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19/09/2009 - 14h14

Jerry Lee Lewis volta a São Paulo com mais música e menos perigo

PEDRO CARVALHO
Da Redação
  • Lucas Lima / UOL

    O cantor e pianista Jerry Lee Lewis se apresenta em São Paulo (18/09/2009)

Dezesseis anos depois de sua última visita ao Brasil, Jerry Lee Lewis provou na noite desta sexta-feira (18) que o prazo de validade ainda não venceu.

No show de uma hora no Credicard Hall, o cantor e pianista norte-americano misturou seus clássicos a um vigoroso repertório de novidades e obscuridades, para um público dividido entre fãs de terceira idade e gerações mais novas de rockers vestidos a caráter.

Às 21h40, começou o show de abertura, cortesia da banda de Edinho Santa Cruz. Consistindo de inexplicáveis sessenta minutos (o mesmo que o show principal) do que se chama por aí de "classic rock" (leia-se covers burocráticos e sem imaginação de coisas como "Another Brick in The Wall" e "Sultans of Swing"), a apresentação foi aplaudida no final. Não se sabe se por alívio ou entusiasmo legítimo

Felizmente, a banda de apoio de Jerry Lee Lewis não demorou a aparecer. Liderada pelo guitarrista Kenny Lovelace, acompanhante de Lewis desde 1965, o grupo aqueceu o público com seu rock and roll tipicamente sulista, começando com "Slippin' and Slidin'" de Little Richard.

Após quatro músicas, com destaque para "Big Boss Man", clássico do bluesman Jimmy Reed, Jerry Lee veio ao palco para delírio do público. Mesmo curvado e andando devagar, como é de se esperar de alguém que passou a maior parte de seus 73 anos abusando seu corpo e espírito de todas as maneiras conhecidas, logo que encostou no piano o artista honrou o apelido de "The Killer" ("o matador").

Se no show de 1993 o fogo infernal que abalou boa parte de sua vida ainda era visível, para o bem ou para o mal e Jerry Lee Lewis se portou como uma espécie de tio alcoólatra em festa de natal, desta vez o andamento foi mais lento e a sensação de perigo desapareceu. Já a parte musical melhorou consideravelmente.

Se por um lado a versão de 2009 é uma figura mais tranquila, gentil e talvez menos excitante, as primeiras notas do clássico "Down The Line", já acusaram se tratar da mesma pessoa. Não apenas a de 1993, como a de 1957, especialmente pelo estilo inadulterável ao piano, misturando boogie woogie, country e sua garra intuitiva original.

Logo em seguida veio "You Win Again", standard de Hank Williams que se tornou parte do cânone de Jerry Lee. Arrepiante, a balada mostrou o pouco explorado lado country do músico, que apesar de ter dominado sua carreira durante mais de duas décadas tem estado num injusto segundo plano.

A partir daí, com o apoio da excelente banda, Lewis se focou em lados B, versões e material relativamente recente. Mesmo que parte do público tenha se desanimado um pouco, o setlist demonstrou a força do repertório atual e acertou ao selecionar músicas que combinam mais com este momento de sua carreira.

Se faltaram sucessos como "High School Confidential", "Breathless" e "Crazy Arms", foi bom ver que Jerry Lee ainda explora seu potencial, diferente de contemporâneos seus que vivem de requentar sucessos dos anos dourados sem a energia para um show inteiro.

Mas no final, como não poderia deixar de ser, veio a dobradinha de "Great Balls Of Fire" e "Whole Lotta Shakin' Goin' On". Carros-chefe do cardápio do Killer, ambas de 1957, encerraram a apresentação fazendo a casa tremer.

Excetuando alguns problemas no som e a (já esperada) falta de bis, foi uma bela noite de rock and roll que, às custas de decepcionar parte do público, mostrou que, com o peso da idade, Jerry Lee Lewis continua o mesmo. Ou seja, fazendo e tocando apenas o que dá na telha, durante o tempo que lhe aprouver.

Se a mitologia sobre o individualismo e os excessos de Lewis virou folclore, a música, que é o que interessa, continua respirando. Um álbum de inéditas com o produtor certo viria a calhar. Se funcionou com Johnny Cash, por quê não com Jerry Lee?

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