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50 anos sem Edith Piaf: Bibi Ferreira comenta relação com a obra da cantora

Patrícia Colombo

Do UOL, em São Paulo

10/10/2013 08h00

Em 10 de outubro de 1963, há exatas cinco décadas, Edith Piaf morreu de câncer no fígado aos 47 anos de idade. Junto a nomes como os das norte-americanas Billie Holiday e Ella Fitzgerald e da brasileira Elis Regina, a francesa integra um grupo de cantoras do século 20 que sabiam unir potencial vocal a elegância e emoção nas canções que interpretavam. E sua influência nas artes, por exemplo, deu à dama do teatro brasileiro, Bibi Ferreira, um dos mais importantes papéis de sua carreira.

De seus 91 anos de vida, Bibi passou 30 deles no palco interpretando os vibratos e as canções imortalizadas por Piaf. Tudo começou em 1983 com o bem-sucedido espetáculo "Piaf - A Vida de Uma Estrela da Canção", que rodou o país. Em julho deste ano, após três décadas, ela celebrou a efeméride na temporada do show "Bibi Canta e Conta Piaf", no qual atua com êxito desde 1992, discorrendo sobre a trajetória da francesa enquanto canta seus grandes clássicos. 

  • Divulgação

    Bibi Ferreira durante espetáculo "Bibi Canta e Conta Piaf"

Nos 50 anos da morte de Piaf, Bibi falou ao UOL sobre a experiência de viver a intensa cantora nos palcos, tarefa esta que lhe rendeu a Comenda da Ordem do Mérito das Artes e das Letras da República Francesa, entregue em 1985 pelo então Ministro da Cultura da França, Sr. Jacques Lang, em visita ao Brasil.

"Toda a história dela, além de seu próprio talento, sempre me deslumbrou”, conta Bibi. “Mas lembro que quando me mostraram o texto inicial de 'Piaf - A Vida de Uma Estrela da Canção' [peça da inglesa Pam Gems], achei aquilo muito mal escrito. Após algumas mudanças me convenceram a participar.” A direção era de Flavio Rangel e foi um sucesso imenso de público, permanecendo em cartaz de 1983 a 1990.

“Apesar de tanto tempo nessa experiência, até hoje tenho algumas dificuldades com relação à língua e à pronuncia de certas palavras mais difíceis”, ela revela. “É muito preocupante entrar no palco cantando um idioma que você não domina. E sempre levei essa responsabilidade muito a sério.” Em 1992, na circunstância de um convite vindo da Prefeitura do Rio de Janeiro e do Consulado da França, Bibi criou um novo espetáculo, "Bibi Canta e Conta Piaf", para que ele fosse apresentado na reinauguração da Praça Paris, no bairro carioca da Glória. O show teve temporadas pelo Brasil, além de França e Portugal, nos anos seguintes.

Inevitavelmente, passar tanto tempo na pele da mítica Piaf aproximou a atriz tanto da obra musical da francesa quanto de sua persona conhecida. Estudou a fundo a vida dela e, ao falar sobre o assunto, soa como se estivesse descrevendo uma amiga íntima. "De dramático ela só tinha as coisas que vinham contra ela, as circunstâncias da vida", comenta. "Edith era muito alegre. Bem disposta, gostava de tudo, fazia tricô. E tinha essa coisa de gostar de ter um companheiro sempre ao lado. E assim teve vários amores ao longo da vida.”

Quanto ao talento artístico de Piaf, os elogios são muitos. “Ela era singular. Uma mulher que veio do nada, que cantou por anos no meio da rua”, afirma. “Quando entrava em cena, tinha um domínio total do palco, de sua voz. Tinha bom gosto também na escolha das canções.” Entre as músicas favoritas de Bibi, estão: “Hymne À L'amour” (“tem um potencial artístico e sinfônico muito belo”), “La Vie Em Rose” (“um clássico maravilhoso”) e “L'accordéoniste” (“é a mais difícil de cantar porque ela tem uma extensão vocal muito grande”).

La Môme Piaf

A história de Piaf já foi contada detalhadamente em uma série de biografias lançadas ao longo dos anos e no filme “Piaf - Um Hino ao Amor” (2007), protagonizado por Marion Cotillard. As tormentas de Edith Giovanna Gassion, nascida em 19 de dezembro de 1915 em Belleville (um dos bairros mais pobres de Paris) são conhecidas: seu pai era um acrobata e, ainda pequena, foi abandonada pela mãe, também cantora – que sumiu por anos e só reapareceu por interesses financeiros quando Piaf já era famosa. Durante cinco anos viveu no prostíbulo cujo comando ficava a cargo da avó paterna, segundo conta Carolyn Burke, autora do livro “Piaf – Uma Vida”, lançado em 2011 no Brasil.

Ela era singular. Uma mulher que veio do nada, que cantou por anos no meio da rua. Quando entrava em cena, tinha um domínio total do palco, de sua voz. Tinha bom gosto também na escolha das canções

Bibi Ferreira

Apresentou-se nas ruas de Paris na adolescência, casou-se com um entregador e teve uma filha que morreu aos dois anos de idade devido a uma meningite. Edith tinha 19 anos nessa época. Passou ainda por muitos outros altos e baixos, mas nunca deixou de acreditar que, no futuro, as coisas dariam certo e que o sucesso viria. Seu amor pela música e pelo canto era gigantesco – o que muitas vezes foi visto pelos amigos como o verdadeiro aspecto que a mantinha forte diante das adversidades.

Aos 20 anos de idade, sua sorte profissional tomou outro rumo quando ela foi descoberta por Louis Leplée, cantando em uma rua parisiense próxima à Champs-Elysées. Ele encantou-se com a voz tão característica da menina e a convidou para se apresentar em seu cabaré. Dali em diante, a agenda dela se encontrava cada vez mais preenchida por compromissos com o crescente público. Foi Leplée, inclusive, que a apelidou de “La Môme Piaf” (que significa “O Pequeno Pássaro”).

Como Bibi mencionou, Piaf era uma mulher de muitos amores e teve alguns relacionamentos com homens mais jovens. Porém, o mais marcante de sua vida foi o boxeador francês Marcel Cerdan, que conheceu durante uma apresentação em Nova York em 1947. Mantiveram o affair escondido da imprensa durante cerca de um ano. Mas acabaram revelando publicamente ao perceberem a aceitação do público - que os via como o casal ideal: duas pessoas de origem humilde que representavam a França para o mundo como o herói e a heroína do imaginário popular, como descreve Burke em um texto seu para o jornal britânico “Telegraph”.

Em 1949, Cedran morreu em um acidente de avião, tornando-se outra grande perda na vida da cantora. Logo após o acontecimento, Piaf começou a sofrer com fortes dores devido a uma artrite reumatoide da qual se tornou refém (além dos problemas consequentes de três acidentes de carro). Ao longo dos anos, viciou-se nos analgésicos indicados pelos médicos durante o tratamento e bebia cada vez mais também como forma de aliviar o sofrimento físico. Em 1963 deu adeus.