Música

Berço do hip-hop, o Bronx deseja capitalizar sua herança

Don Emmert/AFP
Muro grafitado no bairro do Bronx, em Nova York Imagem: Don Emmert/AFP

Nova York (EUA)

27/03/2017 16h50

Rappers, grafiteiros, dançarino e DJs criaram nos anos 1970 o hip-hop no então deprimido no Bronx, em Nova York. Agora este bairro, em plena transformação, espera capitalizar a herança para melhorar sua imagem.

Tudo começou em um pequeno salão do número 1520, da Sedgwick Avenue, no térreo de um edifício comum.

No dia 11 de agosto de 1973, Clive Campbell, mais conhecido como Kool Herc, misturava trechos de canções e se transformava, sem saber, no primeiro DJ a realizar samples na história, enquanto Coke La Rock era o primeiro rapper a soltar frases sobre a música.

Sobre as ruínas de dezenas de edifícios incendiados e destruídos do sul do Bronx nasceu o hip-hop, a combinação de rap, DJ, baile e grafite, estimulado por uma geração efervescente.

Mais de 40 anos depois, a indústria transformou o hip-hop em um mercado de milhões de dólares, mas longe de seu berço.

Agora, autoridades e artistas locais desejam retomar o controle deste legado, com o objetivo de valorizar um bairro relegado de Nova York, longe do glamour de Manhattan e do Brooklyn dominado por hipsters.

A prefeitura do Bronx começou a recuperar vários lugares emblemáticos, como o Cedar Playground, um espaço infantil que foi utilizado para as primeiras festas noturnas de hip-hop ao ar livre, e o Bronx River Community Center, o centro comunitário onde o pioneiro DJ Afrika Bambaataa fez sua estreia nos anos 1980.

O Netflix também chegou à região, onde filmou a série sobre as origens do hip-hop, "The Get Down", que teve a primeira parte lançada em agosto do ano passado.

Mudando a imagem do Bronx

Ainda existem outros projetos estagnados, como o museu do hip-hop, que frequentemente é comentado, mas nunca concretizado.

Líder durante muitos anos do conceito do Universal Hip Hop Museum, o empresário e ex-produtor Rocky Bucano decidiu por uma associação com um investidor para dar impulso ao projeto.

O plano agora inclui a ideia de incorporar o museu a um conjunto de vários hectares às margens do rio Harlem, que separa o Bronx do Harlem, com residências, lojas e espaços verdes.

Rocky Bucano afirma que recebeu o apoio de vários legisladores municipais e do estado de Nova York.

Se o pedido for aceito pelo governo municipal, o empresário pretende procurar "as empresas que se beneficiaram da comercialização do hip hop" para que cooperem financeiramente, e inclusive de "alguns artistas que fizeram muito dinheiro com o hip-hop".

"Com todo o respeito que o rock merece, ver artistas do hip-hop entrando no Hall da Fama do Rock é realmente incômodo", disse o presidente do condado do Bronx, Rubén Díaz Jr., para quem o novo museu seria como o Hall da Fama do Rap.

Para ele, o desafio do museu é claramente atrair investidores e visitantes ao Bronx, já que o bairro permanece, no imaginário coletivo, um local de drogas e crime.

"As pessoas vêm aqui e esperam ver os edifícios em ruínas", comenta.

A má reputação é tamanha que Debra Harris, que organiza há 15 anos passeios guiados por locais emblemáticos do hip-hop, começa o tour no Harlem para suavizar o susto dos turistas.

Murais 

Embora continue como o bairro com os maiores índices de violência, ao lado da parte leste do Brooklyn, o Bronx registrou, assim como outros distritos de Nova York, uma queda expressiva da criminalidade, com quase 17% de homicídios a menos desde 1990.

Os investidores perceberam a mudança e, com os preços cada vez mais inacessíveis em Manhattan ou no Brooklyn, passaram a apostar há alguns anos no sudeste do Bronx.

Eles compreenderam bem o valor agregado de que um toque de hip-hop pode dar a uma rua ou edifício.

"Todos estes proprietários nos procuram", conta BG183, também conhecido como Sotero Ortiz, artista do grafite e um dos fundadores do coletivo Tats Cru.

Todos querem seu mural, explica, como o edifício do bairro Hunts Point que abrigava até recentemente uma fábrica e agora é um edifício de escritórios.

Os integrantes do Tats Cru estão satisfeitos: depois de espalhar sua arte irreverente nas ruas e trens, sempre de forma ilegal, agora conquistaram as galerias e decoram alguns dos mais ambiciosos projetos imobiliários da região.

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