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"No Brasil, música e fé podem estar juntas", diz freira do "The Voice"

Erika Zidko

De Roma para a BBC Brasil

05/11/2014 10h58

Reconhecida mundialmente depois de ter vencido a competição musical "The Voice" na TV italiana, a freira Cristina Scuccia, de 26 anos, acaba de se lançar como cantora com uma regravação do single "Like a Virgin", de Madonna. Desta forma, transformou em realidade um sonho que tinha desde pequena, quando se apaixonou pela música. Mas ela conta que nada disso teria acontecido se não tivesse vivido por dois anos no Brasil.

"Antes de conhecer o país, não sabia que música e fé podiam estar juntas", disse irmã Cristina à BBC Brasil. "Nunca havia visto uma banda de rock com canções cristãs ou freiras que fizessem música profissionalmente. Foi no Brasil que decidi utilizar o dom que Deus me deu. Foi como uma purificação para o meu canto."

Nascida em Comiso, uma cidade siciliana com menos de 30 mil habitantes, no sul da Itália, ela havia abandonado a música e estava em conflito antes vir ao Brasil.

Entre 2010 e 2012, durante seu período de formação religiosa, a freira morou com outras noviças da Congregação das Irmãs Ursulinas em Mogi das Cruzes, na periferia de São Paulo.

"No Brasil conheci uma igreja jovem, que está crescendo e é vivida com mais dinamismo. Quero transmitir esta alegria aos jovens italianos."

Além das músicas durantes as missas, dava aulas de canto e dança para as crianças. Não perdia nenhuma das oportunidades de cantar, e ajudou a montar o musical A Coragem de Amar. A apresentação foi sua despedida, pois logo depois ela foi à Itália para fazer os votos à Igreja.

"Voltei decidida a seguir meu amor pelo canto e, logo depois, fui incentivada pelas palavras do Papa Francisco, que pedia aos religiosos para levarem o próprio dom às perifeiras. Foi quando as madres da minha Congregação convenceram-me a participar do The Voice", reconta irmã Cristina.

Surpresa

Em junho passado, vestida com o hábito completo e crucifixo no peito, a religiosa surpreendeu os jurados do programa, que a escolheram para seguir na competição após seu teste - sem saberem que se tratava de uma freira.

Em poucos dias, o vídeo com a sua versão da música No One, de Alicia Keys, interpretada por ela em sua estreia na competição, já havia sido visto mais de 30 milhões de vezes no portal Youtube.

Depois de vencer o programa, ela assinou contrato para lançar um álbum. O disco Sister Cristina traz outras nove regravações e três músicas inéditas.

Gravado em Los Angeles, o álbum será lançado mundialmente no dia 11 de novembro pela gravadora Universal.

Irmã Cristina nega que tenha sido uma imposição da gravadora ter no álbum uma versão de Like a Virgin, como uma forma de atrair mais atenção ao disco.

"Também não foi uma provocação. No período em que estávamos selecionando o repertório, ouvi por acaso a canção de Madonna. Quis dar um significado completamente diferente à música, com novos arranjos, instrumentos acústicos e um novo vídeo", disse.

"A canção fala de uma pessoa em conflito, que é chamada por Deus e decide levar o seu amor adiante para o resto da vida. A minha versão tem uma linguagem nova e é justamente esta a capacidade cristã de enxergar tudo com novos olhos que pretendo transmitir aos jovens."

A canção em português Perto, Longe ou Depois, presente no disco, é um agradecimento ao país que lhe "deu tanto" e a sua "vontade de continuar a falar" o idioma brasileiro.

Caridade

De acordo com irmã Cristina, o dinheiro arrecadado com as vendas dos discos será destinado aos projetos de caridade da Congregação das Irmãs Ursulinas, entre eles a casa onde viveu em Mogi das Cruzes.

"Há pouco tempo fizemos a ampliação do edifício para podermos receber mais crianças e adolescentes e nossa prioridade é manter os projetos já iniciados", disse.

A freira afirma ter boas recordações do período que esteve no Brasil, onde tem duas afilhadas, e diz ter dificuldades para encontrar algo de ruim para falar sobre o país.

"Penso sempre no afeto das pessoas, no acolhimento que encontrei quando vivia ali. O que me deixava mais triste era ver meninas muito pequenas que engravidavam, mesmo depois de conhecerem a difícil experiência de irmãs e amigas, que precisavam tomar conta dos filhos embora fossem elas mesmas muito jovens", conta a freira.

Conseguir conscientizá-las para evitar a maternidade tão precoce era uma luta cotidiana.

"Mas apesar da realidade difícil nas periferias, as crianças estão sempre felizes. Para elas basta um pouco de música, uma bola no pé ou um pipa na mão para ficar contentes, enquanto aqui temos tanto e estamos sempre insatisfeitos. Para a minha experiência de vida, foi fundamental testemunhar que mesmo na pobreza é possível cuidar do próximo e compartilhar o pouco que se tem".

Embora não estejam previstas apresentações ao vivo, irmã Cristina disse que gostaria de fazer shows na Europa.

"Seria fantástico conseguir encher os estádios com a minha música, como fazem muitos religiosos no Brasil."

Celebridade religiosa

Mesmo com a fama, irmã Cristina afirma não ter dificuldades para conciliar a vida religiosa com a carreira musical.

Em Milão, a congregação da qual ela faz parte administra uma escola infantil, um pensionato para universitárias e colabora com a paróquia local. Cristina dá aulas de catequismo, faz turnos na portaria da pensão e canta durante as missas de domingo.

"A minha prioridade é a oração, a eucaristia, mas dedicar um pouco do meu tempo ao disco e aos fãs não me distrai do meu objetivo. É apenas um meio a mais para evangelizar", diz.

"Se o sucesso acabar, ou se for preciso escolher, com certeza vou optar pela vida religiosa. Mas vou continuar a animar a minha comunidade com minha voz e meu violão."

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