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24/09/2009 - 07h45

Músico desconstrói sucessos do pagode dos anos 90 em versões em inglês

MARIANA TRAMONTINA
Da Redação
  • Túlio Pires Bragança/Divulgação

    O músico e publicitário Túlio Pires Bragança, que gravou versões de pagode em inglês

Quem viveu a década passada no Brasil não passou ileso pelo pagode das coreografias e dos versos românticos. Agora, o publicitário Tulio Pires Bragança, 27, resolveu tirar o gênero adormecido no limbo dos anos 90 e colocar para circular pela internet. Com um violão a tiracolo, ele gravou vídeos caseiros em que aparece tocando versões acústicas e cantando em inglês literal os hits do gênero que invadiram as rádios naquela época. Numa espécie de desconstrução do pagode, as releituras se espalharam pela web num revival dos sucessos "dor-de-cotovelo".

Três músicas fazem parte do acervo, ainda em construção, de Túlio: "Caçamba", do Molejo, que virou "Bring The Caçamba"; "Eu Me Apaixonei Pela Pessoa Errada", do Exaltasamba, chamada de "I've Fallen In Love With The Wrong Person"; e "Que Se Chama Amor", do Só Pra Contrariar, que ganhou o título de "That's Called Love". Em três semanas, seus vídeos contabilizam cerca de 3.800 exibições. "Toda a divulgação aconteceu mesmo pelo Twitter. As pessoas começaram a repassar os links, mesmo sem me conhecer", conta.


O repertório promete se ampliar: "Tô Te Filmando", dos Travessos, deve entrar no ar no próximo sábado (26). "Ainda faltam alguns ajustes léxicos, mas vou gravar. Estou pensando em fazer também uma versão para 'Poderosa', da Banda Brasil, que é um grupo que fez sucesso apenas com essa música. É o 'one hit wonder' do pagode". E quem não se lembra do refrão "vou nadar e morrer/ na beira da praia/ se não tiver você/ o meu coração chora/ a falta de você"?

Nas mãos do músico, o pagode ganhou ares intimistas. "A ideia é tocar de um jeito mais quadrado mesmo, sem ginga, como uma balada", define. Para construir a nova roupagem, Túlio gasta cerca de duas horas de seus finais de semana. "São músicas fáceis de tocar, grande parte delas tem só quatro acordes. Eu não sou um grande violonista", diz o publicitário, que já foi apelidado de "Emmerson Nogueira do pagode".

Nessa brincadeira, ele mostra também sua preocupação com as métricas na hora de transcrever os versos para o inglês. "A minha ideia é não traduzir 'saudade', que todos dizem que é intraduzível, e tem muitas músicas que falam de saudade", lembra. "Também não vou passar para o inglês palavras-chaves como 'caçamba', 'muamba', 'xodó'. Essa é a graça. A música do Molejo, que virou 'Bring The Caçamba', na verdade não significa nada em inglês".


Junto com a circulação dos vídeos, vieram também as sugestões de repertório. "A música que mais estão me pedindo é 'Cohab City', do Negritude Júnior. Já vieram até me pedir as versões em mp3, mas eu nem gravei". O publicitário, que trabalha com vídeos e vinhetas no canal Fox, é quem faz as versões, tira no violão, grava e edita. "Com o tempo a gente vai percebendo os defeitos. Já vi, por exemplo, que o enquadramento não está legal. Tem umas pessoas no meu trabalho que querem filmar e fazer uma produção melhor. Vamos ver o que sai".

Piada para brasileiro
Apesar de morar há quatro anos em Buenos Aires, Túlio dispensou a ideia de usar o idioma que utiliza hoje em seu dia-a-dia para cantar. "Passar a letra para o espanhol fica muito parecida com o português. A piada não é a mesma", explica. A paródia, no entanto, tem um lado sério. "Eu gosto mesmo de pagode, foi um estilo importante na minha vida. As pessoas não têm que ter vergonha de falar que já choraram ao som de 'Cigana' [Raça Negra]", defende.

Mesmo com uma nova geração de pagodeiros surgindo na cena musical, Túlio acredita que o pagode verdadeiro morreu nos anos 90. "O ritmo atual não tem o mesmo carisma e originalidade que antigamente. Acho que precisa de um maior reconhecimento dos cantores e compositores daquela época, que moviam multidões", diz o fã de Molejo e que mantém paralelamente o projeto Buenos Aliens.

Túlio não tem grandes pretensões com seu trabalho. "Quando gravei o primeiro vídeo fiquei com medo de que as pessoas achassem muito ridiculo. É meio vergonhoso colocar sua cara ali, tocando violão", conta. Agora a intenção é se divertir e divertir os amigos. "Sempre acontece de tocar essas músicas com os amigos, mas não sei se faria uma apresentação aqui em Buenos Aires. Isso é uma piada interna dos brasileiros. Para os argentinos, o pagode é só uma piada sem graça".

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