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Patti Smith, a voz mais carismática e feroz do rock, completa 70 anos

Patti Smith representa Bob Dylan em cerimônia do Nobel marcada pela ausência do cantor - Jonas Ekstromer/TT News Agency via AP
Patti Smith representa Bob Dylan em cerimônia do Nobel marcada pela ausência do cantor
Imagem: Jonas Ekstromer/TT News Agency via AP

David Villafranca

Los Angeles (EUA)

30/12/2016 12h29

Quando uma artista total como Patti Smith esteve toda sua vida de frente para o público, parece que o mais apropriado para celebrar um aniversário seja subir ao palco.

E assim fará a lendária música e escritora americana que nesta sexta-feira festejará seu 70º aniversário com um show em Chicago, sua cidade natal.

Passam os anos, mas Smith segue ao pé do canhão, com sua poderosa voz e absorvente presença cativando plateias no mundo todo como acontecerá mais tarde no teatro Riviera de Chicago, no qual interpretará do princípio ao fim seu emblemático disco "Horses".

A cantora, além disso, continua marcando presença na mídia, já que ainda se escutam os ecos de sua emocionante interpretação na entrega dos prêmios Nobel, quando representou o agraciado Bob Dylan.

Talvez porque Smith tenha vivido intensamente o ano que agora termina. Junto a sua banda encarou uma turnê com paradas destacadas na Espanha e no Festival de Jazz de Montreux (Suíça), e para 2017 já tem várias datas confirmadas na Austrália.

Além da música, também teve tempo em 2016, por exemplo, para participar de uma mesa-redonda do festival de cinema de Tribeca de Nova York ou para apresentar a edição em espanhol de seu livro de memórias "M Train".

"Se alguém quisesse saber que tipo de ser humano sou, acho que 'M Train' é o mais perto do que poderia fazer o papel da resposta", disse em novembro em entrevista à Agência Efe, na qual também afirmou que pensa em si mesma mais como escritora que como música.

O certo é que a corrente criativa de Patti Smith se manifestou de mil maneiras ao longo de sua carreira, desde a fotografia à pintura, embora seus livros e canções sigam sendo capitais na hora de entender sua figura.

A vocalista mais carismática e feroz do rock, com a devida licença de Janis Joplin, estreou em 1975 com o disco "Horses", no qual o barulho e a poesia se fundiam de um modo arrasador como se escutava no primeiro verso de sua versão reescrita do "Gloria" de Van Morrison: "Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus".

Álbuns como "Radio Ethiopia" (1976), "Easter" (1978), "Dream of Life" (1988) e "Gone Again" (1996) consolidaram seu status, além de suas excitantes apresentações, quase rituais, nas quais parecia uma xamã toda-poderosa do rock.

O certo é que ainda conserva essa imagem de liberdade absoluta sobre o palco. Assim, em um show realizado este ano no Hollywood Bowl de Los Angeles, Smith gritou ao público sentado para que se levantasse, dançasse e sentisse sua "fodida liberdade".

Por outro lado, a Patti Smith escritora oscilou entre a poesia e a narrativa com uma obra que inclui os livros de poemas "Babel" e "The Coral Sea" e os volumes de memórias "Just Kids" e "M Train".

Ambas vertentes da artista, a musical e a literária, confluíram em Estocolmo no início de dezembro, quando prestou uma homenagem a seu admirado Bob Dylan, que não foi receber o prêmio Nobel de Literatura.

Na cerimônia de entrega dos prêmios, Smith entoou "A Hard Rain's A-Gonna Fall" de Dylan, acompanhada pela Real Orquestra Filarmônica de Estocolmo, em uma muito emocionante interpretação na qual a artista interrompeu a canção em uma ocasião pelo nervosismo.

Embora o público tenha entendido esse equívoco como uma demonstração de humanidade da artista, Smith esclareceu em um texto posterior na revista "The New Yorker" que não se esqueceu da letra, mas foi invadida por uma "multidão" tal de intensas emoções que lhe impediu de seguir cantando.

"Quando me sentei (após a apresentação), senti o humilhante aguilhão do fracasso, mas também a estranha consciência que, de alguma maneira, tinha entrado e realmente vivido o mundo da letra (da canção)", ponderou.