UOL Música Notícias
 

31/10/2009 - 09h00

Saxofonista Clarence Clemons lança biografia e narra encontro com Bruce Springsteen e início da E Street Band

The New York Times
GARY GRAFF*
The New York Times Sindycate
  • Jo Lopez/NYT

    O saxofonista Clarence Clemons ao lado de Bruce Springsteen em show com a E Street Band

Ao longo dos anos, durante a ritualística apresentação dos integrantes de sua banda nos shows, Bruce Springsteen inventou uma infinidade de apelidos para Clarence Clemons: Rei do Mundo, Mestre do Universo, Super-Homem do Saxofone, Homem Mais Sexy Vivo e, é claro, Big Man (ou o Maioral, em português). Da próxima vez, ele terá outra nova opção: Escritor. Clemons, que toca com Springsteen desde que ele formou a E Street Band em 1972, escreveu uma espécie de autobiografia, "Big Man: Real Life & Tall Tales".

Em colaboração com o amigo Don Reo --um roteirista de televisão cujos créditos incluem séries que vão desde "Rowan & Martin’s Laugh-In" (1970-1972) e "M.A.S.H." (1976-1977) até "My Wife and Kids" (2001-2005) e o atual "Brothers"-–, o saxofonista oferece um raro vislumbre interno da E Street Band. É ele o braço direito de Springsteen, firmemente estabelecido na capa do álbum "Born to Run" (1975).

"Acho que tenho escrito este livro durante toda minha vida”, diz Clemons, falando por telefone de Nova York, no meio da turnê "Working On a Dream" de Springsteen. "Don e eu andamos muito juntos. Um dia estávamos sentados no barco conversando e eu estava contando histórias até que ele disse: 'sabe de uma coisa? Devíamos escrever um livro'. Eu disse brincando que devíamos fazer isso, mas depois pensei a respeito e achei que era realmente uma boa".

"Big Man" não é uma autobiografia convencional. O livro de 400 páginas mistura lembranças de Clemons com "lorotas", histórias fantásticas espalhadas por todo o livro e que Clemons diz que "poderiam ser verdade ou são verdadeiras em certos aspectos", mas servem principalmente para adicionar um sabor mitológico à narrativa. No prefácio, Springsteen saúda "Big Man" por ser "o mais próximo da 'verdade' sobre Clarence Clemons que posso imaginar", acrescentando que "há apenas uma ou duas histórias que eu juro que não são verdadeiras".

Clemons, de 67 anos, diz que ele e Don não veem o livro como uma descrição de algo que realmente aconteceu, mas sim como talvez tenha acontecido. "Nós vemos ['Big Man'] como algo divertido. Não são apenas fatos ou uma biografia. Nós os misturamos com coisas que o tornam mais divertido e interessante. Eu não queria escrever um livro sobre minha vida, porque poderia ser entediante, e minha vida está longe de ser entediante".

Clarence Clemons - Solo em "Jungleland"

O encontro com Springsteen
O livro "Big Man" não perde muito tempo nos primeiros anos de Clemons, que ele passou em Norfolk, no Estado norte-americano de Virgínia, onde era o mais velho dos três filhos do dono de peixaria Clarence Clemons Sr. e sua esposa, Thelma. Era uma "família muito espiritual", diz o saxofonista, notando que seu avô e um de seus tios eram pregadores batistas do Sul.

A igreja teve um grande papel na vida de Clemons. "O tempo todo meu avô gritava que o demônio podia entrar em você, e não fazia muito sentido para mim porque sempre pensei em Deus como o sentimento de amor. E quando o coral cantava, eu via o poder que a música tinha, como as pessoas se deixavam envolver pela música. Aquele sentimento no meu coração era tão empolgante que decidi: 'é o que quero fazer na minha vida, quero levar essa alegria para as pessoas'".

O caminho musical de Clemons teve início quando, aos 9 anos, ele ganhou um saxofone alto de presente de Natal. Ele passou para o saxofone barítono na banda do colégio e, quando um tio lhe deu um disco de King Curtis, ele ficou encantado pelo lendário saxofonista da soul music. Ele frequentou a University of Maryland Eastern Shore, em Princess Anne, com uma bolsa de estudos combinada de música e futebol.

Na universidade ingressou em sua primeira banda, The Vibratones, e também jogou em um time de futebol americano que incluía o futuro astro do New York Jets, Emerson Boozer. Sua tentativa de jogar profissionalmente no NFL foi arruinada por um sério acidente de carro, um dia antes de um teste nos Cleveland Browns. "Mas eu amava igualmente a música, talvez mais, então eu acho que pode ter ocorrido uma intervenção divina".

Um emprego no qual trabalhava com crianças com problemas emocionais levou Clemons a Nova Jersey, onde entrou em outra banda, chamada Norman Seldin & the Joyful Noyze. O grupo tocava no mesmo circuito que Springsteen, e Clemons sempre ouvia falar "desse sujeito, 'Bruce! Bruce! Bruce!'" pela cantora do Joyful Noyze, Karen Cassidy. "Ela dizia: 'quando vocês se conhecerem e começarem a andar juntos, isso vai mudar a música. Vai mudar o rock and roll. Vai mudar sua vida'", lembra Clemons rindo.

Ele desdenhava a ideia dela, mas certa noite o Joyful Noyze estava tocando no Wonder Bar e a banda de Springsteen estava a apenas três quadras de distância, no Student Prince, em Asbury Park. Clemons decidiu conferir a apresentação de Springsteen. Como contam as lendas, era uma noite escura e tempestuosa, e a porta do clube soltou as dobradiças quando Clemons entrou, com sua silhueta intimidante preenchendo toda a entrada. "Isso aconteceu de verdade", insiste Clemons.

Bruce Springsteen & The E Street Band

O músico continua: "eu era o único negro na casa, parado na porta com todos aqueles trovões e raios às minhas costas. Eu entrei e vi Bruce, e disse que queria me sentar. E ele ia dizer 'não' para esse negrão? Então me sentei com ele e a realidade de toda a coisa ganhou vida. Nós olhamos um para o outro e eu nunca vou esquecer o rosto dele nem como me senti. Nós vimos a coisa toda, e quando fui embora, eu sabia que ficaríamos juntos. Ele era o que eu precisava na minha vida e eu era o que ele precisava na vida dele".

Hiato na E Street Band
A amizade e o relacionamento de trabalho entre Clemons e Springsteen sobreviveram ao longo dos anos, resistindo até mesmo à decisão de Springsteen de colocar a E Street Band no hiato de uma década em 1989. Em "Big Man", Clemons conta como soube da decisão do cantor por um telefonema, enquanto o saxofonista estava no Japão excursionando com a primeira All-Star Band de Ringo Starr. "Pela primeira meia hora após a conversa fiquei muito furioso e extremamente magoado. Eu sabia que a gente chegaria a este ponto, mas ainda não era a hora".

Então a realidade de tudo apareceu. "Eu disse: 'eu sei que isso é o que ele quer fazer e tudo bem'. Fiquei grato pela oportunidade que tive, mas também disse para mim mesmo: 'isso não é para sempre. É apenas uma coisa temporária enquanto Bruce está tentando outras coisas'. E superei aquilo. Eu sabia que voltaríamos e aqui estamos".

Clemons já trabalhava em projetos paralelos mesmo antes da E Street Band ser colocada de lado. Ele apareceu tocando trompete em "New York, New York" (1977) de Martin Scorsese e fez participação especial na sitcom "Diff'rent Strokes" (1985). Também lançou dois discos solo, "Rescue" (1983) e "Hero" (1985), fez dueto com Jackson Browne no single "You're a Friend of Mine" (1985) e tocou sax solo no sucesso de Aretha Franklin, "Freeway of Love" (1985).

Enquanto a E Street Band estava no gelo, ele lançou mais dois álbuns, "A Night with Mr. C" (1991) e "Peacemaker" (1995), formou uma banda chamada Temple of Soul e fez mais trabalhos como ator. Ele também continuou os estudos com Sri Chinmoy, o guru que conheceu por intermédio do colega músico e integrante do Temple of Soul, Narada Michael Walden, que convenceu Clemons de que seu propósito na vida era de fato "levar alegria e luz para as pessoas".

Sua própria alegria e luz diminuíram um pouco nos últimos anos por causa de problemas físicos, que lhe obrigaram a colocar próteses no quadril e joelho, além da instalação de um marcapasso. Os fãs da E Street se preocuparam com sua saúde quando o viram sentado no palco sem tocar de fato. Clemons reconhece que a preocupação deles era fundada. "Eu também estava preocupado comigo, mas está tudo melhor agora. Não sou mais jovem, mas sou um homem jovem. Eu me sinto como se tivesse renascido. Estou cada dia mais forte e não perdi nem o zelo e nem a energia para fazer isto".

Springsteen disse que planeja trabalhar fora da banda de novo após a atual turnê --"seja qual for o caminho que ele tome, será fantástico", diz Clemons-- e o Big Man está ansioso para gravar algo novo com o Temple of Soul. Pode até mesmo haver uma sequência para o livro "Big Man", com mais histórias reais assim como algumas poucas lorotas adicionais para acompanhá-las. "Bem, algumas não foram contadas porque haverá outro livro. Nós falávamos a respeito do próximo livro, que poderia ser um raio X da minha vida. Eu gosto do que fizemos e do jeito que foi feito, então acho que podemos fazer mais disso".

*Gary Graff é um jornalista free-lance baseado em Beverly Hills, Michigan

Tradutor:
George El Khouri Andolfato

Compartilhe:

    RECEBA NOTÍCIAS

    Hospedagem: UOL Host