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Os integrantes do Casuarina Gabriel Azevedo, Rafael Freire, Daniel Montes, João Cavalcanti e João Fernando
Desde o início, em 2001, o Casuarina tem se destacado pela capacidade de conciliar a reverência à tradição do samba carioca à atitude moderna de quem cresceu embebido no rock e na música pop.
Se engana, no entanto, quem espera que a banda, formada por Gabriel Azevedo (voz e pandeiro), Rafael Freire (cavaquinho), Daniel Montes (violão), João Fernando (bandolim) e João Cavalcanti (voz e tantan), toque alguma espécie de híbrido samba-pop. O que a banda apresenta é o produto legítimo.
"O Casuarina é um grupo de samba, com instrumentação de samba, com uma história ligada ao samba", diz João Cavalcanti, "mas a gente traz uma bagagem que vai do funk americano ao funk carioca, do rock e do pop à música nordestina".
Em seu primeiro DVD, "MTV Apresenta: Casuarina", gravado ao vivo na casa carioca Fundição Progresso, o grupo reproduz a roda de samba que realizou no local durante três anos, sempre com convidados. Desta vez, receberam personagens ilustres tanto do universo do samba, como Roberto Silva e Wilson Moreira, como da música pop, como Moska e Roberto Frejat.
Apesar da fama de roqueiro radical, imortalizada pelo filme "Cazuza, o Tempo Não Para", o líder do Barão Vermelho não se acanhou e aceitou o convite para cantar "Já Fui Uma Brasa", de Adoniran Brarbosa, que brinca com a perda de espaço pelo samba nas rádios durante a explosão da Jovem Guarda.
Segundo João, "é prova do senso de humor e da inteligência fina do Frejat, pela ironia que isso carrega num momento em que o samba recupera espaço na mídia".
O projeto também se destaca pela qualidade técnica e cuidado com a produção. Captado em alta definição, "MTV Apresenta" sai não apenas em CD e DVD, mas também em disco de blu-ray, sendo o primeiro lançamento de samba neste formato no Brasil.
UOL Música - Esse novo trabalho que está saindo também em blu-ray. Quais foram os cuidados de produção para trabalhar num formato que exige tanta minúcia com a imagem e o som?
João Cavalcanti - Nossa preocupação básica é com a música, então procuramos nos cercar de pessoas que tenham o mesmo critério que nós. Por exemplo, com o Diogo Montes, que é o cara que fez as artes dos três discos e todos os nossos sites, a gente constrói uma identidade visual para o grupo. E tentamos seguir o mesmo princípio neste trabalho.
O Bruno Maia, diretor do DVD, tem uma produtora chamada 14 e o maior foco dela é esse cruzamento de mídias, lidar com a internet e estar sempre na vanguarda das tecnologias. Ele fez a captação em alta definição, já pensando em lançar em blu-ray. Quanto a Sony entrou no processo com a intenção de fazer, já topou fazer nesse formato.
UOL Música - O que ilustra bem a posição de vocês como uma banda moderna de samba. Apesar da reverência à tradição, vocês têm uma atitude moderna.
João Cavalcanti - A gente tenta conciliar esses dois aspectos, tentamos ser verdadeiros com a história pessoal de cada integrante e ao mesmo tempo nunca perder de vista o compromisso com a tradição do samba. E faz parte dessa tradição aceitar bem novas influências que agreguem valor. A prova é a bossa nova, que é o principal produto de exportação da música brasileira.
A gente foge dos estereótipos. Você não vai nos ver por aí de chapéu panamá... Seria um caminho fácil correr atrás de um respeito e de uma identificação através do estereótipo. A gente não quer isso, queremos que isso aconteça através da música. E a música transcende os estereótipos.
UOL Música - Enquanto seu pai (o cantor e compositor Lenine) tem um estilo mais moderno, você seguiu um caminho musical mais tradicionalista. Você vê isso como uma influência dele às avessas?
João Cavalcanti - Acho que não. Meu pai compõe muitos sambas, apesar da carreira dele não ser muito pautada por isso. O Lenine sambista sempre foi uma grande influência. Acho que a minha opção pelo samba tem mais a ver o fato de ser carioca. Todo carioca tem uma relação muito íntima com o samba. Mesmo quem diz que não gosta vai acabar ouvindo numa feijoada ou churrasco no fim de semana. A verdade do carioca é o samba, não tem como fugir disso.
Na verdade a gente tenta justamente não seguir esse caminho tradicionalista. Fazemos sambas bem comprometidos com a tradição do gênero, mas nas entrelinhas, incorporamos muitas influências de outros estilos. Por exemplo, nos arranjos vocais, minha maior influência é Beach Boys e outras coisas assim, que eu ouvi desde criança através dos meus pais.
UOL Música - Nos últimos anos tem surgido no Rio toda uma movimentação de artistas que parecem tentar resgatar esta alma carioca clássica, como vocês, a Orquestra Imperial e outros artistas, que apesar das diferenças, parecem ter um espírito comum. Vocês se sentem parte de uma cena neste sentido?
João Cavalcanti - O que eu posso dizer é que o Casuarina está inserido numa geração de pessoas que ajudou a recuperar o bairro da Lapa, no Rio.Nesse sentido, nos identificamos muito com outros artistas dessa geração, mas cada um tem sua vicissitude. A Teresa Cristina, o Moyseis Marques e nós somos diferentes, mas fazemos parte da mesma geração que freqüenta a Lapa e trabalha um com o outro. E isso cria um conceito de geração.
Mas eu não chamaria de resgate. É a nossa verdade. E a verdade do carioca é o samba, não tem como fugir disso. Para mim, isso começou com o Chico Science. Pode parecer estranho, mas toda essa geração que saiu pelo selo Chaos, como Skank, Gabriel o Pensador, O Rappa e mesmo o Planet Hemp, flertava pouco com o samba, mas foi uma geração que voltou os olhos da juventude para a música brasileira numa época em que se ouvia muita música estrangeira. O Chico Science foi fundamental nesse processo.
UOL Música - Como os medalhões do samba estão lidando com vocês? Alguns dos sambistas consagrados já falaram alguma coisa sobre o trabalho de vocês?
João Cavalcanti - Quase todos! Esse tipo de preconceito purista é muito mais de quem ouve do que de quem faz. Porque quem faz respeita muito essa história do samba ser agregador e aceitar essas novas propostas. São poucos os sambistas com conhecimento de causa que refutam outros gêneros dessa maneira.
O DVD é fruto de uma roda de samba que a gente fez durante três anos na fundição progresso, onde ele foi gravado. Durante esses três anos cantaram com a gente lá o Dudu Nobre, Arlindo Cruz, Nonato, Luiz Carlos da Vila, Wilson Moreira, Alcione, Fabiana Cozza, Roberto Silva... enfim, muitos medalhões do samba cantaram com a gente.
UOL Música - E eles curtem ver uma geração nova levando o samba adiante?
João Cavalcanti - Sim, e o que eles esperam é ver essa geração fazer algo diferente. Com o respeito e a reverência que a gente sempre teve a eles, mas agregando algo novo.
Por exemplo, o Wilson Moreira é um ícone, um símbolo de artista e de pessoa. Ele diz no making-of do DVD que nunca cantou “Senhora Liberdade” com um arranjo tão bonito. Isso lisonjeia a gente, principalmente porque esse arranjo tem muitas outras influências. É o reconhecimento de que a gente está se movimentando para fazer uma coisa nova a partir da tradição.
UOL Música - Você sente que está abrindo os olhos da molecada para o samba, algo estava debaixo do nariz dela mas era ignorado?
João Cavalcanti - Acho que sim. Mais ou menos como os meus olhos foram abertos sem um recurso como a gente espera que seja o DVD do Casuarina. Quando eu comecei a ter mais intimidade com o samba, ele estava embaixo do meu nariz também e eu não via.
A gente pode tentar fazer com que as pessoas descubram sua identidade musical, apresentando a elas um samba que tenha um comprometimento com a tradição, mas que também tenha a ver com elas, do ponto de vista da imagem.
UOL Música - Que resposta vocês têm tido em São Paulo, que foi chamada de “túmulo do samba”?
João Cavalcanti - É, todo paulista que fala com a gente se refere a isso. E não foi chamada por qualquer um, quem disse isso foi o Vinícius de Moraes! Acho uma injustiça, mas o Vinicius deve ter tido lá suas razões, mesmo que tenha tomado meio litro de uísque antes. A verdade é que para nós esse argumento não vale, tanto é que já gravamos músicas do Adoniran e do Paulo Vanzolini, outro excelente compositor paulista.
Temos amigos que são artistas incríveis de samba de São Paulo, como a Fabiana Cozza , o Quinteto e Branco e Preto e outros do maior gabarito. São Paulo hoje é o principal centro de produção cultural do país e isso se reflete no samba.

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