Topo

Música

Aos 97, filha de escravos luta para manter tradição musical das senzalas

BBC
Tia Maria do Jongo, filha e neta de escravos que luta para manter viva a tradição musical das senzalas Imagem: BBC

Júlia Dias Carneiro

Da BBC Brasil, no Rio de Janeiro

10/02/2018 09h00

Quase ninguém a conhece pelo nome de batismo, Maria de Lourdes Mendes. Ela atende mesmo por Tia Maria do Jongo, o sobrenome artístico emprestado da manifestação cultural que a rodeava desde que saiu da barriga da mãe, e que luta há quase um século para manter viva, ao longo de seus 97 anos de jongueira.
Tia Maria é a grande patrona do jongo no Rio, tradição de raiz africana que une canto, dança e toque de tambor e que era praticada em senzalas do sudeste do país.

Mas o ano começou com obstáculos para Tia Maria e para o Jongo da Serrinha, grupo que ajudou a formar há cerca de 50 anos, com o fechamento da Casa do Jongo, onde a ONG trabalha para preservar a tradição. Tido como precursor do samba, o jongo é reconhecido como patrimônio imaterial brasileiro pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Inaugurada no fim de 2015 para abrigar o Jongo da Serrinha e suas atividades, a instituição fechou suas portas no início de janeiro por falta de recursos, denunciando cortes na política de fomento cultural da prefeitura do Rio e a ruptura de um parceria de longa data.

A casa foi criada com aporte de cerca de R$ 2,5 milhões da prefeitura na gestão de Eduardo Paes, mas não recebe recursos de fomento direto do município desde 2016.

A Secretaria Municipal de Cultura (SMC) do prefeito Marcelo Crivella, que assumiu em 2017, diz que foi forçada a cortar recursos para fomento direto à cultura devido "à crise pela qual passam o país, o Estado e o município" e ao déficit herdado da gestão anterior.

O fechamento da casa gerou protestos entre a classe artística e críticas à política cultural do Rio, com insinuações de que a gestão de Crivella estaria tirando recursos de manifestações de raiz africana. A prefeitura afirma que incentivar tradições afro-brasileiras e patrimônio imaterial é "um de seus eixos estratégicos" (leia mais sobre a disputa no fim da reportagem).

'Crianças têm que conhecer passado da escravidão'

O casarão fica no pé do morro da Serrinha, tradicional comunidade em Madureira, na zona norte do Rio, onde Tia Maria nasceu e de onde "nunca mais" saiu, diz bem-humorada, ao receber a reportagem da BBC Brasil.

Acervo Jongo da Serrinha/BBC
Tia Maria do Jongo em foto 3x4 tirada em 1958, quando tinha 38 anos Imagem: Acervo Jongo da Serrinha/BBC

Na Serrinha, Tia Maria cresceu cercada por jongueiros e pelo forte movimento de samba que florescia nos terreiros das casas. Ela foi uma das fundadoras do Império Serrano, em 1947, e detém o título de "Número 1 do Império". A Casa do Jongo fica na rua Silas de Oliveira, em homenagem ao sambista que se imortalizou com "Aquarela Brasileira", clássico samba-enredo da agremiação. Ele era compadre da Tia Maria.

Um cadeado mantém o portão trancado para visitantes na entrada, entre as palavras "Rio 450" anos - alusão à celebração do aniversário do Rio em 2015 e ao calendário de eventos comemorativos promovidos pela prefeitura, do qual a inauguração da Casa do Jongo fez parte.

"As crianças têm que conhecer o nosso passado, porque isso elas não aprendem sobre a época da escravidão direito nas escolas", afirma ela. "As crianças têm que saber o passado do país."

O espaço é amplo e decorado, com piso de pedras portuguesas em padrões africanos, paredes forradas de tecidos coloridos, um canto destinado à história do jongo, com fotos e relíquias de seus precursores, e espaço para aulas de dança, percussão, cavaquinho, capoeira, inglês, arte, costura, ginástica, além de cineclube e estúdio musical.

O centro costumava receber 2 mil visitantes e 400 crianças por mês. Gerações de crianças nascidas na Serrinha aprenderam jongo neste imóvel e em sedes menores que a ONG manteve anteriormente.

Tia Maria chegou a ouvir boatos de que poderiam ser despejados da casa. A ONG tem cessão até 2024 para uso do imóvel, que pertence à prefeitura.
"Fiquei chocada, mas não acredito que isso possa acontecer. Eu sou muito religiosa, minha fé em Deus não acaba. Eu rezo muito. Tenho esperança de que tudo vai dar certo."

Aniversário numa semana, portas fechadas na outra

Os últimos dias de 2017 tinham sido só festa para Tia Maria. Ela comemorou seus 97 anos com um show de jongo em uma casa de samba na região portuária do Rio, arrancando aplausos boquiabertos do público quando resolveu ensaiar uma dancinha até o chão, sem se apoiar em ninguém para subir.

No dia 30 de dezembro, a festa continuou com almoço e pagode para dezenas de pessoas na Casa do Jongo. "Minha nora fez dois tachos de feijoada, daquela bem grossa e cheia de carne. Só o pagode é que acabou cedo demais. Fiquei com uma pena, adoro um pagode!", protesta com uma gargalhada.

A voz firme e animada ainda sustenta bem os versos do jongo, que cantarola nas pausas da conversa com a BBC Brasil, batucando na mesa de toalha estampada. Tia Maria cresceu ouvindo relatos de sua avó sobre o passado da escravidão.

"Ela sempre contava que o jongo veio da África, que os escravos dançavam na senzala", lembra. "E explicava que o jongo é um afro, não é religião. Aqui pode dançar evangélico, católico, macumbeiro, quem quiser", diz.

Dos velhos para as crianças

De acordo o Iphan, o jongo consolidou-se entre escravos que trabalhavam nas lavouras de café e cana-de-açúcar, sobretudo na região do vale do rio Paraíba.
Tem origem em ritos e crenças de povos africanos, principalmente os de língua bantu, e é praticado nos quintais das periferias e de algumas comunidades rurais da região Sudeste. Há grupos tradicionais de jongo em cidades como Valença, no Rio, e Piquete e Caxambu, em Minas Gerais.

Tia Maria nasceu em 1920, dez anos depois de sua mãe ter migrado de Minas Gerais para o Rio e se estabelecido na Serrinha, na periferia do Rio, que na época era uma área rural. "A minha mãe já veio para o Rio dançando jongo, cantando jongo. Eu digo que já nasci jongueira."

No início, entretanto, havia uma restrição etária intransponível: o jongo era coisa dos velhos. "Velho mesmo, não é jovem adulto não", ressalta Tia Maria. Ela lembra da infância espiando por um buraco nas paredes de estuque da casa da mãe enquanto os velhos dançavam no terreiro de noite. Adorava cantar e dançar as músicas com a mãe dentro de casa - mas participar das rodas, nem pensar.

Isso começou a mudar na década de 60, quando a morte de velhos jongueiros começou a ameaçar as rodas de jongo. Quebrou-se assim o tabu que impedia as crianças de participar.

"Hoje não acaba mais. Aqui na Serrinha, toda criança gosta do jongo, bate o jongo, canta o jongo. Acho que o jongo vai ficar aqui eternamente."

Rezar para antepassados

Tia Maria não gosta das representações que vê dos tempos da escravidão. Diz que não combinam com os relatos e a vivência de sua família. "Eles botam cada negro feio nos livros. Mentira! Na escravidão tinha cada negro bonito."

"E também não tinha só negro", diz. "O senhor levava as moças bonitas para ficar na rede com ele, com os filhos. Quando elas vinham de lá (da casa grande), vinham grávidas. Aquela criança não ia sair negra. Saía morena, bonita, filha deles lá de dentro. Aí criava ali na senzala. Ou, quando viam que a criança era bonita, se achavam que era cara, levavam para vender", relata.

Ela conta que a avó trabalhava na "casa grande", e com isso falava um português mais correto que outros membros da família - mas viu barbaridades dentro da casa dos senhores de escravos, em uma fazenda em Minas Gerais.

"Ela falava que tinha criança que a sinhá matava. Às vezes a mãe estava engomando as roupas da sinhá, e a criança gritando dentro da mala, morrendo. A sinhá fechava a mala para a criança morrer sufocada. E a mãe vendo aquilo e não podendo falar nada. Era escrava, né? Se falasse ia para o tronco, ou ia morrer também. Uma maldade."

"Ela dizia que o senhor gostava, porque o jongo tem aquela umbigada forte", diz, referindo-se ao "encontro de umbigos" que é um dos movimentos típicos da dança. "O senhor achava que aquela umbigada ia originar mais crianças para ele. Mais escravos."

A mãe de Tia Maria também foi escrava, até os 8 anos. "Minha mãe era garota quando eles foram libertos, lembrava muito pouco. Mas ela sempre contava que um dia ela teve que lavar a dentadura do sinhô no rio, e de repente a água levou. Ela disse que nunca nadou tanto quanto naquele dia, desesperada para conseguir a ditadura do sinhô!", conta Tia Maria, hoje podendo rir da história porque afinal os dentes foram encontrados.

Para Tia Maria, o jongo ensina às crianças o respeito pelos mais velhos e pela história de seus ancestrais. "O jongo era a dança dos escravos. Sempre que dançamos, rezamos um Pai Nosso, uma Ave Maria, antes de começar. Quando você bate um jongo, o espírito deles está ali. Rezamos para suas almas", diz.

Recursos da prefeitura

Dyonne Boy, uma das diretoras da Associação Cultural Grupo Jongo da Serrinha, diz que a situação financeira da Casa do Jongo começou a apertar em 2016, quando perderam o patrocínio da Petrobras.

Em 2017, sem conseguir captar mais recursos, pediram ajuda à prefeitura, apresentando um projeto em março. "Era a nossa única esperança de ter um respiro. Quando tivemos essa resposta negativa, em outubro, vimos que íamos ter que fechar", diz Dyonne. "Nós e muitos outros grupos de cultura popular estamos sem ter como dar continuidade ao nosso trabalho."

De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura (SMC), o programa de fomento direto (ou seja, de investimento da prefeitura em projetos via editais) foi reduzido por conta da crise financeira.

"A nova administração municipal encontrou déficit de R$ 4 bilhões, herdado da gestão anterior. O orçamento de todas as secretarias foi reduzido em 25% logo no início da gestão. E a arrecadação permaneceu em queda ao longo de todo o ano", afirma a secretaria.

A SMC afirma que nunca suspendeu qualquer financiamento à Casa do Jongo e que, no ano passado, destinou R$ 140 mil à ONG, que seria o maior repasse financeiro já feito pela prefeitura à instituição, em comparação com valores de R$ 80 mil a R$ 100 mil repassados entre 2013 e 2016 pela gestão de Eduardo Paes por meio de editais.

Os valores, entretanto, se referem a mecanismos de incentivo diferentes. Os recursos de 2017 foram pagos pela Rede Globo por meio de fomento indireto, ou seja, pela lei de incentivo fiscal que abate parcelas do Imposto Sobre Serviços (ISS) para que empresas repassem o valor a projetos culturais pré-aprovados pela SMC.

Pela mesma via, a casa conseguiu captar R$ 120 mil da Globo neste ano. Dyonne afirma que o valor não é o suficiente para cobrir os cerca de R$ 50 mil de gastos mensais. O último repasse de fomento direto feito pela prefeitura à Casa do Jongo foi em 2016, no valor de R$ 90 mil.

A SMC destaca que disponibilizou R$ 1,5 milhão em três editais lançados no ano passado, um deles com o tema "Chamamento de Matriz Africana", distribuindo o valor de R$ 500 mil por 33 projetos.

"Não é verdade que a SMC e a prefeitura não possuam políticas culturais para as manifestações afro-brasileiras", diz a SMC.

Desde que a Casa do Jongo fechou, a diretora Dyonne Boy conta que o Jongo da Serrinha tem sido procurado por grupos privados e pela Secretaria estadual de Cultura do Rio para conversas sobre possíveis financiamentos. Ela diz que a ONG está correndo atrás de acordos para voltar a funcionar "o mais rápido possível."

Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!