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Relatos, fotos e músicas contam vida de Gil em "Gilberto bem perto"

Mirella Nascimento

Do UOL, em São Paulo

09/08/2013 10h09

Aos dois anos de idade, Gilberto Passos Gil Moreira já tinha planos para o futuro. “Eu quero ser musgueiro, mãe. Eu quero ser musgueiro e pai de menino”, dizia o pequeno Beto, filho de Claudina Passos e José Gil Moreira, conhecidos como Cola e Zeca na bucólica cidade baiana de Ituaçu. “Musgueiro” era a palavra usada pelo menino para definir quem vivia de música.

Filho de médico, criado em uma família de classe média do interior da Bahia, Beto cresceu, virou um dos grandes musgueiros da música brasileira e teve oito filhos – três meninos e cinco meninas. Estudou Administração, mudou-se para São Paulo nos anos 60, largou o emprego em uma multinacional, casou-se quatro vezes, foi exilado durante a ditadura, criou o Tropicalismo ao lado de artistas como Caetano e Tom Zé, tocou com grandes nomes da música nacional e internacional, foi vereador em Salvador e ministro da Cultura. Essas e outras histórias são contadas em detalhes no livro “Gilberto bem perto” (Nova Fronteira, R$ 59,90), lançado em julho, com a jornalista Regina Zappa.
  • Capa de "Gilberto bem perto"

 
Aos 71 anos, Gil chegou a dizer que não tinha interesse em ver sua vida publicada em livro, mas que o público quer saber o que uma figura tão conhecida como ele tem a contar. "Não tive nenhum interesse propriamente [na publicação do livro]. O interesse é do meio, é das pessoas que querem, que ficam curiosas", afirmou durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Gil disse ainda que é "fraco de memória" e que fazer o livro o ajudou a "restaurar os recantos danificados" de suas lembranças.
 
Dividido em nove capítulos, “Gilberto bem perto” conta a vida de Gil de forma cronológica, com base em depoimentos de Gil, sua família e amigos, além de pesquisas em livros e filmes sobre o artista e sobre a música brasileira. Ao longo das 400 páginas da edição, fotos de arquivo pessoal ajudam a contar a história de Gil, da produção cultural brasileira e do país (confira no álbum acima 30 fotos publicadas no livro). 
 
Durante a preparação, Regina chegou a passar alguns dias na casa de Gil e Flora em Salvador. Mesmo depois de conviver por meses com ele, compartilhando experiências e intimidades, a jornalista diz que é difícil defini-lo, que Gil é “um ser único e diverso”. “Gil é como um rio, que tem vários braços e depois volta num rio caudaloso. Ele tem muitas facetas, muitos perfis. É maravilhoso”, comparou. Ela destacou ainda o lado emotivo do músico, que chorou diversas vezes ao relatar as memórias do passado. "Gil se emociona facilmente. Então, os olhos ficavam cheios d'água em muitas dessas conversas", lembrou. 
 
Além das fotos e dos relatos, as próprias letras das músicas de Gil contam episódios sua vida, como a despedida do Brasil antes do exílio em “Aquele Abraço”, a separação de Sandra Gadelha em “Drão” (Drão! Não pense na separação / Não despedace o coração / O verdadeiro amor é vão / Estende-se infinito) ou a paixão por Flora Gil em “Flora” (Imagino-te futura / Ainda mais linda, madura / Pura no sabor de amor e / De amora). No livro, o leitor encontra ainda currículo, discografia e árvore genealógica do artista.
 
Leia trechos do livro “Gilberto bem perto”:
 
Convite de Elis Regina em 1965
“Às cinco da tarde, Gil bateu o ponto. Saiu do trabalho apressado, andou até a esquina da avenida Ipiranga com avenida Rio Branco e tocou a campainha do apartamento de Elis Regina, já então uma estrela da TV, no comando do programa ‘O fina da bossa’, o grande sucesso da Record. Nem bem entrou na casa e ela já foi logo pedindo: ‘Toque uma música’. Depois: ‘Toque mais uma’. Segundo Elis, todo mundo na cidade só falava de Gilberto Gil: ‘Edu fala muito de você. O Baden já me falou de você também. Ouvi outro dia uma música sua…’ Nascia ali uma grande amizade e uma das muitas parcerias que Gil estabeleceria nesse primeiro ano fora da sua Bahia”. 
 
Viagens lisérgicas no exílio
“Em Londres, Gil experimentou ácido, mescalina, cogumelo e fazia ‘muitas viagens lisérgicas’. ‘Tudo aquilo. Eu me lembro na nossa casa ainda em Chelsea no primeiro ano, quando uns americanos apareceram e nós tomamos uns ácidos. Fomos parar todos na cozinha de madrugada, e os americanos começaram a ler o papel de parede como se fossem hieróglifos. Eles liam e aquilo fazia sentido para eles’. Foram muitas ‘viagens’. Gil chegou a declarar que nessa fase tomou mais de cem ácidos. ‘Era uma loucura! Uma noite havia uma turma enorme, dez ou 15 brasileiros, viajando de ácido. De repente vimos materializar-se no meio da sala uma das pessoas que estavam no outro quarto. Nós nos assustamos e aquela figura que se materializou como uma holografia no meio da sala se desvaneceu. Todos corremos para o quarto, a figura estava lá’”.
 
Crise e a letra de “Palco”
“Aquilo não saía da sua cabeça. Precisava fazer outra coisa na vida, sentia um fastio. Algo dentro  de Gil dizia que era hora de parar com a música, arrumar outra profissão. Era diferente de uma certa vez, quando receou ter secado a fonte de onde tinha saído toda a sua obra. Já corria o ano de 1980 e, agora, era o próprio Gil quem queria drenar a fonte. (…) Ainda gostava de cantar, não era essa a questão. Ele precisava de algo que trouxesse um novo sopro de vida, um novo rumo.
Estava prestes a tomar a decisão quando pensou que teria que fazer uma música de despedida, a última. ‘É’, pensou, ‘essa declaração tem que ser musical. Tenho que ir para o palco contar para o público que estou indo embora”.
Fez assim a canção que se tornou uma das suas prediletas e que ele escolheu como talismã: “Palco”. Mas será que ela não era exatamente o contrário de tudo aquilo que ele estava sentindo? Não era uma reafirmação de sua relação com a profissão? Não deixava claro o que cantar e compor representava para ele?
Depois que terminou a canção foi procurar onde dizia que ia parar. Não encontrou. (…) Ficou quieto. No dia seguinte não pensava mais na despedida”.