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Vocalista do Garotos Podres briga com integrantes e bloqueia uso do nome da banda

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Formação do Garotos Podres, da esquerda para a direita: Mao, Mauro, Sukata e Caverna Imagem: Divulgação

Mário Barra

Do UOL, em São Paulo

22/05/2013 08h10

Uma das principais bandas punk do Brasil, com mais de 30 anos de história, o Garotos Podres está envolvido em uma disputa entre os integrantes do grupo, conhecido por músicas como "Papai Noel Velho Batuta", "Vou Fazer Cocô" e "Anarquia Oi".

Com o nome Garotos Podres congelado para uso, o baixista Michel Stamatopoulos e o baterista Leandro Ciorra, conhecidos como Sukata e Caverna no meio musical punk, travam uma batalha na Justiça com o vocalista Mao. Enquanto isso, a dupla se apresenta sob o nome Garotos ao lado do vocalista Gildo Constantino, conhecido pelo trabalho anterior na banda Pátria Armada.

OUTRO LADO

O UOL entrou em contato com o baixista Michel Stamatopoulos (Sukata). O músico e advogado preferiu não comentar sobre o assunto.

Já Ricardo Prates disse à reportagem lamentar a briga entre os integrantes, mas confirmou, a rigor, o congelamento do nome Garotos Podres. "Por enquanto, a banda está desativada", afirmou o empresário.

Sem entrar em detalhes sobre o que Mao disse a seu respeito, Prates afirmou que o cantor abandonou a banda. O empresário também defendeu sua influência no grupo. "A banda tem uma história muito bonita, fiz parte disso. Ajudei de alguma maneira a criar o Garotos".

Em entrevista ao UOL, Mao apresentou sua versão dos fatos. Segundo o cantor, os problemas começaram durante a passagem da banda pelo Araraquara Rock 2012, evento realizado na cidade paulista entre 12 e 15 de julho. O Garotos Podres foi uma das atrações que encerraram o festival, ao lado do CPM 22.

Mao conta ter desconfiado dos valores de cachê para a banda, maiores que o de costume, e também das empresas envolvidas no evento. Ao pedir explicações sobre a natureza dos contratos, Mao diz não ter recebido resposta de Ricardo Prates, empresário da banda. Na sequência, o cantor diz que foi abandonado pelos membros da banda na cidade, sem transporte e dinheiro, a 300 quilômetros de distância de sua casa, em São Bernardo do Campo.

Incomodado, Mao decidiu registrar o nome Garotos Podres junto ao Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) em julho de 2012. O músico não comunicou a decisão aos demais integrantes. "Meu objetivo não era me aproveitar disso. Era só o de me resguardar", conta o cantor.

Com a passagem dos meses, Mao cortou relações com Sukata, Caverna e Prates. O vocalista chegou a forçar o cancelamento de um show da banda previsto para Cascavel, em setembro de 2012, depois de ter avisado ao contratante de que não participaria. "Depois de Araraquara, rompeu-se um vínculo de confiança. Como que eu iria viajar até o Paraná com uns caras desses?", questiona Mao.

 

Em seguida, o cantor relata ter recebido ameaças de processo por parte de Sukata, que dizia a amigos em comum que o cantor deveria cumprir a agenda da banda para não precisar responder na justiça. "Eles queriam me obrigar a tocar. Quero distância disso. Sou mão de obra livre, não sou escravo", diz.

Estremecida, a relação entre os músicos acabou de vez quando Sukata tentou, em março de 2013, registrar o nome do grupo junto ao Inpi e descobriu que Mao tinha se adiantado. O baixista então enviou uma notificação extrajudicial a Mao, propondo um acordo no qual os direitos sobre a marca seriam distribuídos entre os demais integrantes do Garotos Podres ou que o nome fosse liberado para uso livre. Caso Mao se negasse ou deixasse de responder, a notificação alertava sobre ações possíveis por danos morais e materiais e por impedimento de registro do nome Garotos Podres junto ao Inpi.

Mao respondeu à notificação, alegando que não havia abandonado a banda como a notificação havia proposto, e citou o ocorrido em Araraquara. Em seguida, Mao enviou novas notificações ao empresário Ricardo Prates e os músicos Sukata e Caverna. Nos três documentos, o cantor reforçou o direito à marca Garotos Podres e negou autorização para o uso do nome em situações como lançamentos de discos e shows.

Todos os documentos foram disponibilizados pelo cantor em sua página no Facebook. O uso da rede social foi outro motivo de discórdia entre os integrantes, com Mao relatando ter sofrido bloqueios por conta da ação de seus ex-colegas de banda, incluindo Gildo Constantino. Gildo, Sukata e Caverna aparecem em apresentação recente do Garotos – já sem Mao e com o nome reduzido – ao lado do duo Brothers of Brazil, de Supla e João Suplicy, durante a comemoração do aniversário da cidade de Santo André em 8 de abril de 2013.

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    Disputa judicial entre Sukata (2º à esquerda) e Mao (último à direita) desmontou a banda

Fim da banda

Com os problemas de relacionamento e a disputa judicial em andamento, Mao afirma que a história do grupo criado em 1982, um dos principais nomes do punk brasileiro ao lado de Ratos de Porão, Cólera e Inocentes, chegou ao fim. "Aquela banda chamada Garotos Podres acabou. Não existe uma continuidade da banda", diz Mao. "O que eles [Sukata e Caverna] vão fazer, não é mais problema meu. Nem vou me manifestar mais. Já cumpri o meu papel de alertar as pessoas. O Garotos Podres acabou, ponto."

Já o Garotos tem apresentação marcada ao lado do Inocentes para abrir o show de CJ Ramone em São Paulo, a ser realizado em julho de 2013 na casa Hangar 110.

Mao confirma que vai tocar um novo projeto musical ao lado de Cacá Saffiotti, guitarrista que tocava com o Garotos Podres e também está em pé de guerra com Sukata e Caverna. O grupo ainda não tem nome ou data para ser lançado. "A gente não está com muita pressa, é um projeto novo, está no começo. Até o fim do ano, eu creio que a gente tenha algo", conta o cantor, que deverá permanecer no mundo do punk. "Será fincado naquilo que a gente gosta. Um nome novo, com novas músicas. Não será esse oportunismo de querer se apropriar indevidamente de algo."

O repertório tradicional dos shows do Garotos Podres no passado, que reúne músicas como "Rock de Subúrbio", "Ainda Vamos Tocar Bossa Nova" e "Garoto Podre", também não está descartado. "Na verdade, as músicas da banda qualquer pessoa pode tocar. Se a pessoa quiser tocar no bar, não tem nada que proíba. E eu ainda posso dizer que sou o autor e compositor da maioria das faixas", explica.