|
|  |

03/12/2008 - 09h45
"The New York Times": Três décadas depois, Labelle compensa o tempo perdido
Gary Graff The New York Times Sindycate


Acabou se transformando em uma espécie de esquete nos concertos de Patti LaBelle: ela dizia ao público sobre a reunião iminente do Labelle, o grupo com o qual ela e as cantoras Sarah Dash e Nona Hendryx emplacaram o sucesso "Lady Marmalade" (1974) antes da separação em 1976.
"Toda vez que Patti se apresenta", lembra Dash, "ela diz, 'Ah, e haverá uma reunião', e as pessoas simplesmente enlouquecem".
Após algum tempo, entretanto, Hendryx decidiu chamar a atenção dela. "Nona disse para Pat: 'Seria melhor você parar de dizer isso se não vai acontecer. Não mexa com nosso público dessa forma'", diz Dash.
Agora não é mais uma provocação. Após gravarem um tributo para a ativista dos direitos civis Rosa Parks, "Dear Rosa", em 2006, o Labelle prosseguiu com "Back to Now", seu primeiro álbum de novas gravações em 31 anos. Lançado em outubro e contendo faixas gravadas com Wyclef Jean, Lenny Kravitz e os veteranos do soul da Filadélfia, Kenneth Gamble e Leon Huff, ele estreou no 45º lugar na parada Billboard 200 e em 9º lugar na parada de álbuns r&b/hip hop da revista.
O Labelle começou a se apresentar ao vivo em novembro e tem planos de excursionar em 2009, com a possibilidade de outro álbum no horizonte.
"Nós ainda somos as mesmas, mas com um senso de maturidade", diz Dash, 63 anos. "Esta é a primeira vez na indústria, provavelmente, que um grupo que permaneceu separado por tanto tempo, mais de 30 anos, volta a gravar de novo. A maioria... simplesmente se separa e não volta jamais."
"Nós tínhamos carreiras separadas, o que nos dá muita sabedoria. Nós não dependíamos umas das outras e tivemos que tomar mais decisões independentes, e estamos trazendo essa riqueza de aprendizado ao projeto."
Dash e Hendryx, 64 anos, eram consideravelmente mais inexperientes em 1961, quando se juntaram ao grupo vocal da Filadélfia, The Ordettes, e sua líder, Patricia Holt, que posteriormente mudou seu nome para Patti LaBelle. Com a adição da futura integrante das Supremes, Cindy Birdsong, o quarteto se transformou em Patti LaBelle & the Bluebells. Elas foram contratadas pelo lendário produtor Jerry Wexler para a Atlantic Records e desfrutaram de um sucesso modesto com regravações de "Over the Rainbow" (1965) e "A Groovy Kind of Love" (1965), antes dos The Mindbenders fazerem sucesso com ela, e foram vocalistas de apoio para o single "634-5789" (1966) de Wilson Pickett.
Em 1970, três anos após a saída de Birdsong, o trio trouxe a produtora britânica Vicki Wickham, que mudou a imagem delas com muitas roupas glam apertadas, ao estilo rock, acentuadas por plumas e glitter, além de mexer no som delas e até mesmo no nome do grupo.
"Patti ficou um pouco incomodada com a mudança do nome", lembra Dash, "porque pensou que perderíamos o público do Patti LaBelle & the Bluebells que já tínhamos. Mas não se tratava de ciúme nem nada disso. Era apenas o momento de mudarmos".
A mudança apresentou resultados imediatos. O Labelle abriu para o The Who, cantou "Peace Be Still" (1971) de Nikki Giovanni e gravou um álbum, o elogiado "Gonna Take a Miracle" (1971), com a cantora/compositora Laura Nyro antes de assinar contrato com uma nova gravadora e lançar "Labelle" (1971).
Mas foi "Nightbirds" (1974), produzido pelo grande Allen Toussaint de Nova Orleans e contendo "Lady Marmalade", que alçou o Labelle ao superestrelato, chegando ao 7º lugar na parada Billboard e 272º na lista da revista "Rolling Stone" dos 500 maiores álbuns de todos os tempos.
"Elas trouxeram muito espírito e criatividade ao estúdio", lembra Toussaint em uma entrevista separada. "Todas as interpretações que elas fizeram, mesmo as descartadas, foram maravilhosas. Mesmo quando ainda estávamos aprendendo as canções, quando se sentavam ao meu lado no banco do piano, cantando suavemente suas partes, tudo soava digno de ser guardado para a posteridade."
O sucesso do Labelle veio acompanhado de certa controvérsia: a letra francesa de "Lady Marmalade" -especialmente o verso "você quer dormir comigo esta noite?"- pode soar moderada segundo os padrões atuais, mas provocou escândalo em 1974.
Dash diz que o grupo nunca hesitou em gravá-la e não se arrependeu de seu sucesso.
"Algumas freiras em Seattle se voltaram contra nós", lembra Dash. "Elas disseram que não estávamos representando as mulheres da maneira correta. Havia todo tipo de debate: 'Alguém sabe o que estão dizendo? O que isso significa?' A coisa toda foi como uma tempestade e mudou nossas vidas."
Dois anos e dois álbuns depois, o Labelle chegou a um fim abrupto -apesar de Dash dizer que ocorreu sem qualquer grande rancor.
"Nós estávamos crescendo em direções diferentes. Patti queria cantar mais baladas, Nona queria gravar mais rock. Eu estava interessada em todo tipo de música (...) Foi como estar em um divórcio: um dia você acorda e diz, 'eu não quero mais estar casada. Vou sair daqui'."
"Foi o que aconteceu entre nós três. Foi algo necessário."
Mas ela reconhece alguns arrependimentos.
"Nós não fizemos uma turnê para nos despedirmos de nossos fãs, e alguns ficaram bastante ofendidos com isso."
LaBelle teve a carreira solo mais bem-sucedida e visível, contando com sucessos como "New Attitude" (1985) e "On My Own" (1986), seu dueto com Michael McDonald que esteve no topo das paradas. Ela também fez aparições no cinema e estrelou o espetáculo de gospel "Your Arms Too Short to Box with God" (1981-1982) na Broadway.
Hendryx emplacou alguns sucessos próprios, incluindo "I Sweat (Goin' Through the Motions)" (1984), e colaborou como Peter Gabriel, Yoko Ono, Prince, Talking Heads e outros.
Por sua vez, Dash obteve alguns sucessos nas pistas de dança com "Sinner Man" (1978) e "Low Down Dirty Rhythm" (1983), participou da banda solo do guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richard, os X-pensive Winos, e cantou no álbum "Steel Wheels" (1989) dos Stones. Ela também criou um monólogo teatral, "Dash of Diva", além de integrar o teatro de revista do Teatro Zinzanni em San Francisco, além de iniciar uma carreira paralela como corretora imobiliária e abrir sua própria escola de arte e música.
O Labelle realizou algumas reuniões discretas antes de "Back to Now". Em 1995, o trio emplacou um sucesso nas paradas de dance music, "Turn It Out", na trilha sonora do filme "Para Wong Foo, Obrigada Por Tudo! Julie Newmar". E se reuniram com Birdsong para receber o R&B Foundation Pioneer Award em 1999.
Dash disse que o Labelle teve tempo de sobra para reunir material para "Back to Now". Hendryx trouxe Lenny Kravitz, que ouviu a canção "Superlover" e quis produzir o álbum todo, mas que acabou tendo tempo para produzir apenas três faixas. Dash recebe o crédito por tirar Gamble e Huff de uma semi-aposentadoria para trabalhar em quatro faixas do álbum.
"Eu telefonei (para Gamble) e ele disse, 'eu não faço mais isso'. Mas ele disse: 'Ok, me traga a música, me traga o que vocês fizeram com o Lenny'. Ele ouviu a música, mas continuava dizendo, 'Eu não faço mais isso', e eu sentada lá, olhando para ele, até que finalmente ele disse: 'Tudo bem, tudo bem, eu faço!'. E acho que ao ouvir o álbum você percebe que valeu a pena o esforço."
Reunido e se sentindo bem, diz Dash, o Labelle espera permanecer em atividade pelo futuro próximo. Além dos planos de turnê, sobraram canções das sessões de "Back to Now" que podem fornecer a base para outro álbum.
"O Labelle não mudou nada", ela diz, "exceto que provavelmente nos separamos cedo demais. Mas agora estamos de volta. Há muitas coisas que podemos fazer juntas, e apenas temos que assegurar que sejam planejadas de forma eficaz (...) porque temos um público lá fora ao qual prestamos muita atenção, e ele está empolgado com nosso novo momento."
"Logo, queremos fazer tudo direito, mas vejo que pode haver muitas coisas reservadas para nós no futuro."
(Gary Graff é uma jornalista free-lance baseada em Beverly Hills, Michigan.)
Tradução: George El Khouri Andolfato
|  |

|