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Falso documentário que "desvenda" plano de destruir a MPB vai ganhar série na web

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

21/05/2013 05h00

Um dos compositores de maior sucesso no Brasil, Michael Sullivan tem seu passado - ao lado de toda a produção musical brasileira da década de 1980 - colocado em xeque no documentário de curta-metragem "MPB: A história que o Brasil não conhece". O vídeo, que circula na internet desde abril, é baseado no livro "Firework Operation", de Neil Jackman, e revela um plano maquiavélico do governo americano, desconhecido por boa parte dos brasileiros: a destruição da música brasileira.

Sullivan não seria apenas o compositor, ao lado de Paulo Massadas, de "Um Dia de Domingo", "Whisky a Go-Go" e tantas outras versões para trilhas de novelas e grupos musicais infantis, mas um dos agentes infiltrados pelos Estados Unidos no país com esse objetivo. Ele não estaria sozinho. Outros teriam sido espalhados com a mesma missão: Oswaldo Montenegro em Brasília, Humberto Gessinger no Rio Grande do Sul e Compadre Washington na Bahia.

Na verdade, tudo não passa de uma piada muito bem feita. O que o diretor André Moraes fez foi um mockumentary, um falso documentário, narrado pelo ator Caco Ciocler, que, como pede a proposta, tem iludido muita gente. "Cara, é uma loucura. Tem gente que entrou na história. É um curta conspiratório apenas. Estamos fazendo essa brincadeira com um livro que não existe, mas isso não importa, é para refletir sobre a nossa música", explica em entrevista ao UOL.

Com depoimentos e relatos de músicos de várias vertentes, como Iggor Cavalera, Jair de Oliveira e Beto Jamaica, o filme despertou reações pela web e um blogueiro chegou a divulgar o curta com uma falsa notícia: "Lançado em 2011, (o curta) quase não foi a cartaz. Ligações anônimas e perseguições ao diretor tornaram tensas as gravações".

Confira as teorias de conspiração do curta
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Os depoimentos de quem viveu a história inventada ou teve acesso ao fictício livro são tão escabrosos como engraçadas. Sergio Mallandro afirma que foi obrigado a investir na carreira de cantor e inserir seu já característico "glu glu" para ser mais um soldado na guerra para emburrecer a música brasileira.

Beto Jamaica e Reinaldo, ex-vocalistas do É o Tchan! e do Terrasamba, contam que Compadre Washington tem esse sobrenome por ter nascido na capital americana. Em uma das melhores cenas do filme, um integrante do grupo Swingue Maneiro chora ao dizer que foi torturado por tentar introduzir o tema família no gênero axé. "Cada integrante foi colocado em um canto para que não conseguíssemos nos reunir mais", explica. Axé, inclusive, seria uma abreviação de "America Exterminate Your Ears" (América Extermina seus Ouvidos").

A origem da "conspiração"

Reprodução
André Moraes veio do cinema (o pai Geraldo Moraes é diretor, o irmão Bruno interpreta Fê Lemos no filme "Somos Tão Jovens" e ele mesmo foi responsável pela trilha sonora de "Assalto ao Banco Central") e teve a ideia quando sentou no sofá para assistir clipes na MTV. Em vão. "Como é que uma TV que tem música no nome não passa clipes? Só podia ser conspiração", conta, aos risos.

Com a ajuda de amigos, André Moraes mostrou o resultado da brincadeira pela primeira vez na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2011. "As pessoas se identificaram com o curta, mais do que eu imaginava. Mas ficamos um tempo com ele parado, sem saber o que fazer".

Ao subir o vídeo no YouTube, no começo deste ano, para mostrar a um amigo, esqueceu de publicar no perfil fechado. Ficou sabendo do sucesso com um telefonema de Simoninha. "Ele me ligou: 'Rapaz, o que você fez com o vídeo? Está todo mundo me ligando para saber dessa conspiração'. Até a Margareth Menezes me ligou, pirada no filme, dizendo: 'é do c****, quero dar meu depoimento, quero ler o livro'".

Surgiu, então, a ideia de transformar o assunto em uma série.  "Agora, toda semana vai ter um capítulo. Temos um depoimento revelador do ator Vinícius de Oliveira (do filme "Central do Brasil"), que conheceu Neil Jackman , escritor do livro, no Oscar. E o 'Firework Operation' vai finalmente sair no Brasil", avisa André.

Vinicíus de Oliveira lembra encontro no 2° capítulo

É de mentira, mas é verdade
A história absurda do curta garante o riso, mas nem tudo surgiu da imaginação. Ary Barroso realmente mostrou o Brasil para o mundo com "Aquarela do Brasil" e Carmen Miranda foi uma das maiores estrelas dos anos 1940 e 1950 - aproveitada pelos estúdios de Hollywood para conseguir mais público para os filmes em outros países. Nos anos 1980, Michael Sullivan e Paulo Massadas (ou o costa-riquenho Paul Massadas, segundo o personagem fictício no filme Jeff Colin) foram para o Guinness como a dupla de compositores com mais discos na parada.

 

Um dos depoimentos, o do ex-Dominó Afonso Nigro, também é verídico. "Eu chegava com o texto pronto para eles. Passei para o Afonso essa história das canções em inglês, que tinham suas versões em português reveladas apenas na última hora, e ele me disse: 'André, mas isso acontecia mesmo, era verdade'", garante o diretor.

No filme, o atual jurado do "Ídolos Kids" vira Geraldo Vandré ao compor "P da Vida", sucesso do Dominó e um hino contra a ação yankee. Outro mártir vem do axé. Luiz Caldas se apresentar descalço é tido como um ato anti-imperialista, já que os Estados Unidos queriam comprá-lo com 50 pares de tênis Nike.

"Foi nessa época que o Brasil começou a explorar outros estilos. Foi quando a música mais simples começou a bombar e o que era popular - como Tim Maia, Caetano - virou cult. Aí virou essa bagunça. Veio Balão Mágico, Xuxa, Mara Maravilha", tenta explicar André. O diretor, porém, deixa claro: "Antes de mais nada, adoro o Sullivan. Acho ele foda. Mas um cara com um nome desses por trás de todos esses grupos, vira piada", explica.

Com a ideia de transformar o tema em série, André também se prepara para lançar o tal do livro citado no curta. "Vamos ter um capítulo para se aprofundar no axé e outro para mostrar essa invasão dos musicais da Broadway por aqui", promete. Quando questionado se vai ser ele mesmo que vai escrever, responde contrariado: "Não, cara, vai ser o Neil Jackman, né?".