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"Se fosse vivo, ele estaria no funk", diz filha de Vinicius de Moraes

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

08/10/2013 13h39

"Pai, pai... vem contar uma história", imploravam os irmãos Pedro e Suzana ao pai, Vinicius de Moraes. Ninguém contava histórias para dormir como ele. "Não chateiam. Estou escrevendo poesia", pedia Vinicius, tentando se concentrar na escrita. "E o que é poesia, pai?", retrucavam os irmãos, com idades entre 6 e 8 anos. Era final da década de 1940, quando o até então vice-cônsul vivia com a família em Los Angeles.

Nos cinemas

Divulgação
Os versos que Vinicius de Moraes fez para os discos da "A Arca de Nóe" vão parar em breve nas telas de cinema. Filha do poeta, a cineasta Suzana de Moraes encabeça o projeto ao lado do diretor Walter Salles. "Venho batalhando um tempo com o filme, eu quase desisti. O Brasil não tem dinheiro, nem mercado para isso", reclama Suzana. "Walter Salles que é bobo com os filhos e tem acesso a dinheiro chegou para mudar isso", brinca. Sérgio Machado, que dirigiu "Cidade Baixa", ficará a cargo do roteiro e da direção. "O roteiro já está uma graça", conta. A animação será em 2D, mas ainda não tem previsão de lançamento

Para se livrar logo da pentelhação dos pequenos, fez, para cada um, pequenos versos sobre animais. "Não era ainda a 'Arca de Nóe', mas talvez tenha vindo daí a gênese da ideia", contou ao UOL Suzana de Moraes, que aos 73 anos, às vésperas do centenário do pai, lança uma nova versão para uma das obras mais ricas da música infantil e um marco na carreira de Vinícius.

Lançado em 1980, "A Arca de Nóe" reuniu grandes intérpretes da música, como Fagner, Ney Matogrosso e Elis Regina, para cantar em cima de poemas do livro homônimo de 1975, que contava a saga bíblica de Nóe, sua arca e alguns tantos casais de espécies diversas. O poeta cuidava dos detalhes do segundo volume do projeto, ao lado do parceiro e amigo Toquinho, quando morreu em julho daquele ano. "A Arca de Nóe" não só entrou para a história como também para o imaginário das crianças que nasceram a partir da década de 1980. "Foram três gerações que ouviram a 'Arca'. Todo mundo queria fazer essas regravações", disse Suzana.

Dessa vez, com a coprodução de Adriana Calcanhotto, Dé Palmeira e Leonardo Netto, Suzana remontou não só chamou a nata da MPB --Caetano Veloso canta "O Leão"; Gal Costa dá a voz à inédita "As Borboletas"; e Chico Buarque defende "O Pinguim"--, como deu espaço a cantores e estilos mais populares. "A Corujinha", defendida por Elis Regina na versão original, ganhou um bonito clima bucólico com Chitãozinho e Xororó. Já "O Pato" ganhou suingue na versão de Zeca Pagodinho, e "A Galinha D'Angola" flui no ritmo do kuduro, com Ivete Sangalo e Buraka Som Sistema.

"O projeto original era uma gracinha, mas os arranjos ficaram defasados. Era legal fazer com artistas que as crianças curtam agora, sem preconceitos". Do jeito que Vinicius gostaria. "Ele era super novidadeiro, ele ia gostar muito do resultado", garantiu, sem deixar de prever por onde o pai, prestes a completar cem anos no próximo dia 19, estaria andando. "Se ele estivesse vivo, ele estaria no funk, com certeza", disse Suzana, aos risos.
 

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    O poeta com a filha Suzana

"Ele sempre decepcionou todo mundo"
Talvez Vinicius realmente dialogasse o funk, cujas batidas ressoaram pela primeira vez das favelas e guetos. Deixando a carreira diplomática de lado, o poeta, jornalista, músico, escritor e boêmio fugia de qualquer estereótipo e corria da normalidade. Casou-se por nove vezes em sua vida e nunca dispensava um uísque para cantar, conversar e escrever.

É tido como mestre e grande influenciador de praticamente todos os compositores e artistas que surgiram depois. Com versos de amor tão perfeitos quanto simples, Vinicius entrou de cabeça na música brasileira --mais tarde dialogaria com os batuques e as referências das religiões afro ao lado de Baden Powell, com seu afrosamba--,  o que soou como heresia na época. Um intelectual como ele se envolver na gandaia e na vagabundagem da música?

"O Vinicius sempre decepcionou todo mundo", disse a filha. "Ele entrava na onda e depois, como era inquieto, não usufruía de seu sucesso. Buscava então novas formas de expressão. O maior passo foi levar a poesia canônica para a música brasileira, e ele foi duramente criticado pelos conservadores, essa conversa da baixa e alta cultura. Ele foi a pessoa que mais quebrou esse tipo de preconceito, foi salutar para todo mundo".

Mas mesmo aos cem anos, no entanto, o mundo soaria careta para Vinícius. "Não consigo ver coisas do Vinicius muito hoje em dia. A gente vive numa época bem careta". Mais do que as canções e os poemas, Vinicius deixou um legado marcante e uma lição que ainda soa natural e necessária.

"Ele tinha atitude existencial. O jeito com que ele transava com a vida ficou muito marcado. Em uma época em que quem tinha era mais legal, tinha ele lá que lixava pra esse tipo de coisa. É uma inspiração", contou ela.

Como disse o companheiro de escriba, Carlos Drummond de Andrade: "Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural".