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Especial Bossa Nova
15/08/2008 - 11h56
Simpático, João atrasa, faz show de uma hora e meia para público VIP e não reclama

RONALDO EVANGELISTA
Colaboração para o UOL


Tuca Vieira / Folha Imagem

João Gilberto durante show em São Paulo (14/08/2008)

João Gilberto durante show em São Paulo (14/08/2008)


Uma hora e meia depois do anunciado, enquanto contra-regras vindos especialmente do Japão montavam tapete, cadeira, microfone, a expectativa era grande para ver João Gilberto entrar no palco do Auditório Ibirapuera ontem, em seu primeiro show em São Paulo desde 2003.

Veja fotos do show do cantor.

Os ingressos diziam 21h, mas nesse horário já corria à boca pequena: ele chega daqui uma hora e meia. Com bom humor, o público agia como se o atraso já fosse parte do show: João Gilberto é hoje talvez tão conhecido por sua discrição e um algo exagerado mito de excêntrico quanto por sua música.

Quando finalmente entrou no palco, pouco mais de uma hora e trinta e cinco minutos depois do horário divulgado, caminhou devagar até o centro e aguardou de pé, em pose de reverência, que os aplausos cessassem. Boa parte da platéia se levantou para homenagear sua presença.

Ao sentar-se e encarar o público à sua frente, estreou o microfone com um pedido de desculpas, em sua habitual voz tranqüila: "dizem tanto que eu atraso, né? Me desculpem, é que fiz uma viagem ontem e acabei atrasando."

Apesar da expectativa, a audiência parecia não se importar. Nem João pareceu se importar ao dispararem claramente audíveis em todo o auditório centenas de clique-cliques das máquinas dos fotógrafos ali presentes. Normal: do momento de sua primeira aparição até sua saída definitiva do palco, o silêncio parecia mais alto que qualquer outro som que não fosse sua voz, seu violão ou as palmas ao fim das músicas.

"O coração tem razões que a própria razão desconhece", foi a primeira frase cantada por ele, ao começar o show pela segunda parte de "Aos pés da Cruz", samba da década de 40 regravado pelo cantor em seu primeiro álbum. Na seqüência, a primeira surpresa da noite: um divertido e esquecido samba de 1949, "13 de Ouro", gravado originalmente pelo conjunto vocal Anjos do Inferno. "Wave" (de Tom Jobim), "Caminhos Cruzados" (de Tom Jobim e Newton Mendonça) e "Doralice" (de Dorival Caymmi) vieram depois, começando a série de sucessos que João cantaria ao longo da noite. Tudo mais ou menos como esperado: onze canções de Tom Jobim, três de Ary Barroso, três de Dorival Caymmi, mais um punhado de antigas canções pinçadas de sua memória afetiva.

O público parecia adorar, mas havia algo de anticlimático no ar. A grande maioria das canções ia passando em versões curtas, que se alongavam por não mais que dois ou três minutos. Atípico, já que o cantor é conhecido por interpretar longamente cada música em seus shows - muitas vezes, encorajando a participação do público, o que não aconteceu nenhuma vez nesta noite.

Se tudo parecia corrido, também não houve grandes empecilhos. Bastante simpático e com ar zen, João Gilberto não reclamou de absolutamente nada e elogiou longamente figuras como Henry Maksoud (dono do hotel Maksoud Plaza, onde está hospedado o cantor) e Denis Brean (compositor de Campinas, autor de "Bahia com H").

A audiência parecia sempre interessada, mas era inegável também certa frieza. Era o inclemente escrutínio da classe média, o preço de tanta expectativa e de um púbico formado por mais de um terço de convidados. Convidados célebres, aliás, não faltaram: cineastas, arquitetos, publicitários, músicos, atores, empresários e VIPs para todos os gostos. Wagner Moura, Hector Babenco, Nelson Motta e Junior Lima (da Sandy) eram alguns que circulavam por ali.

Veja fotos dos famosos no show no álbum de UOL Celebridades.

Depois de cantar 20 músicas em menos de uma hora, pouco depois das 23h30, João Gilberto se levantou e saiu, era o fim do show. Mas o mise-en-scène não durou: o cantor voltou poucos segundos depois para mais nove músicas e algum papo com o púbico. Alguns minutos depois da meia-noite, levantou-se novamente e saiu, dessa vez para não voltar. Uma noite memorável.

João Gilberto se apresenta novamente em São Paulo nesta sexta-feira (15) e no Rio de Janeiro, no dia 24. Os ingressos para as duas apresentações estão esgotados. O cantor faz um quarto show em Salvador, no dia 5 de setembro.

Veja abaixo o repertório do show de João Gilberto em São Paulo:

"Aos pés da cruz" (Marino Pinto / Zé da Zilda)
"13 de ouro" (Marino Pinto / Herivelto Martins)
"Wave" (Tom Jobim)
"Caminhos cruzados" (Tom Jobim / Newton Mendonça)
"Doralice" (Dorival Caymmi)
"Meditação" (Tom Jobim / Newton Mendonça)
"Preconceito" (Wilson Batista / Marino Pinto)
"Disse alguém" (Seymour Simons / Gerald Marks / Haroldo Barbosa)
"O pato" (Jayme Silva / Neusa Teixeira)
"Corcovado" (Tom Jobim)
"Samba do avião" (Tom Jobim)
"Ligia" (Tom Jobim)
"Você já foi à Bahia?" (Dorival Caymmi)
"Rosa Morena" (Dorival Caymmi)
"Morena boca de ouro" (Ary Barroso)
"Desafinado" (Tom Jobim / Newton Mendonça)
"Estate" (Bruno Martino)
"Não vou pra casa" (Antonio Almeida / Roberto Roberti)
"Chega de saudade" (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
"Isto aqui o que é?" (Ary Barroso)

Bis:

"Chove lá fora" (Tito Madi)
"O nosso olhar" (Sérgio Ricardo)
"Bahia com H" (Denis Brean)
"Da cor do pecado" (Bororó)
"Retrato em branco e preto" (Tom Jobim / Chico Buarque)
"Samba de uma nota só" (Tom Jobim / Newton Mendonça)
"Guacyra" (Heckel Tavares / Juracy Camargo)
"Pra machucar meu coração" (Ary Barroso)
"Garota de Ipanema" (Tom Jobim / Vinicius de Moraes)
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