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24/03/2007 - 16h42
Nem pane no som abala concerto de Roger Waters, que levou 36 mil à praça da Apotesose



Publius Vergilius/UOL

Roger Waters durante o show que fez na praça da Apoteose, no Rio

Roger Waters durante o show que fez na praça da Apoteose, no Rio


Por Mair Pena Neto

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Com sua mensagem questionadora e antibelicista, extremamente atual, o baixista e compositor Roger Waters fez um show musicalmente impecável na noite de sexta-feira, na Praça da Apoteose, lavando a alma do carioca, atormentada pelas dores e traumas da violência.

Durante quase três horas de show, com um rápido intervalo de 15 minutos, Waters proporcionou uma experiência sonora e sensorial típica do rock progressivo, ancorado pela mais moderna tecnologia de som e imagem.

Nem a falha técnica que interrompeu a execução de "Fletcher Memorial", no ápice do show, maculou a apresentação que reuniu 36 mil pessoas de diversas gerações, que curtiram o espetáculo num ambiente pacífico e envolvente.

O concerto de Waters, ex-Pink Floyd, no Rio pode ser dividido em três partes e é difícil eleger a melhor. Na primeira, tocou aleatoriamente músicas do Pink Floyd e canções suas, conquistando imediatamente o público.

A segunda foi toda dedicada a "The Dark Side of the Moon", nome do show e de um dos maiores álbuns de todos os tempos, que chegou a ficar 591 semanas nas paradas de sucesso. Não havia erro. Se o show já parecia completo e inesquecível para os fãs do Pink Floyd, o bis ainda levou o público ao delírio com a sequência de quatro obras-primas do clássico "The Wall", acompanhadas em coro pelo público embevecido.

Waters abriu o show com "In the Flesh", mas foi com "Mother", quando trocou o baixo pelo violão acústico, que teve pela primeira vez o acompanhamento da platéia. Os telões começavam a contar a viagem do concerto, criando a atmosfera perfeita para cada canção.

"Set the Controls" começou com a imagem de uma grande queimada, que se transformou em céu e depois galáxia para a abertura de "Shine on you crazy Diamond", identificada imediatamente pelo público aos primeiros acordes de guitarra.

Antes do início do show a imagem projetada de um velho rádio, com uma garrafa de uísque ao lado e a miniatura de um bombardeiro em cima já impressionava, pois as estações podiam ser mudadas ao movimento de um braço. O solo final de "Have a Cigar" foi subitamente interrompido pela mão que mudava as estações e Waters atacou com "Wish you Were Here", desta vez acompanhado pela platéia quase em uníssono. O velho roqueiro, de 63 anos, sentiu o clima e sorriu com os aplausos efusivos da massa em delírio.

POLÍTICA E GUERRA

Foi com "Southampton Dock", canção que fala dos soldados que partem para a guerra, que Waters, sentado e com violão acústico, começou a politizar mais o concerto.

O telão estampou a imagem em preto-e-branco de um porta-aviões em pleno mar, enquanto o som de gaivotas enchia todos os espaços da Apoteose por meio do som quadrafônico. Fotos manchadas de sangue de Bush, Saddam e outros "senhores da guerra" foram exibidas e na vez de Stálin apareceu a famosa frase atribuída ao ex-líder soviético: "A morte resolve todos os problemas. Sem homens não há problemas."

Depois da pane no equipamento de som em "Fletcher Memorial", que interrompeu a primeira parte do show por 12 minutos, Waters apresentou uma nova canção, "Leaving Beirut", inspirada, segundo contou, numa viagem que fez aos 17 anos à capital libanesa, quando foi sensibilizado pela generosidade do povo.

"São essas as pessoas que devemos bombardear?", questionou a bela e furiosa letra, com ataques frontais aos aliados George Bush e Tony Blair, primeiro-ministro britânico. "Não em meu nome, Tony, mestre da guerra", bradou Waters.

A primeira parte do show terminou com "Sheep", quando o tradicional porco gigante inflável subiu aos céus carregando mensagens floydianas e outras enviadas pelos brasileiros. "O medo constrói muralhas", "All we need is education, ordem e progresso?", "Bush, não estamos à venda" eram algumas das mensagens do imenso porco cor-de-rosa que sumiu da vista da platéia sob aplausos.

A segunda parte do show foi acompanhada integralmente pela platéia, que cantou com Waters todos os sucessos de The Dark Side of The Moon, com destaque para "Time", "Money", "Us and Them" e "Brain Damage", encerrada com uma pirâmide de luz jogando feixes de raio laser sobre o público e remetendo à antológica capa do terceiro álbum mais vendido da história.

A volta ao palco exigida pelo público foi a consagração final de Waters, que abriu a sessão com "Another Brick in The Wall parte 2", acompanhada por um coro infantil e ambientada por imagens de muros nefastos, como os de Berlim e Israel.

Após beijar e abraçar cada uma das crianças, Waters emendou "Vera", "Bring the Boys Back Home" e "Confortably Numb", acompanhado por uma platéia em completo êxtase.

Quando Waters e sua banda deixaram o palco, todo mundo saiu da Apoteose em paz, confortavelmente entorpecido pelo show inesquecível.

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