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21/05/2009 - 08h00

The New York Times: "Nós somos o Devo (de novo)"

The New York Times
Por Gary Graff

Há um inegável orgulho na voz do baixista Gerald Casale quando ele comenta que, há 30 anos, sua banda Devo era "um pára-raios de hostilidade". Uma crítica, ele recorda, chamou o quinteto de Ohio de "fascistas". Outra os chamou de "palhaços".

O cantor Mark Mothersbaugh lembra de serem punidos porque "eles não têm uma guitarra em todas as canções. Como podem ser uma banda de rock?" ou "eles usam uma bateria eletrônica... como alguém pode fazer isso?"

O Devo certamente não era apenas mais uma banda de rock: roupas bizarras, como os macacões de laboratório amarelos e chapéus vermelhos de "vaso de flor" de cabeça para baixo, e música idiossincrática, incluindo um cover frenético de "(I Can't Get No) Satisfaction" dos Rolling Stones, também ajudaram a fomentar desprezo tanto quanto familiaridade. Mas o sabor doce da nostalgia apenas beneficiou o Devo.
  • Alexandre Schneider / UOL

    Show do Devo no festival Planeta Terra, em São Paulo (10/11/2007)

Atualmente o grupo --que planeja entregar "toda uma série de canções" neste ano, diz Casale, além de um documentário e turnê-- é mais popular do que polarizador, e é regularmente saudado como uma influência para uma geração de bandas que surgiu no seu rastro. Não é preciso olhar muito longe: "Freedom of Choice" (1980) foi o primeiro álbum que teve o atual baterista Josh Freese, que deixou seu posto no Nine Inch Nails para se dedicar ao Devo.

"Todas as outras bandas nas quais me interessava quando era mais novo, eu olho para elas e me sinto embaraçado e digo, tipo, 'eu não acredito que gostava disso' ou 'eu não acredito que tinha um pôster daquela banda na minha parede quando tinha 12 anos'", diz Freese, ao lado do restante da banda na South by Southwest Music + Media Conference deste ano.

"Mas o Devo foi a banda que, à medida que ficava mais velho e mais inteligente, não se tratava apenas dos trajes, das músicas que pegam fácil e do 'legal, isso é engraçado e estranho'. À medida que fui ficando mais velho, eu dizia, 'isso é realmente pesado', e me identificava com a banda musical e visualmente", conta o músico.

A experiência de Freese é algo comum atualmente, o motivo da atual atividade do Devo ser objeto de tamanha atenção extasiada. A apresentação do grupo no South by Southwest lotou o Austin Music Hall com os fãs cantando junto músicas favoritas como "Jocko Homo" (1978), "Girl U Want" (1979) e o sucesso "Whip It" (1979).

O Devo gravou um vídeo para uma nova canção, "Don't Shoot Me (I'm a Man)", e o lançou via internet em abril, além de ter feito duas apresentações no início de maio no festival All Tomorrow's Parties, na Inglaterra, tocando na íntegra seu álbum de estréia, "Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!" (1978), em um deles.

"Nós voltamos de forma séria", diz Casale, de 60 anos. "Nós temos dois públicos agora, dois públicos distintos, o que é ótimo. Nós temos um público universitário que nos descobriu pelo YouTube, e temos as pessoas que lembram o que o Deve fez no começo, quando éramos uma espécie de ícone cultural ou seja lá como quiser chamar. E quando olhamos para o público, nós vemos ambos os grupos etários, o que é fantástico", diz.

"Nós incomodamos as pessoas"
A aceitação demorou para vir. O grupo foi formado em 1973 como um sexteto em Akron, Ohio, fazendo sua primeira apresentação durante um festival na Universidade Estadual de Kent, que Casale e Mothersbaugh cursavam. Concebido como um projeto de arte multimídia tanto quanto uma banda, ele passou por algumas mudanças de formação até se estabelecer como um quinteto, com o baterista Alan Myers, Bob, o irmão guitarrista de Mothersbaugh, e Bob, o irmão guitarrista de Casale, posteriormente conhecidos respectivamente como Bob 1 e Bob 2.

Eles adotaram personalidades de personagens teatrais, como Booji Boy e o Chinaman, e começaram a experimentar com sons eletrônicos e as primeiras aplicações de sequenciadores e looping.

O primeiro passo real para a fama do Devo ocorreu quando seu curta metragem "The Truth About De-Evolution" (1976) ganhou um prêmio no Festival de Cinema de Ann Arbor e foi defendido por David Bowie e Iggy Pop, e tudo isso ajudou a banda a assinar um contrato com a Warner Bros. Records. "Q: Are We Not Men? A: We Are Devo" foi produzido por Brian Eno e ganhou disco de ouro, mas a música inicialmente era difícil para o público mainstream.

"Sim, nós incomodamos as pessoas", lembra Mothersbaugh, de 58 anos. Até mesmo o nome do grupo, com sua base na idéia da involução, era irritante. "Era considerado ultrajante, uma piada ou ambos", reconhece Casale. "Nós víamos um mundo onde algumas das coisas das quais as pessoas dependiam estavam ruindo. Nós víamos a ruína da infra-estrutura, da comunidade, da experiência cultural compartilhada e as pessoas pareciam estar ficando mais idiotas."

"Nós sempre fomos pró-informação e antiestupidez, e estávamos cercados, é claro, por muitos tipos fundamentalistas em Ohio. Mas o que é engraçado é que em 30 anos o mundo todo ficou muito mais fundamentalista. As liberdades que todos presumíamos que permaneceriam na cultura ocidental, no momento há, provavelmente, uma ameaça muito maior ao humanismo e à liberdade do que nunca."

As ambições criativas do Devo também não se enquadravam facilmente em uma indústria que estava amarrada à gravar discos e fazê-los tocar no rádio. "Nós não tínhamos apoio de nossos empresários, agentes e gravadoras naquela época", lembra Mothersbaugh. "Eles não queriam saber a respeito de filmes, séries de TV, games ou brinquedos, eles só conheciam uma forma de comercializar música."

Gradualmente, entretanto, o mercando alcançou o Devo. A MTV deu ao grupo um espaço para seu trabalho de vídeo inovador, culminando com o sucesso de "Whip It", e o apoio do canal de cabo à música punk e new wave também tornou o grupo mais acessível às massas. As danceterias se tornaram fortes promotoras.

Sucesso crescente
O Devo desfrutou de um sucesso crescente, incluindo um disco de platina para "Freedom of Choice" e sucessos em trilhas sonoras, como "Working in a Coal Mine", de "Heavy Metal -­ Universo em Fantasia" (1981), e "Doctor Detroit", o tema principal de "Dr. Detroit e Suas Mulheres" (1983).

O grupo fez uma pausa um tanto acrimoniosa em 1986, e a partir daí seus membros compuseram música para programas de televisão, filmes e videogames, produziram álbuns e dirigiram videoclipes. O Devo se reunia ocasionalmente para repentes esporádicos de atividade, como a gravação de uma nova versão de "Girl U Want" para o filme "Tank Girl - Detonando o Futuro" (1995), para um show no Festival de Cinema de Sundance, em 1996, e para aparições nas turnês Lollapalooza de 1996 e 1997.

O grupo também se associou à Disney para formar o Devo 2.0, um grupo de crianças interpretando versões para família das canções do Devo, e no ano passado lançou uma nova versão de "Watch Us Work It" (2007), produzida pelo grupo sueco Teddybears, para os computadores Dell.

Os principais membros do Devo oferecem vários motivos para sua recente retomada das atividades. "A 'De-evolution' é real", diz Casale. "Não é mais uma teoria, agora é uma realidade horrenda. (Assim, nós voltamos) para entreter todos aqueles que 'desevoluíram' como nós. Nós somos como os músicos no Titanic: nós somos seus amigos, e vamos tocar até todos nós afundarmos."

Por sua vez, Mothersbaugh diz que o quinteto está simplesmente ávido em fazer parte de uma, sim, indústria musical em desenvolvimento, que finalmente abraçou o terreno criativo há muito previsto pelo Devo.

"Com a indústria virada de cabeça para baixo", diz o cantor, "os novos desafios são aqueles do tipo que nos interessam. Nós estamos procurando por formas de usar a nova tecnologia que não existia quando começamos a fazer isto".

O Devo está "criando muito novo conteúdo em muitas frentes", diz Casale. Um novo álbum é provável, mas ele também prevê que o grupo "lançará coisas de formas novas, interessantes, empolgantes. Há muitas novas formas de distribuir sua música sem os canais convencionais. Nós estamos explorando todos os novos espaços para isso". Além de "Don't Shoot (I'm a Man)", o Devo também mostrou uma prévia de novas canções como "Fresh" e "What We Do", que Casale descreve como "um manifesto como 'Jocko Homo'".

O Devo também está em contato com artistas modernos como o LCD Soundsystem, Andre 3000 do Outkast, Justice e outros, ele diz "para um trabalho como ocorreu com os Teddybears. Tipo, 'Aqui está, mude. Nos mostre sua idéia do Devo. Faça o que quiser". Apesar dos anúncios anteriores, o grupo não trabalhará com a atriz/produtora Drew Barrymore no futuro filme "Whip It". Mothersbaugh integrou brevemente o projeto, mas não mais.

"Ela me contratou e demitiu em, tipo, duas semanas", ele diz rindo. "Ela cancelou todas as três sessões de gravação. Eu chutei o Devo para fora todas as vezes e trouxe um engenheiro de som e preparei o estúdio... e da terceira vez fiquei puto. Nós estávamos ao telefone. Ela me disse que não achava que nossos estilos de trabalho casavam, então fui demitido."

De qualquer forma, ele prefere passar seu tempo com o Devo. "Eu acho que ainda tocamos muito bem", diz Mothersbaugh. "Nós não tocamos tão rápido quanto antes, mas acho que as canções estão soando ótimas, as novas e as antigas."

Casale pensa o mesmo. "Nós voltamos apenas para sermos nós mesmos, porque é estupidez tentar ser qualquer outra coisa", ele diz. "Nós últimos anos, nós paramos de colaborar e... todo mundo fez suas próprias coisas. Agora estamos aqui para fazê-las com o Devo, de forma que é um momento empolgante."

(Gary Graff é um jornalista free-lance basead em Beverly Hills, Michigan)

Tradução: George El Khouri Andolfato

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