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"Se continuássemos a fazer 150 shows por ano, teria morrido", diz líder do The Cure

Guitarrista, vocalista e compositor do grupo britânico The Cure, Robert Smith, em apresentação no Palacio de los Deportes, em Madrid, na Espanha (6/3/2008) - Alberto Martón/Efe
Guitarrista, vocalista e compositor do grupo britânico The Cure, Robert Smith, em apresentação no Palacio de los Deportes, em Madrid, na Espanha (6/3/2008) Imagem: Alberto Martón/Efe

Mariana Tramontina

Do UOL, em São Paulo

02/04/2013 05h00

Era meia-noite de uma quinta-feira no Reino Unido e Robert Smith ainda estava cheio de disposição para conversas. "Acho que estou meio sem prática para fazer isso, mas está divertido", disse o líder do The Cure referindo-se a série de entrevistas que concedia naquele dia em função da turnê que traz nesta semana ao Brasil. Em sua casa no sul da Inglaterra, após o fim dos ensaios, o cantor de 53 anos parecia confortável exercendo seu papel de rockstar e de ídolo pop.

Os olhos pintados de preto, o batom borrado e, principalmente, os cabelos estrategicamente desgrenhados fizeram a figura de Robert Smith um forte ícone como herói de toda uma geração. Denominação que ele mesmo lamenta por não ter sua própria referência. "Eu desisti de saber mais sobre as pessoas que poderiam ser meus heróis há muito tempo porque elas sempre me decepcionam", ele disse, sem deixar de salientar a importância de David Bowie em sua vida e obra.

Prestes a voltar ao país pela terceira vez – a primeira foi em 1987 e a segunda em 1996, no finado Hollywood Rock –, Robert Smith levará seu The Cure ao Rio de Janeiro nesta quinta-feira (4) no HSBC Brasil e desembarca em São Paulo no sábado (6) para um show na Arena Anhembi. "Ensaiamos cerca de 50 músicas", conta ele sobre o material que terá disponível para executar no palco. Junto com Smith – única peça original da formação inicial – estarão Roger 'O Donnell (teclados), Simon Gallup (baixo), Jason Cooper (bateria) e Reeves Gabrels (guitarra), este último um dos principais colaboradores de Bowie.

Por telefone, Smith adiantou ao UOL como serão os shows no Brasil, relembrou a experiência de estrear sua banda há três décadas e revelou como se mantém longe dos holofotes e dos flashes dos paparazzi.

UOL - Já se passaram quase 20 anos --ou 17 para ser mais exata-- do último show do The Cure no Brasil. O que mudou para você desde então? Quais aspectos mudaram do Robert Smith de 36 anos para o Robert Smith de 53?
Robert Smith - Eu não sei. De fato, eu estou um pouco menos cínico hoje. E tenho mais experiência do que tinha em 1996, eu sei muito mais coisas hoje. Mas eu componho bem menos e faço menos turnês. Não que seja bom ou ruim, é inevitável apenas. Mesmo porque se continuássemos a fazer cerca de 150 shows por ano eu teria morrido, ou os shows seriam uma m****. Nós vamos continuar fazendo shows de 3 horas, mas agora eu sei que no dia seguinte eu vou ter uma dor de cabeça e vou precisar de alguns dias para me recompor.

UOL - E o que você está preparando para o público brasileiro?
Robert
- O repertório principal tem 2 horas e 10 minutos, mas temos músicas ensaiadas o bastante para tocar por mais de 2 horas. Então, dependendo da reação do público, nós escolhemos o que tocar durante o show regular e o que deixar para o bis. Vamos mostrar um pouco de cada álbum, bastante coisa de "Disintegration" (1989), de "Pornography" (1982), de coisas mais novas do "The Cure" (2004), mas provavelmente deixaremos "Bloodflowers" (2000) de fora, porque é um álbum difícil de encaixar no repertório, as músicas são muito diferentes. Nós estruturamos o set para ser como uma viagem, e deve durar mesmo umas 3 horas.

UOL - Os shows do Rio e de São Paulo serão iguais?
Robert
- Não tenho certeza. No show normalmente tocamos 43 canções, ou 45 talvez. Pode ser que tenham umas dez músicas diferentes no show do Rio para o show de São Paulo, talvez algumas faixas mais obscuras. Ensaiamos cerca de 50 músicas e, daí, vamos decidir o que terá no repertório principal e o que podemos escolher para o bis, dependendo da reação do público, da vibração que sentirmos no show. Nós vamos para os bastidores e escolhemos na hora o que levar para o bis, é neste ponto que decidimos o andamento final do show. E no Rio será em um local fechado, para 10 ou 12 mil pessoas. Em São Paulo será a céu aberto, provavelmente para o dobro de pessoas. Então é a atmosfera e a emoção que virá de cada lugar que nos guiará a tocar músicas diferentes.

UOL - O que você mais se lembra sobre estar em uma banda novata no início dos anos 80?
Robert - Bem, eu subi pela primeira vez em um palco em 1977, então já faz muito, muito tempo. Mas uma coisa que ainda permanece a mesma é a de tratar tudo que eu faço como se fosse a última vez. Quando eu subir ao palco no Rio ou em São Paulo eu vou sentir exatamente o que eu senti nos anos 80. Nada é diferente. Acho que a emoção de estar tocando frente às pessoas não vai diminuindo conforme a quantidade que você faz isso. Eu subo no palco e trato aquilo como a melhor coisa que tem que ser, porque eu também quero que seja o melhor momento da vida das pessoas que estão assistindo. Se você faz uma coisa só por dinheiro, aquilo fica chato, entediante. Se eu não quisesse mesmo estar fazendo o que faço, eu não estaria fazendo. Não há qualquer razão que não seja a emoção da experiência.

UOL - Você diria que é mais fácil ou mais difícil estar em uma banda hoje em dia?
Robert
- Eu acho que é totalmente diferente. Quando começamos em nossa primeira turnê em 1978, 1979, tínhamos que estar tocando em rádios. Viajamos ao redor do mundo duas vezes antes de eu completar 21 anos. Costumávamos tocar em clubes pequenos, sem sequer saber quando iríamos voltar para casa. Hoje fico feliz de ter estado onde estive [risos]. Agora é diferente. A abordagem é outra, mas não tenho certeza se é mais difícil do que antes. Quer dizer, isso é uma pessoa mais velha dizendo. Eu estou em uma banda que gosta de tocar e viver coisas reais. E acho que o lado ruim é algo como o "X-Factor", onde o objetivo é ser famoso. Venho de uma geração com uma mentalidade em que é terrível ver anúncios de carros, perfumes ou outros produtos com boa música, porque se o produto é uma m****, o que acontece com a música? É lixo. E isso desvaloriza o que você faz. Está tudo interligado. Eu me sinto como se estivéssemos andando em areia movediça, porque percebemos o The Cure sendo parte dessa máquina. E não precisamos. É impressionante como o mundo mudou para pior apenas neste momento especial em minha vida adulta.

UOL - Houve um momento em que você percebeu que tudo o que você fez é clássico e ficará para sempre?
Robert
 - Comigo, na minha, eu consigo sentir isso todos os dias [risos]. Eu acho que percebi isso quando estávamos trabalhando no "Greatest Hits", em 2001. Quando estava escolhendo as canções que entrariam no álbum eu meio que notei que estava compilando um conjunto de músicas que provavelmente continuará sendo tocado mesmo depois que eu me for. Gosto de pensar que um monte de coisas que criamos vai resistir ao teste do tempo, porque acho que são coisas realmente boas. Temos sorte de ter canções consideradas dignas. Mas, muitas vezes, são as músicas que quase passam despercebidas que eu acho que vão acabar sendo as favoritas das pessoas.

The Cure - "Boys Don't Cry"

UOL - E quem é o Robert Smith fora do showbiz? Você acorda de manhã e a primeira coisa que você pensa é: "Oh, meu Deus, eu sou Robert Smith, eu sou uma estrela do rock"?
Robert -
[risos] Sim, esse é o homem que eu acho que minha mulher tem a intenção de ver quando vou buscar o leite [risos]. Não, existe uma divisão real e séria entre a pessoa que eu sou e as coisas que eu faço. Quando eu estou lendo um livro, eu sou uma pessoa lendo um livro, não fico me perguntando o que as pessoas vão pensar sobre aquele momento. E então eu termino o livro e aí tenho que responder a um e-mail sobre qual banda de abertura queremos no Chile, mas não existe um "oh, meu Deus, eu tenho que ter uma mentalidade completamente diferente agora". É tudo integrado, mas bem dividido. Minha vida é muito normal, faço as mesmas coisas há muito tempo. Olha, eu acho que seria muito estranho se você fosse para o trabalho sendo outra pessoa [risos].

Eu não acho mesmo que muitas pessoas estão qualificados para serem grandes. Você tem que saber que muitos artistas realmente grandes são totalmente idiotas na vida real. É um truque. (...) E eu ainda não tenho certeza se há um ser humano sobre a Terra para ser isso.

Robert Smith

UOL - É muito raro ver você andando pelas ruas como uma pessoa normal, como se você nunca cruzasse o caminho dos paparazzi . Como você faz isso? Qual é o segredo para manter-se invisível aos olhos do público?
Robert -
É muito, muito fácil. Você não força um paparazzo a tirar foto sua, você tem que querer ser fotografado. Todos dizem: "Ah, estou chocada! O maníaco me fotografou de biquíni". Eu estou tranquilo de alguma forma nos últimos 25 anos e todo mundo sabe onde eu moro. Nos primeiros anos foi um pouco agitado, mas, gradualmente, você vira um dos moradores. Em Londres, obviamente, tudo vai depender de onde vou. Se vou ver uma banda é realmente uma questão de ter mais atenção, mas eu sei que vai acontecer [de o fotografarem], então eu não deveria ir lá. Se você sai por aí não pode reclamar, porque realmente querem saber de você, porque você foi bem sucedido em alguma coisa. Bem, nos velhos tempos era assim porque você tinha feito algo, agora é assim mesmo que você não tenha feito nada. É o preço que eu pago, mas as coisas que eu gosto de fazer são realmente muito, muito low profile de qualquer maneira. Eu não vou em eventos muito grandes. Geralmente estou participando de eventos locais onde ninguém se importa se você está lá.

UOL - Você é um ícone e uma referência para uma geração. E quem é seu herói?
Robert
- Sempre fui inspirado por David Bowie, Jimi Hendrix e Alex Harvey, o cantor escocês. Todas estas pessoas me inspiraram ao longo dos anos --grandes guitarristas, grandes compositores, grandes cantores. Eu me inspiro em grandes escritores também. Há escritores realmente bons, mas eles não são verdadeiros heróis. Eu desisti de saber mais sobre as pessoas que poderiam ser meus heróis há muito tempo porque elas sempre me decepcionam. Eles sempre fazem algo, em algum momento, que me faz pensar: "Ah, p***, que inferno! Isso é terrível!" E isso tira do coração o seu amor por eles. Então, eu meio que estou dividido entre querer saber sobre as pessoas que eu admiro, na esperança de que eles serão indivíduos realmente bons, e temendo que eles, na verdade, vão me chocar por serem idiotas, mesmo que eles façam uma bela arte.

A primeira vez que eu encontrei David Bowie eu o entrevistei para uma estação de rádio. Nós tivemos uma discussão sobre o valor da arte, e se seria o próprio artista a validade daquilo ou a obra em si. Eu disse que o artista é inteiramente responsável pela arte e, portanto, você tem que respeitá-lo e amar o artista se você respeitar a arte. E Bowie argumentou que o trabalho artístico era tudo o que importava, e não a pessoa. Na verdade, eu não acho mesmo que muitas pessoas estão qualificados para serem grandes. Você tem que saber que muitos artistas realmente grandes são totalmente idiotas na vida real. É um truque. Se eu tenho herói é David Bowie, mas eu discordo completamente de suas opiniões sobre a própria arte, assim como para outras coisas na vida. Então, como é que ele pode ser o meu herói? É muito difícil. E o herói, para mim, é a pessoa que você gostaria de ser. Então eu não tenho um herói. Eu nunca tive ninguém que eu acho que é realmente grande. E eu ainda não tenho certeza se há um ser humano sobre a Terra para ser isso.

UOL - Para finalizar, você poderia dizer qual é para você o melhor álbum e a melhor canção do The Cure?
Robert
- Uau... Provavelmente o "The Greatest Hits" é um bom resumo de tudo, mas meu álbum favorito pessoal é o que estamos prestes a lançar. Eu acho que é definitivamente o meu tipo de música favorito. Há uma canção no álbum chamada "Christmas Without You". É a melhor música que eu já escrevi. Das antigas canções do The Cure a melhor seria provavelmente "10:15 (Saturday Night])" [do álbum "Three Imaginary Boys", 1979]. Eu fiz o The Cure porque eu tinha essa música.

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