Jovens e briguentos: entenda as rivalidades nos bastidores da Jovem Guarda

Ricardo Calil

Do UOL, em São Paulo

A Jovem Guarda era um movimento musical, mas, ao contrário do que muita gente imagina, não era uma turma de amigos. O trio central do programa da Record --Roberto, Erasmo Carlos e Wanderléa --era realmente muito unido, diante das câmeras e atrás delas. Mas, de resto, os artistas do iê-iê-iê competiam entre si pelo sucesso, pelos fãs e pela mídia; em alguns casos, essas disputas os transformaram em rivais.

Reais ou imaginárias, meras fofocas ou espertos golpes de marketing, muitas vezes estimuladas pelos empresários e quase sempre negadas pelos artistas, as rivalidades da Jovem Guarda também foram parte essencial do movimento.

Arte UOL
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Roberto Carlos vs. Ronnie Von

A mais famosa rivalidade da Jovem Guarda tinha que ser, naturalmente, entre o "Rei" e o "Príncipe". Quando o programa "Jovem Guarda" comandado por Roberto já era um sucesso, Ronnie Von estourou nas paradas com "Meu Bem" em 1966 e ganhou um programa na Record chamado "O Pequeno Mundo de Ronnie Von". Com o apelido de Príncipe dado por Hebe Camargo, Ronnie logo foi apontado como principal concorrente de Roberto Carlos. Os dois garantem que sempre foram cordiais entre si. Mas o fato é que, ao contrário da imensa maioria dos artistas associados à Jovem Guarda, Ronnie nunca foi convidado para aparecer no "Jovem Guarda". A história da rivalidade esquentou quando, nos corredores da Record, correu o boato de que Roberto teria gravado a canção "Querem Acabar Comigo" com a foto de Ronnie Von bem à sua frente --o que o Rei sempre negou. De qualquer forma, Roberto vs. Ronnie se tornou o Beatles vs. Stones da Jovem Guarda.
Arte UOL
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Jerry Adriani vs. Wanderley Cardoso

Foi a rivalidade mais folclórica da Jovem Guarda. Os dois galãs começaram a carreira juntos em São Paulo e se consideravam amigos. Mas, depois de um impasse sobre qual deles encerraria um show em Niterói (no final, acabou sendo Cardoso), eles ficaram um tempo sem se falar. Os dois não levaram a história muito a sério, mas os fã-clubes de cada um enlouqueceram --dizem as más línguas que isso se deu com o devido estímulo dos respectivos empresários. Muitas vezes as fãs chegavam a sair no tapa para defender seu ídolo. Cardoso conta que chegou a ir a uma delegacia para resgatar umas tietes e encontrou uma delas portando uma navalha. Não demorou muito para que Jerry e Wanderley fizessem as pazes e as fãs sossegassem o facho. Três anos atrás, os dois fizeram uma série de shows juntos, para provar que a rivalidade ficou no passado longínquo.
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Wanderléia vs. Martinha

Na época da Jovem Guarda, toda jovem artista que surgia fazendo rock romântico era apontada como uma rival em potencial de Wanderléa --maior nome feminino do movimento. Foi assim com Martinha, com Vanusa, com Rosemary. Era uma tentativa de reeditar, no iê-iê-iê, as clássicas rivalidades entre cantoras da história da música brasileira --como Marlene vs. Emilinha ou Elis Regina vs. Nara Leão. A morena Martinha, o "queijinho de Minas" (batizada por Roberto), foi considerada a concorrente mais forte ao trono da loira Wanderléa, a "Ternurinha". No livro "Jovem Guarda - Em Ritmo de Aventura", o autor Marcelo Fróes escreve que, incomodada com o sucesso de Martinha, Wanderléa proibiu seu grupo Os Wandecos de acompanhar a cantora mineira em um show de entrega dos troféus da Força Pública de São Paulo. Roberto teve que socorrê-la oferecendo seu conjunto RC-7. Ao contrário de Marlene e Emilinha, Martinha e a Ternurinha sempre negaram a rivalidade.
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Erasmo Carlos vs. Carlos Imperial

Essa rivalidade era pura cascata. Como Wilson Simonal, Erasmo foi, no começo de carreira, secretário particular do agitador cultural Carlos Imperial, e os dois sempre foram grandes amigos. Polêmico, marqueteiro e mentiroso, Imperial gostava de inventar factóides para promover suas obras. Quando foi lançar "Vem Quente que Eu Estou Fervendo" (composição sua com Eduardo Araújo, gravada por também por Erasmo), Imperial reuniu a imprensa e combinou uma briga com o Tremendão. Eles saíram na mão diante dos jornalistas e fotógrafos, que caíram na me ntira; até o desavisado Roberto acreditou que era pra valer, tentando desapartar os dois --em episódio relatado no livro "Dez! Nota Dez!", biografia de Imperial escrita por Denilson Monteiro, e no documentário "Eu Sou Carlos Imperial". Quando Imperial e Erasmo participavam de programas de TV em São Paulo, o empresário ia com a camisa do Corinthians e mandava Erasmo ir com a do Palmeiras --só para estimular a animosidade da plateia. Na verdade, Imperial era Botafogo roxo; e Erasmo, Vasco da Gama.
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Roberto Carlos vs. Paulo Sérgio

Em 1968, já perto do fim do programa "Jovem Guarda", Paulo Sérgio chegou como um furacão ao movimento. Seu primeiro LP vendeu mais de 300 mil cópias, impulsionado pelo enorme sucesso da música "Última Canção". Ele foi logo acusado de ser um mero imitador de Roberto Carlos: o timbre vocal era muito parecido com o do "Rei", o visual também e, de quebra, os dois tinham vindo do Espírito Santo para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Foi mais que suficiente para criarem uma rivalidade entre os dois. Roberto Carlos nunca acusou o golpe publicamente, mas muita gente garante que o título de seu álbum lançado em dezembro daquele ano --"O Inimitável"-- era uma clara resposta à ascensão de Paulo Sérgio. Ao contrário de Roberto, o cantor capixaba não conseguiu manter o mesmo nível de fama nos anos 70 e morreu com apenas 37 anos, vítima de um aneurisma cerebral, em 1980. O último grande "rival" do "Rei" na época da Jovem Guarda foi praticamente esquecido pelo grande público.

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