Por Gary Graff
The Dead vive de novo --e desta vez ele permanecerá assim, se depender dos membros da banda. Faz cinco anos desde a última vez em que o grupo, composto pelos membros sobreviventes do Grateful Dead, excursionou junto.
"Havia conflitos --musicais, pessoais, políticos e de negócios-- que se acumularam ao longo dos anos e se tornaram uma espécie de bloqueio de estrada para tocarmos juntos e nos comunicarmos como seres humanos", diz o percussionista Mickey Hart. "Agora o conflito acabou. Nós descobrimos que realmente amamos uns aos outros e amamos a música que fazemos. É extremamente claro que temos que fazer isto."
Esta determinação, que teve início em 2008 com
duas apresentações beneficentes para a campanha presidencial de Barack Obama, levou o The Dead ao seu status atual entre os vivos. O grupo --os membros do Grateful Dead, Hart, o baterista Bill Kreutzmann, o baixista Phil Lesh e o guitarrista Bob Weir, mais o tecladista Jeff Chimenti e o guitarrista Warren Haynes-- caiu na estrada para uma turnê de cinco semanas.
Lesh e Weir até mesmo apareceram no programa "The View" para divulgar a reunião --a coapresentadora Whoopi Goldberg é uma amiga e fã-- e há conversa sobre gravarem músicas novas juntos pela primeira vez desde o último álbum de estúdio do Grateful Dead, "Build To Last" (1989).
O grupo ainda não está comprometido com nenhum plano futuro, mas todos os envolvidos dizem que a sensação entre eles é a melhor que já tiveram --e muito melhor do que em anos recentes, desde a morte em 1995 do guitarrista icônico Jerry Garcia, o coração e alma da banda.
"Há um espírito ali que não há em nenhum outro lugar", diz Lesh, de 69 anos, que continua explorando o legado musical do Dead com sua própria banda, com a qual Haynes às vezes toca. "A maioria de nós tem tocado com a própria banda e realizando outros projetos há vários anos, e todos nós aprendemos coisas novas, novas abordagens e tivemos novas idéias. Parece que é hora de novo de nos unirmos e ver o que podemos fazer com tudo isso, de novo com uma mentalidade de grupo."
Kreutzman, 62 anos, que mora no Havaí, concorda que as várias experiências externas dos membros estão contribuindo para seu novo entusiasmo dentro do Dead. "Nós todos temos tocado com nossas próprias bandas --Ratdog (de Weir), Phil & Friends, minha banda BK3-- e tocando com diferentes músicos", diz o baterista. "Você traz personalidades diferentes, traz estilos diferentes que não costumava tocar. Você muda mais as coisas. E é algo renovador, como se tivesse cores diferentes com as quais pintar."
A música, diz Hart, no final supera qualquer coisa que possa tê-los mantido separados. "Quando realmente chegamos à essência da coisa, nós realmente não tínhamos muitas diferenças. Colocar estas poucas coisas de lado em nome da boa música não foi grande coisa."
De Warlocks a Grateful DeadAs raízes do The Dead remontam a 1964, na área da Baía de San Francisco, quando um grupo chamado The Warlocks --que nasceu do Mother McCree's Uptown Jug Champions-- teve que mudar seu nome porque outros Warlocks já tinham lançado álbuns. Ao se rebatizar de The Grateful Dead, a banda começou a mesclar gêneros incluindo rock, blues, jazz, country, folk e bluegrass em um caldo musical altamente improvisado que a tornou uma precursora da cena do rock psicodélico.
As músicas que tocavam nos shows eram sempre diferentes, assim como as interpretações individuais de cada canção, o que atraiu um grupo fiel de fãs, conhecidos como "deadheads", que continuam seguindo o grupo de show a show e registram metodicamente o que é tocado e como é tocado, como uma espécie de arquivista coletivo comunal.
"Há um grande interesse em cada nota que tocamos", diz Lesh, que se diz "impressionado" com essa devoção. "Nossa música é transitória, efêmera, improvisada. Idealmente, nunca é a mesma. Isso é o que certamente a torna interessante para nós e, eu suponho, para esses fãs."
O Grateful Dead permaneceu vivo por três décadas, resistindo às mortes de três tecladistas assim como vício em drogas, problemas com empresários, problemas financeiros e turbulência interna enquanto continuava servindo aos deadheads a rotina regular de turnês e um fluxo constante de músicas que, ocasionalmente se conectavam com o público de massa, com sucessos como "Casey Jones" (1970), "Truckin'" (1970), "Alabama Getaway" (1980) e "Touch of Grey" (1987), a única canção da banda a figurar entre as dez mais das paradas.
A morte de Garcia pareceu conduzir as coisas ao fim, mas quatro anos depois Hart, Lesh e Weir se reuniram de novo para tocar canções do Dead com o nome de The Other Ones. No ano seguinte Kreutzmann retornou, mas Lesh saiu.
The Dead ainda viveEm 2003, todos os quatro membros sobreviventes se reuniram, abandonando o faz-de-conta de outro nome para se chamarem simplesmente de The Dead. Após 2004, entretanto, cada um seguiu seu caminho e o Dead parecia, bem, morto.
Foi o filho de Lesh, Brian, um calouro universitário e voluntário de Obama, que ajudou a trazer o Dead de volta. "Ele envolveu minha esposa e eu no fenômeno Obama", diz Lesh. "Era bastante convincente e ele era obviamente o homem do momento."
O baixista ofereceu sua banda para tocar em um comício antes das primárias da Califórnia, mas isso não era suficiente para seu filho. "Brian disse: 'Não, pai, você precisa trazer o The Dead de volta para isto, porque seria muito mais chamativo e significativo", ele recorda.
Hart, Lesh e Weir de fato tocaram em um comício "Deadheads por Obama" em 4 de fevereiro. Oito meses depois, Kreutzmann voltou ao continente para se juntar aos seus colegas para o concerto beneficente "Change Rocks" na Universidade Estadual da Pensilvânia. "Depois daquilo", diz Kreutzmann, "eu apenas pensei o que era óbvio: 'Vamos em frente e organizar uma turnê, sabe como é?' Por que dedicar tanto esforço e não dar continuidade nisso?"
Em vez da formação expandida que excursionou em 2003 e 2004, que Weir disse ter sido uma das fontes de conflito na época, os quatro decidiram manter esta versão do The Dead ao sexteto clássico do Grateful Dead. "Havia gente demais a bordo antes e havia uma espécie de congestionamento musical", diz Weir. "Desta vez é uma formação mais enxuta e a banda está mais ágil."
O grupo ensaiou bastante para a turnê, incluindo uma sessão de 12 dias em fevereiro e outra antes do início da turnê em 12 de abril. Durante essas sessões o The Dead ensaiou mais de cem canções de seu catálogo, oferecendo aos fãs encantados raridades como "Bird Song" (1971) e "King Solomon's Marbles" (1975), assim como covers de músicas favoritas dos Beatles, Bob Dylan e Rolling Stones.
"Nós estamos tentando tocar o máximo de músicas que podemos", diz Weir. "Estamos tocando músicas que não tocamos em 35 anos... É uma grande tarefa tirar a banda da aposentadoria. O ímpeto de trazer o The Dead de volta teve que crescer até fazer sentido para todos nós", ele prossegue. "Nós ficamos com um gosto de trabalho inacabado e todos sabemos disso. A certa altura simplesmente fez sentido para nós voltarmos."
Mas quando o assunto se volta ao futuro, os membros da banda falam com cautela. "Nós meio que sentimos que devemos dar um passo de cada vez", diz Lesh, que diz não ter planos de fazer mais shows além dos atualmente agendados. Weir é mais otimista ("meu palpite é que provavelmente vamos querer voltar a isso antes que escape de nós de novo", ele diz), mas também evita ser específico.
"Nós estamos nos reconectando"De qualquer forma, há muito material do Dead para sair. O grupo continua lançando gravações de arquivo de shows ao vivo do Grateful Dead por meio de seu acordo de licenciamento com a Rhino Records. Os lançamentos deste ano incluem um concerto de 1977 em Hartford, Connecticut, e uma apresentação de 1968 que faz parte de uma série chamada "Road Trips".
O Grateful Dead Channel da rádio Sirius XM está transmitindo alguns shows ao vivo de 2009, e uma equipe que inclui o filho de Kreutzmann, Justin, também está filmando e fotografando a turnê. Mas gravar nova música é outro assunto. Hart, 65 anos, considera "inevitável" e prevê que a turnê deste ano pode levar a "uma tentativa séria de nova música do Grateful Dead".
"É preciso ser capaz de tocar a (velha) música do Grateful Dead para poder fazer nova música do Grateful Dead", ele diz. "No momento, eu acho que estamos tentando tornar a música nossa de novo e torná-la um banquete realmente suntuoso, diferente de um aperitivo ou algo assim. É preciso aprender a essência musical para sermos capazes de realizar as conversas em um nível intuitivo com os outros músicos, coisas que simplesmente exigem tempo."
No final, diz Weir, a banda ainda é uma obra em progresso. "É uma situação orgânica", ele diz. "Nós falamos uma língua que ninguém mais fala. Ela vem daqueles anos todos na estrada: se você somar o tempo que passamos apenas no palco tocando juntos, o resultado seria anos. Amizades se desenvolvem, sentimentos se desenvolvem que não acho que poderiam ser encontrados de outra forma. Nós estamos nos reconectando a tudo isso agora", conclui Weir, "e não acho que deixaremos isso escapar tão cedo. Ao menos eu espero que não".
(Gary Graff é um jornalista free-lance baseado em Beverly Hills, Michigan)
Tradução: George El Khouri Andolfato