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23/06/2005 - 14h20
Argentina celebra 70 anos da morte de Carlos Gardel



MONTEVIDÉU, 23 jun (AFP) - Aclamado com paixão por multidões nas duas décadas que antecederam sua morte, em 24 de junho de 1935, Carlos Gardel é hoje, 70 anos depois, um mito que se mantém intacto dando razão àqueles que afirmam, sem pudor, que "a cada dia ele canta melhor".

Suas 1.500 canções continuam sendo executadas em emissoras de rádios dos três continentes, seus vinte filmes ainda ocupam um espaço nas programações de televisão, e seu túmulo continua sendo um local de peregrinação, assim como os museus dedicados a ele em vários países.

Gardel foi o homem que levou o tango dos subúrbios das cidades do Rio da Prata até Nova York, escala bem sucedida à sua invasão parisiense. Ele também foi o símbolo do amor ao turfe e o sucesso irresistível com as loiras platinadas dos Anos Loucos do período entre-guerras.

Ao mesmo tempo, é a eterna caricatura cercada de filigranas ainda presente nos ônibus e caminhões de Buenos Aires, que preservam a imagem do eterno playboy sempre trajando smoking, com cigarreira de ouro e bebedor contumaz.

Além de tudo isso está o eterno sorriso que, as fotografias comprovam, ele ostentava a cada momento. Sorriso que os desenhistas de hoje continuam ampliando a cada ano um pouco mais, enquanto só faz aumentar a polêmica sobre se nasceu na cidade francesa de Toulouse (sul) ou na região rural uruguaia de Tacuarembó.

A devoção popular lhe rendeu dezenas de apelidos, alguns superlativos, outros irônicos ou poéticos, tais como "El Mudo", "El Mago" ou "Zorzal Criollo", em alusão a uma ave cantora dos pampas e à sua origem de filho de europeus. Mas para todos é simplesmente "Carlitos".

Seus filmes, gravações, as muitas turnês pela América Latina, Europa e Nova York, as milhares de apresentações em cabarés, clubes noturnos, auditórios de rádio e teatros forjaram o mito de cantor de tangos, 'latin lover', playboy, galã.

Sua morte repentina, em um acidente de avião, quando estava no auge da fama, com a voz e a figura intactas, o poupou da lenta decadência da velhice e o fixou na memória coletiva em seu melhor momento.

Talvez por isso o túmulo de Carlos Gardel, no cemitério de Chacarita, em Buenos Aires, seja até hoje um local de peregrinação, onde muitos o veneram com uma devoção quase religiosa.

Uma enorme estátua em bronze em que Gardel aparece trajando seu típico fraque e com um cigarro na mão se destaca no enorme cemitério de 95 hectares.

Os visitantes são latino-americanos, europeus e até mesmo japoneses. Para alguns é uma atração turística. Outros chegam com fervor místico e, como se tratasse de um integrante do panteão de alguma religião idólatra, lhe pedem favores e lhe deixam oferendas.

"Obrigada, Carlos, pela graça recebida para o meu sobrinho", diz uma placa deixada ao pé de sua estátua por alguém que assinou simplesmente Raúl. "Carlitos, faça crescer meu cabelo", pede Anabel em uma inscrição feita sobre a pedra.

Mas não só Buenos Aires, cidade adotiva do cantor, presta tributos a ele. Em Medellin, Colômbia, onde ele morreu, há um museu montado ao redor de uma cadeira de barbearia que "El Mudo" costumava freqüentar.

"Aqui Gardel é uma religião, uma fé, se vive intensamente, isto foi o primeiro que me surpreendeu nesta terra colombiana", destacou Leonardo Nieto, um argentino residente na cidade há décadas e encarregado da Casa Gardeliana.

No Chile Gardel também continua vivo. Mas naquele país, a cada 24 de junho não se comemora a morte de "Carlitos", mas o nascimento do mito gardeliano.

Naquele país se celebra, durante todo o mês, um festival nas salas de Santiago, Viña del Mar, e outras cidades. É "uma homenagem ao nascimento do mito e não à morte de Gardel", explica o ator Jorge Alis, organizador das comemorações chilenas.

O Uruguai é um caso à parte, com particularidades únicas. Em Montevidéu existe uma emissora de rádio em amplitude moderada que transmite durante seis horas por dia - em doze blocos - exclusivamente canções de Gardel.

É um repertório limitado às 400 gravações de melhor qualidade técnica que a rádio repete sem cessar por 40 anos.

Em Tacuarembó, a pequena cidade que reivindica ser a cidade natal de Gardel, existe uma emissora de TV a cabo chamada de Telegardel.

Carlos Gardel cantou como poucos as coisas do cotidiano, a alma do povo, os bairros de ruazinhas estreitas, os amores - femininos ou pela terra - e aos cavalos de corrida e as desventuras dos aficionados do turfe.

Ele iniciou sua carreira em 1913 no cabaré Armenonville de Buenos Aires, sua pátria artística e por adoção, pois se naturalizou argentino em 1920, que o levou aos palcos de Brasil, Uruguai, Estados Unidos (sobretudo Nova York), Espanha, França, Porto Rico, Venezuela, Colômbia, Chile e Paris.

Musicalmente, o canto de Gardel era de uma inflexão intransferível, devido ao seu caloroso e diferenciado timbre de barítono. Ele ostentava uma impostação natural impecável e todas as suas notas eram cheias e uniformes: quando cantava, a música e a palavra eram de uma unidade indestrutível.

O musicólogo uruguaio Lauro Ayestarán definiu as virtudes de "El Mago" como as de um intérprete "criador", que sendo igual a si mesmo, criava várias condições sonoras e servia ao texto literário, adequando-o ao seu sentido mais visceral.

Gardel foi criador e vanguardista, manipulou o fenômeno comunicacional como poucos conseguiram fazer, apesar da precariedade técnica dos anos 20, e soube alterar a linguagem atrevida e limitada da gíria de Buenos Aires à pureza romântica que interpretava - sem exceções - a todo o mundo de língua hispânica.

Em números, o fenômeno Gardel chegou a totalizar 20 filmes entre mudos, sonoros e curtas-metragens, algo que faz com que chegue a ser apontado como um dos criadores do que agora se denomina videoclipe.

Ele compôs cerca de 30 temas, entre eles "El día que me quieras", "Arrabal Amargo" e "Por una cabeza" e fez 1500 gravações, registradas com o sistema acústico com os primeiros microfones.

Sua voz é repetida em milhões de discos, que do formato original e das 78 rotações por minuto, foram passando ao vinil, à fita cassete e ao CD.

As imagens de 'Carlitos" revivem em cópias em VHS ou DVD de seus filmes, exibidos ainda na televisão a cabo ou aberta.

Os desenhos do uruguaio Hermenegildo Sabat e, entre outras, as fotos no estúdio de José Silva, em Montevidéu, estamparam para sempre seu sorriso, que a morte não conseguiu apagar.

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