As décadas foram boas para Barry Manilow, apesar de não cantar suas próprias canções.
Desde o lançamento de "The Greastest Songs of the Fifties" (as maiores canções dos anos 50) em 2006, seu primeiro álbum a chegar ao primeiro lugar nas paradas em 18 anos, Manilow vendeu mais de 6 milhões de cópias daquele álbum e das coleções de sucessos subseqüentes dos anos 60 e 70. Todos se tornaram disco de ouro ou melhor, e tornaram Manilow o único artista a ter três estréias no Top 5 da parada Billboard entre 2006 e 2007.
Mesmo assim, diz o cantor, ele ficou surpreso quando Clive Davis da Arista Records, que concebeu a série "Greatest Songs" para Manilow, sugeriu que prosseguisse com "The Greastest Songs of the Eighties", que saiu em novembro e estreou no 14º lugar da parada Billboard 200.
"Quando ele mencionou isso, eu disse: 'Sério?'", lembra rindo o cantor/compositor de 65 anos. "Mas também foi o que eu disse quando ele teve toda a idéia da série. Quando ele disse os anos 80, eu pensei, 'bem, não foi quando surgiram todos aqueles sintetizadores?' Mas quando olhei para as canções lançadas nos anos 80, havia algumas ótimas que eu provavelmente poderia interpretar."
"Eu estou apenas seguindo a orientação dele de novo", diz Manilow. "Ele é um executivo de gravadora gênio do nosso século e sou um recebedor grato de seu brilhantismo. Se ele disser: 'Faça um disco de covers e eu lhe darei um primeiro lugar nas paradas', eu o seguirei a qualquer lugar."
Esse relacionamento surgiu bem antes de "Greatest Songs of the Fifties", é claro, e agora já dura 25 anos, 25 sucessos Top 40 e mais de 76 milhões de álbuns vendidos em todo o mundo.
Nascido Barry Alan Pincus, no Brooklyn, Manilow foi votado o "Melhor Músico" na Eastern District High School antes de frequentar a Faculdade de Música de Nova York e a renomada Juilliard School. Ele trabalhou no setor de correspondência da sede da CBS, em Nova York, antes de cantar como cantor de apoio de Bette Midler, posteriormente co-produzindo e arranjando seu álbum de estréia vencedor do Grammy, "The Divine Miss M" (1972).
Manilow também encontrou um nicho para suas sensibilidades comerciais, literalmente, compondo jingles publicitários para Band-Aid, Dr. Pepper e State Farm Insurance -apesar da crença popular de que ele criou o jingle clássico do McDonald's, "You Deserve a Break Today", não ser verdadeiro.
O primeiro álbum do jovem músico, "Barry Manilow" (1973), foi lançado pela Bell Records sem maiores resultados. Quando a Bell foi absorvida pela recém-criada Arista Records em 1974, entretanto, Davis viu algo em Manilow de que gostava. Ele manteve o jovem cantor/compositor após descartar grande parte do elenco da Bell, e a aposta deu resultado. Os dois passaram a década seguinte assistindo a uma sequência de sucessos, uma canção pop melódica atrás da outra: "Mandy" (1974), "Weekend in New England" (1976), "Can't Smile Without You" (1978) e "Copacabana (At the Copa)" (1978) entre elas.
Ironicamente, Manilow não compôs aquele que provavelmente é seu maior sucesso, "I Write the Songs" (1976), que foi composta por Bruce Johnston dos Beach Boys. Mas ele compôs muitas outras e em 2002 entrou para o Salão da Fama dos Compositores. Ele também é um produtor e arranjador bem-sucedido, com cada álbum que produziu para outros artistas -Midler, Dionne Warwick e Nancy Wilson- sendo indicado para um Prêmio Grammy.
Mas os louros também foram acompanhados de muitas pedradas. Logo após despontar como astro, Manilow se tornou o alvo favorito dos críticos e suportou algumas das censuras mais duras da era da música pop.
"Eu nunca entendi o que fiz de tão errado para me ver naquela situação... exceto criar a música mais maravilhosa possível", diz Manilow, que atualmente faz a maioria de suas apresentações ao vivo no Las Vegas Hilton e algumas datas esporádicas ao redor do país. "Eu não sei qual é o problema deles. Talvez eu fosse apenas incomodamente popular."
A popularidade diminuiu nos anos 80 e 90, apesar de Manilow ter usado esse tempo para buscar outras ambições criativas, como os jazzísticos "Swing Street" (1987) e "Singin' with the Big Bands" (1994), "Manilow Sings Sinatra" (1998), a produção autobiográfica para a Broadway, vencedora do Prêmio Tony, "Barry Manilow Live on Broadway" (1989), e "Harmony" (1997), seu musical sobre o grupo vocal alemão pré-Segunda Guerra Mundial, The Comedian Harmonists.
"Foi um bocado libertador. É claro que você quer os sucessos, não importa o que digam. Mas eu não sinto como se estivesse torcendo as mãos e chorando pela falta de sucessos ou algo assim. Eu encontrei muito o que fazer."
Então veio "The Greatest Songs of the Fifties" e um jogo totalmente novo.
E quais são os critérios para inclusão das canções nos álbuns "Greatest"?
"Todas ocuparam o primeiro lugar nas paradas e precisam ser ótimas canções. Elas precisam ter grandes melodias, de forma que eu possa mergulhar como músico, e precisam ter letras maravilhosas, ou pelo menos decentes, para que possa atuar nelas como intérprete."
"Então, quando comecei a olhar coisas dos anos 80, certamente havia canções suficientes que ocuparam o primeiro lugar nas paradas que possuíam grandes melodias com as quais eu podia lidar. Na verdade, eu fiquei surpreso por ainda haver tantas baladas nos anos 80. Eu achei que elas tinham parado nos anos 70 e que as máquinas tinham assumido, mas havia muitas melodias e muitas canções ótimas."
Para o novo álbum, Manilow escolheu material como "Time After Time" (1983) de Cyndi Lauper, "I Just Called to Say I Love You" (1984) de Stevie Wonder, "Careless Whisper" (1984) do Wham, e o sucesso de Bill Medley/Jennifer Warnes, "(I've Had) The Time of My Life", do filme "Dirty Dancing" (1987), assim como sua primeira escolha pessoal, "Open Arms" (1982) do Journey. A cantora country Reba McEntire participou da recriação do dueto de Kenny Rogers e Dolly Parton em "Islands in the Stream" (1983).
"Eu não queria que fosse um álbum do tipo covers-karaokê", diz Manilow, que deixou de fora do álbum uma tentativa sem sucesso de "Rock with You" (1979) de Michael Jackson. "Eu gosto de dar um toque próprio a elas a criar minha própria versão, mas não estragar a canção."
"Todas elas, desta década, foram um desafio maior do que todas as outras, porque são mais atuais e muito conhecidas. Cada uma dessas canções é muito conhecida e amada, de forma que recriá-las e mudar uma nota ou uma frase é muito perigoso. O ouvido do público poderia dizer, 'Quê?'"
"O desafio é permanecer onde o público conhece e então acrescentar meu toque, o que foi difícil."
Manilow está ainda mais cauteloso em relação a um álbum dos anos 90 do que em relação a este, mas reconhece que está começando a pensar a respeito... caso venha a acontecer.
"Eu tenho meu livro dos principais singles pop de todos os tempos. Eu não acho que exista muita coisa para mim nos anos 90. Surgiram o hip hop e o rap, R&B, foi uma década de garotas, Mariah Carey e Celine Dion. Então não me imagino lidando com os anos 90."
"Mas seguirei o Clive nisso. Ele ainda não errou, então tenho que levar em consideração esse retrospecto."
Mas ele está preparado para descartar uma coisa: um segundo volume dedicado às décadas que já cobriu até o momento.
"Eu acho que exploramos o melhor de cada década para mim. Isso não significa que não existam outras canções ótimas, mas para minha voz, meu estilo, eu não acho que deixamos passar alguma."
A rota dos covers foi bem-sucedida, mas Manilow espera gravar novamente um álbum de canções próprias algum dia, talvez até mesmo como seu próximo álbum.
"Eu realmente sinto saudade de compor", diz Manilow, que não faz isso desde "Scores" (2004).
Ele tem um álbum de material original em andamento, que ele descreve como uma peça conceitual que, "acredite se quiser, ele é um pouco mais voltado para o rock and roll do que jamais tentei. Eu não sei ao certo se posso cantá-lo, mas certamente estou me divertindo bastante compondo. Eu não sei onde isso vai parar, mas estou curtindo".
"Eu produzo, arranjo e sou um músico e intérprete, de forma que trabalho bastante fazendo todas essas quatro coisas nas canções de outras pessoas. Mas certamente é muito bom compor minhas próprias canções de novo."
(Gary Graff é um jornalista freelance baseada em Beverly Hills, Michigan.)
Tradução: George El Khouri Andolfato