A cantora e compositora britânica Adele diz que ainda não se decidiu se a música é o lance dela. Mas os eventos recentes podem ter resolvido o assunto para ela.
Adele recebeu seu primeiro prêmio Escolha dos Críticos no Brit Awards do Reino Unido antes mesmo de ter lançado seu álbum de estréia, "19", em 2008. O álbum ficou no topo das paradas britânicas e chegou ao 11º lugar na parada norte-americana Billboard 200, vendendo 1,2 milhão de cópias em todo o mundo. "Chasing Pavements" foi um sucesso global e Adele obteve quatro indicações para o Grammy, incluindo gravação do ano, canção do ano e revelação (a inglesa
venceu as categorias de melhor cantora pop e revelação).
Tudo isso a deixou "atordoada e chocada", mas longe de se queixar.
"Eu sempre cantei e sempre adorei cantar e coisas assim", diz Adele, "mas eu nunca, jamais imaginei que teria a chance de transformar isso em uma carreira e não ter que fazer outra coisa. Eu sempre imaginei que teria que trabalhar em um escritório ou algo assim e, dois ou três dias por semana, tocar para bêbados em um pub ou bar".
"E meio que comecei a levar a sério quando me foi oferecido um contrato de gravação. Eu pensei, 'Oh, nossa, talvez eu possa realmente fazer isto'. Então assinei o contrato e todas as peças se encaixaram no lugar. Nós não planejamos nada disto."
Adele Laurie Blue Adkins foi apresentada à música por sua mãe, uma terapeuta e fabricante de móveis que é, segundo sua filha, "uma hippie" cujo gosto varia de Jeff Buckley, Bob Dylan e Bob Marley.
"Minha mãe adora música, mas não toca e nem canta."
Sua epifania musical ocorreu quando tinha 4 ou 5 anos, quando uma amiga da família tocou uma versão do primeiro sucesso da cantora britânica Gabrielle, "Dreams" (1993).
"Eu fiquei cativada e encantada", lembra Adele, que interpretou outra canção de Gabrielle, "Rise" (1999), em sua primeira apresentação pública, em um programa natalino da escola quando tinha 11 anos. "Mas ("Dreams") ainda é a canção que sempre credito por ter me levado a isto."
Seu interesse pela música a levou à London School for Performing Arts & Technology, popularmente conhecida como Brit School, uma academia pública de artes em Croydon que tem entre seus ex-alunos cantoras famosas como Imogen Heap, Leona Lewis, Kate Nash e Amy Winehouse. Mas diferente de suas colegas de classe, ela deixou de lado as aulas de teatro, dança e teatro musical e se concentrou totalmente no currículo musical, tirando proveito dos recursos fornecidos pela escola.
"Eu não tinha dinheiro para gravar canções em um estúdio", lembra Adele, que apenas recentemente se mudou da casa de sua mãe. "Eu não tinha dinheiro para conseguir um espaço para ensaiar com uma banda ou para pagar outras pessoas para tocarem comigo. Mas na Brit School nós tínhamos um estúdio de gravação gratuito e salas de ensaio gratuitas das 8h até as 20h, além de cerca de, tipo, 50 garotos querendo tocar música. Então não precisávamos fazer testes nem nada, apenas tocávamos juntos de improviso e acabamos virando uma banda ou algo assim."
"Foi um lugar incrível e é muito encorajador ir a uma escola com outros garotos que querem ser produtivos, em vez de ficarem sentados vivendo às custas do governo."
Após uma amiga ter postado uma das demos de Adele no MySpace em 2004, ela lançou seu próprio site e logo começou a atrair fãs. Logo após se formar em 2006, a cantora e compositora novata publicou duas canções no site www.platformsmagazine.com e começou a se apresentar ao vivo. Um single independente, "Hometown Glory" (2007), um elogio à cidade de Tottenham, chamou a atenção da XL Recordings, um selo britânico que, ela reconhece, ela desconhecia até seus executivos a terem procurado.
A gravadora lançou "Chasing Pavements" no início de 2008. Graças em parte ao apoio de Jonathan Ross, uma personalidade influente da BBC, a canção chegou ao segundo lugar no Reino Unido e ficou entre os 10 mais em seis outros países, chegando ao primeiro lugar na Noruega.
"Eu a compus depois de uma pequena briga em um clube com o garoto de que fala a canção. Eu corri sozinha para casa, pela Oxford Street, e pensei: 'O que você está fazendo? Você está disputando uma causa perdida aqui'. Eu fui para casa e compus alguns poucos acordes e no dia seguinte fui até um produtor e a finalizei."
"É fácil quando você tem algo sobre o que compor."
"Chasing Pavements" provou ser um cartão de visita eficaz para "19", um álbum que mistura sensibilidade pop com influências de jazz e blues como Ella Fitzgerald, Billie Holiday e Etta James. Adele se viu audaciosamente cruzando fronteiras de gêneros, obtendo elogios de pares como Beyoncé e Kanye West e de vários setores da comunidade dos críticos. Ela até mesmo foi nomeada melhor artista de jazz no Urban Music Awards 2008.
"Eu nem sabia que tinha sido indicada para isso", diz Adele rindo. "Eu também não sabia que ganhei. Eu não me sinto nem um pouco como uma artista de jazz, mas é realmente bacana. Eu meio que entendo o motivo. Eu acho que parte das minhas coisas são meio jazzísticas, eu acho que às vezes o jeito como uso minha voz pode ser meio jazzístico, assim como o fraseado e outras coisas. Mas me considero uma artista pop. Não pop como a Britney ou algo assim, mas pop no sentido de música popular, e muito contemporânea."
"Mas não ligo para gêneros. É inevitável, mas é sempre bom ouvir as opiniões de pessoas diferentes."
Entre as surpresas do sucesso, ela diz, está "quão calorosas as pessoas podem ser com você".
"Eu ainda acho realmente impressionante como as pessoas podem não medir esforços para apoiar você e investir seu tempo e dinheiro em você. É a coisa mais gentil que existe. E também quão rapidamente as coisas se espalham e como certas coisas catapultam você."
Isso incluiria a apresentação de 18 de outubro de Adele no programa "Saturday Night Live", um programa com alta audiência que contou com a participação especial da então candidata à vice-presidência dos Estados Unidos, a governadora republicana do Alasca, Sarah Palin. A aparição de Adele como convidada musical impulsionou "19" 24 lugares para cima na parada Billboard 200 na semana seguinte.
"Eu fiquei realmente atordoada e chocada. As indicações para o Grammy... Esse é um mundo do qual nunca me imaginei fazer parte. E até mesmo tamanho interesse no álbum e tudo mais, é bastante surreal, sério."
Ainda há muita vida em "19", mas Adele agora tem 20 anos e já está trabalhando no seu próximo álbum, que ela planeja gravar neste ano em Malibu com um produtor cujo nome ela não quis revelar. Ela já compôs quatro canções para o projeto e está compondo mais -mas não quando está fazendo turnê.
"Minha cabeça fica muito cheia com a parte dos negócios e, quando tenho 10 minutos de descanso, eu meio que prefiro descansar a cabeça, não compor."
Quanto ao som do próximo álbum, Adele diz que está canalizando uma nova série de influências, citando os também indicados ao Grammy, Alison Krauss e Robert Plant, e o álbum deles, "Rising Sand" (2007), e a música de raiz americana da trilha sonora do filme "O Brother, Where Art Thou?" ("E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?", 2000).
"Eu não quero compor um álbum country ou bluegrass nem nada assim. Mas essas melodias são as melhores do mundo, então vou tentar incorporar muito disso no meu próximo álbum."
"Eu só preciso de um tempo de folga para poder compor, mas ainda estamos trabalhando em cima de '19'. Eu não acho que já encerramos com ele, então vamos ver o que acontecerá."
"Eu já estou satisfeita por ele estar indo tão bem. Eu estou simplesmente chocada e surpresa. Mas de uma forma boa, sabe como é?"
(Gary Graff é uma jornalista free-lance baseada em Beverly Hills, Michigan.)
Tradução: George El Khouri Andolfato