenho Medo da Morte", no qual tece reflexões sobre "a consciência de finitude de sua vida e dimensão de eternidade".

Defensor do Creative Commons
O cantor declarou que pretende oferecer seus fonogramas para uso público, disponibilizando áudios das canções, trechos instrumentais, gravações alternativas que não entrarem no disco, para que as pessoas possam reprocessá-lo do modo que queiram, à medida que também cheguem novos produtos ao mercado. E destacou a adaptação da cena tecnobrega paraense como bom exemplo no uso dos novos formatos permitidos pela tecnologia atualmente. "Esse pessoal sabe se articular de forma auto-suficiente. Usam palcos ambulantes, em função da mobilidade de instalação e movimentação local. Com os computadores, aproveitam a rapidez na difusão de informações na Internet, além de gravarem seus shows, editarem e venderem discos --com a produção endossada por rádios que veiculam seus trabalhos. Assim exploram realidades e territorialidades novas, lançando mão de novas maquinarias", disse.

O ministro deu seu ponto de vista em relação a questões como remuneração, liberdade e autonomia, comuns ao cenário musical atualmente. "Há uma tendência real da fragmentação do poder político e das vantagens econômicas distribuídas entre um número maior de agentes. Os selos independentes já são metade do mercado nacional, levando em consideração os já-consolidados. As majors atuam na logística como redistribuidoras e acredito que tudo isso ainda será dividido futuramente com a micropulverização do empreendedorismo e organização de mercado", disse.

Assim pretende instaurar discussões sobre novas categorias de autoralidade, em função da abertura de um espaço para a experimentação, melhor representado por uma interrogação, conforme opinou a respeito das atuais tendências de distribuição e remuneração de música. "Isso faz parte de um experimentalismo gradual e necessário para que possamos avaliar o funcionamento dessas novas possibilidades. Não seria prudente eu radicalizar em todas as formas de distribuição, ainda ligadas de certa forma a antigos funcionamentos. Acho adequado utilizarmos a tecnologia com moderação, para não tomarmos um porre de abertura que não daria em nada. Prefiro usar com moderação."

Mas a inclinação à tecnologia aparece muito antes em seu trabalho. Gravações suas como "Cérebro Eletrônico" e "Futurível" já abordavam questões sobre possibilidades futuras em 1969, temas eventualmente recorrentes em posteriores lançamentos do cantor.

Como personalidade importante na linhagem histórica da música popular brasileira, Gilberto Gil também divagou sobre o futuro possível da arte cordelista hoje em dia. "Não sei se será possível uma computadorização do cordel ou mesmo até que ponto as associações de trovadores nordestinos lidam com o impacto da tecnologia atualmente em sua produção e vida cotidiana."

O artista também disse não saber como a prática antiga do nordeste brasileiro se adaptará aos padrões atuais tão vinculados à tecnologia. "Não sei como o cordel se adequará ao hipertexto, mas os prosadores podem optar por desaparecer, assim como aconteceu com os Maias, e isso pode acontecer em função dos novos formatos e suportes. Até lá, acredito que eles continuarão como sempre, pois muita gente ainda hoje descobre o prazer leitura com a literatura de cordel e talvez a prática fique como um fetiche ainda por algum tempo e nunca perca suas características tradicionais", especula.

Em julho, Gil promove o disco em turnê no exterior e só se apresentará no Brasil a partir de agosto. Sua banda é formada por Arthur Maia (baixo), Alex Fonseca (bateria), Claudio Andrade (teclados), Gustavo de Dalva (percussão), Sergio Chiavazzolli (guitarras) e seu filho Bem Gil (guitarra).


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