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10/01/2009 - 17h50

"The New York Times": Berry Gordy Jr., o homem que fez a Motown

Gary Graff
The New York Times Sindycate



Há 50 anos em 12 de janeiro, Berry Gordy Jr. não era um executivo de gravadora. Ele tinha a semente de uma ideia para uma empresa que algum dia seria conhecida como Motown, mas antes que pudesse nutrir a ideia, ele tinha que vendê-la para um público muito difícil: sua família.

Gordy, que já tinha fracassado em vender árvores de Natal, em dirigir uma loja de discos e no boxe profissional, começou a emplacar sucessos como compositor para Jackie Wilson. Agora ele queria um empréstimo de US$ 1.000 do fundo da família, para o qual Gordy, seus pais e seus sete irmãos vinham contribuindo com US$ 10 por mês, para fazer uma gravação com outro cantor de Detroit, Marv Johnson.

Divulgação/Motown Records
Diana Ross, Mary Wilson e Florence Ballard do grupo The Supremes
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"Foi difícil, mas eu fui firme e forte e vendi a idéia com todo meu coração", lembra Gordy, 79 anos. "Eu apresentei minha idéia. Eu disse: 'Eu vou ser rico, eu vou ser famoso, eu vou ser o maior do mundo!' E eles disseram: 'Sim, mas você fracassou em tudo que já fez'."

"Mas duas das minhas irmãs, Gwen e Ana, estavam realmente do meu lado. E finalmente minha mãe olhou para o meu pai, eles olharam um para o outro, sentiram pena de mim e me disseram: 'Nós não lhe daremos US$ 1.000, mas lhe daremos US$ 800. Mas terá que assinar um documento afirmando que pagará essa dívida'."

"Eu fiz isso e gravei o disco, 'Come to Me', e o resto é história."

A partir desse começo modesto em 12 de janeiro de 1959, Gordy não apenas chegou ao Top 30 com "Come to Me" (1959), mas também construiu a empresa afro-americana de maior sucesso até aquela altura. Casando habilmente a música pop com o rhythm & blues e o gospel, sem contar a implementação de um plano de negócios mais habitual para uma fabricante de automóveis do que para uma gravadora, a Motown adicionou dezenas de artistas e incontáveis sucessos ao vernáculo da cultura popular. "My Girl" (1964), "Stop! In the Name of Love" (1965) e "I Heard It Through the Grapevine" (1967) são apenas alguns poucos dos títulos mais populares de uma lista que gerou mais de 180 primeiros lugares nas paradas e 14 nomes no Rock and Roll Hall of Fame até hoje, incluindo o próprio Gordy.

A Motown apelidou a si mesma como "O Som da América Jovem" e chamou sua sede em Detroit de "Hitsville, EUA". Ambos os apelidos eram apropriados diante dos feitos prodigiosos da empresa.

"A Motown é histórica -é um evento musical que só acontece uma vez na vida", disse o cantor/compositor/produtor Smokey Robinson, que encorajou Gordy a abrir sua própria gravadora visando maximizar seus royalties como compositor. "No primeiro dia (...) Berry Gordy disse: 'Nós faremos música para o mundo. Nós não faremos música "negra", nós faremos música contendo grandes histórias e grandes batidas'."

"Foi o que começamos a fazer e conseguimos."

De sua parte, Gordy chama a Motown de "uma situação séria", mas acrescenta rapidamente que nem sempre foi séria.

"Nós a curtimos. Nós a tornamos divertida. Havia uma mágica porque todos nós amávamos uns aos outros e todos sabíamos que o trabalho era o principal."

"Era música para todas as pessoas", prossegue Gordy, que descreve o som da Motown como "ratos, baratas, alma, entranhas e amor". "Ele foi construído com base na verdade. Nós compusemos canções, não tentávamos imaginar o que a outros vão querer comprar, o que a maioria faz. Nós dissemos: 'Quem somos? Nós somos pessoas normais. Então, se nos sentimos dessa forma em relação a algo, muitas pessoas provavelmente sentirão o mesmo, independente de sermos brancos ou negros, homens ou mulheres'."

"Era nisso que se baseavam as canções e é por isso que perduraram."

Gordy, que transferiu a Motown de Detroit para Los Angeles em 1972 e vendeu a empresa por US$ 61 milhões em 1988, é o centro da comemoração do aniversário, que avançará até 2010. A celebração teve início em dezembro, com o lançamento de "Motown: The Complete Nº 1's", uma caixa de 10 CDs em uma embalagem que imita a sede original da empresa, que agora é o Museu Histórico da Motown. O museu contará com astros da Motown como guias a partir da semana do aniversário e ao longo do ano.

Gordy e a ex-funcionária da Motown, Suzanne DePasse, que ganhou um Prêmio Emmy pela produção do especial de televisão "Motown 25: Yesterday, Today e Forever" (1983), estão trabalhando em um documentário de longa metragem que será lançado no final do ano. Um musical da Broadway baseado na história de Gordy estreará em 2010. Um concerto de gala em Detroit está marcado para novembro, e o museu contará com várias exposições especiais, começando em abril com uma dedicada a Marvin Gaye.

Enquanto isso, o Rock and Roll Hall of Fame and Museum em Cleveland inaugurou uma exposição especial, "Motown: o Som da América Jovem Completa 50 Anos", exibindo contratos, roupas, instrumentos, programas, partituras e outros itens.

Para sua própria surpresa, Gordy está apreciando a badalação.

"Pela primeira vez eu estou começando a apreciar", diz Gordy, notoriamente avesso à imprensa, que publicou uma autobiografia, "To Be Loved: The Music, the Magic, the Memories of Motown", em 1994. "Eu não preciso mais me preocupar com trabalho, em criar sucessos, lidar com artistas, nada destas coisas. Eu apreciei tudo isso, mas agora é um tipo diferente de prazer. É algo que envolve legado."

"E estou empolgado por estar aqui para desfrutar agora do que não podia desfrutar enquanto estava fazendo."

Gordy, que nos primórdios da Motown penhorava seus ternos para pagar pelas sessões de gravação, foi de fato o mestre do picadeiro da empresa, um dervixe rodopiante que orquestrava as atividades da empresa 24 horas por dia, sete dias por semana.

Ele compunha as canções, produzia as sessões e administrava os negócios. Ele estabeleceu uma empresa de serviço completo, onde os artistas não apenas eram gravados, mas também empresariados, treinados em etiqueta por Maxine Powell e a se apresentarem pelo coreógrafo Cholly Atkins. Gordy, que na época morava no segundo andar do prédio da Hitsville, recrutou alguns dos melhores músicos de Detroit para integrarem a banda do estúdio, os aclamados Funk Brothers, e estabeleceu os escritórios de forma que importantes produtores como Nicholas Ashford e Valerie Simpson, Robinson, Norman Whitfield e a equipe de Brian Holland, Lamont Dozier e Eddie Holland pudessem criar no local.

Ele até mesmo encontrou tempo para participar dos jogos de cartas realizados pelos artistas, compositores e produtores enquanto aguardavam sua vez no estúdio.

"Ele estava por toda parte", lembra Barney Ales, que atuou por duas vezes como executivo da Motown, em uma entrevista separada. "Era possível sentir o dedo de Berry Gordy em tudo o que se passava na empresa, quer estivesse fisicamente presente ou não."

William "Mickey" Stevenson, que dirigiu o departamento de artistas e repertório da Motown, diz em uma entrevista separada que Gordy era o homem que você precisava impressionar na Motown, particularmente nas reuniões de "controle de qualidade" na sexta-feira, onde os executivos da empresa se reuniam para determinar que canções deveriam ser lançadas, criticando abertamente cada candidato.

"Berry escutava todas as canções do começo ao fim", lembra Stevenson, que co-compôs e produziu sucessos como "Dancing in the Street" (1964), "Uptight (Everything's Alright)" (1965) e "It Takes Two" (1966). "Ele ficava rodando sua cadeira e escutando tudo até o fim, e todos ficavam inquietos, aguardando para saber o que ele achava."

O compositor Eddie Holland concorda que Gordy foi o coração artístico da empresa.

"Berry, por ser o compositor e produtor que era, estabeleceu um certo padrão", diz Holland em uma entrevista separada, "e eu acho que todos estavam cientes desse padrão e buscavam isso. Ele acreditava na canção que tinha uma boa idéia e uma melodia fácil de pegar, e ao reunir todas essas coisas ele fez com as canções se tornassem tão eficazes quanto eram".

O três vezes divorciado Gordy, que tem sete filhos e durante algum tempo namorou a estrela das Supremes, Diana Ross, reconhece que o ambiente da Motown fomentava "uma concorrência feroz" entre os talentos artísticos, assim como um "forte amor".

"Havia muitos debates acirrados naquelas reuniões, mas então Norman Whitfield trabalhava em uma gravação de Marvin Gaye, Marvin Gaye tocava bateria em uma gravação das Supremes e Eddie Holland escrevia letras para Norman Whitfield..."

"Meu talento era procurar pessoas e encontrar aquela mágica ou talento -eu achava que todo mundo tinha- e mostrar a elas como fazer aquilo brotar. Eu era bastante metido. Eu achava que podia transformar qualquer um em astro."

Às vezes ele pareceu fazer exatamente isso, ao trabalhar com um elenco que incluía tanto astros experientes como Gaye, os Four Tops e The Temptations, mas também novatos como "o pequeno Stevie Wonder" e as Supremes, adolescentes dos projetos habitacionais de Detroit que Gordy inicialmente rejeitou, porque ainda estavam no colégio.

A Motown também foi a primeira parada para talentos iniciantes como Neil Young, cujos Mynah Birds incluíam o futuro astro da Motown, Rick James, e Meat Loaf, que gravou um álbum para a Motown com o atual cantor do Little Feat, Shaun "Stoney" Murphy, enquanto ambos estrelavam uma montagem de "Hair" em Detroit.

Mas havia inimizade em meio ao amor. Gordy foi acusado de envolver o crime organizado para ajudar a Motown a vender seus discos e fazer com que fossem tocados no rádio, apesar de nunca ter sido indiciado por nada. Livros escritos posteriormente pela vocalista principal das Vandellas, Martha Reeves, pela ex-Supreme, Mary Wilson, pela ex-esposa de Gordy, Raynoma Singleton, e por outros pintaram um retrato ambíguo de Gordy, o descrevendo não apenas como visionário, mas também como narcisista e um ditador. Ele foi acusado de trapacear alguns membros da Motown no pagamento de royalties, mas notadamente Holland-Dozier-Holland, que impetraram uma série de processos contra Gordy em 1967.

Mais recentemente o filme "Dreamgirls -Em Busca de um Sonho" (2006), baseado na história das Supremes, escalou Jamie Foxx como uma versão pouco velada de Gordy, que passa a imagem de um autocrata manipulador.

Apenas em sua autobiografia de 1994 é que Gordy respondeu às críticas, um silêncio que ele admite que lhe custou caro.

"Um garoto negro de Detroit criou tudo isso", diz Gordy, "portanto nós temos todo tipo de rumor, por todo o país e o mundo, a respeito de nossos sucessos. Quando a desinformação chega às ruas, vira fofoca. Se não é contestada, o que nunca fizemos no passado, ela se transforma em fato".

"Antigamente eu estava ocupado demais seguindo em frente para responder algo. Eu nunca gostei de atenção, nunca gostei de ficar diante das câmeras para defender algo. Às vezes acho que isso foi sábio, em outras acho que pode ter sido um erro não ter impedido parte dessas coisas."

"Mas se tivesse feito isso, tivesse dedicado mais tempo para fazer isso em vez de trabalhar na música, talvez a Motown não teria crescido da forma que cresceu."

Ao longo dos anos, muitas das personalidades da Motown revisaram sua posição sobre como foram tratadas. Reeves agora é uma vereadora de Detroit, apesar de ainda se apresentar, e em uma entrevista separada compara a Motown a uma faculdade, dizendo que "aqueles que estão furiosos não entendem que não tinham dinheiro quando foram para a Motown, e que as forças criativas de lá é que geravam capital. Mas o capital era Berry Gordy".

"As pessoas da Motown... não podem não amar umas às outras", diz Gordy. "Smokey é o meu melhor amigo. Eu e Stevie conversamos. Otis (Williams, dos Temptations) e eu nos vemos com freqüência. Apesar do processo de 30 anos com Holland-Dozier-Holland... nós todos nos reunimos e eles disseram, 'Ei, nós amamos muito você', e eu disse, 'eu também amo vocês'."

"Olhar para trás 50 anos depois e encontrar essas mesmas pessoas falando a meu respeito e me entendendo e me amando dessa forma, minha nossa, quem não se emocionaria com isso?"

Seu maior arrependimento, diz Gordy, foi ter mudado a Motown de Detroit para Los Angeles.

"A gravadora teria se saído melhor se tivéssemos permanecido em Detroit", reconhece Gordy. "Houve momentos em que senti que foi estupidez ter vindo para cá e me envolver em outras coisas, apesar de termos feito filmes de sucesso como 'Mahogany' (1975) e 'O Ocaso de uma Estrela' (1972). Eu queria ingressar na indústria cinematográfica e fazer as coisas aqui. Se tratava de crescimento."

"Então eu ganhei o cinema, mas a música não se saiu tão bem."

Atualmente ele dedica seu tempo à "luta para proteger o legado" da empresa que criou e seu catálogo formidável -não que ele encontre muita resistência atualmente.

"É uma situação única e eu sou o maior presenteado agora, porque posso olhar para trás e... é um tipo diferente de desfrute. Eu gostei de produzir os discos, eu gostei de lidar com as pessoas, gostei de dirigir e andar com elas."

"E agora posso olhar para isso de uma forma diferente e dizer: 'OK, nós conseguimos, Nós realmente conseguimos'."

(Gary Graff é uma jornalista free-lance baseada em Beverly Hills, Michigan.)

Tradução: George El Khouri Andolfato


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