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De David Bowie a Miley Cyrus, 2013 foi de reconstrução para a música

Emicida, Lorde e os cabeças do Procure Saber, Paula Lavigne e Caetano Veloso - Arte UOL
Emicida, Lorde e os cabeças do Procure Saber, Paula Lavigne e Caetano Veloso Imagem: Arte UOL

Ricardo Alexandre*

Colaboração para o UOL

26/12/2013 10h37

Se me pedirem para definir o ano de 2013 em uma única palavra (espero que não peçam), eu usaria "reconstrução". Olhando com os olhos do mundo, Brasil incluído, pela primeira vez desde o início dos anos 2000 o mercado anteriormente conhecido como "fonográfico" aparentou conforto em lidar com plataformas como o iTunes, CDs, discos de vinil ou aplicativos de streaming. Pela primeira vez, ficou claro que a MTV foi trocada pelos lyrics vídeo para assistir no celular, que a "crise" não é uma crise e que nossa relação com a música não será a mesma que em 1994.

No Brasil, a volta da 89FM - A Rádio Rock, o retorno digital da revista "Bizz", os serviços de streaming como Deezer e Rdio botando as manguinhas de fora, Gaby Amarantos e os indies na novela das sete, pintaram um 2013 muito diferente daquele pintado pelos profetas do óbvio. Se estamos muito distantes da corrente perfeitamente azeitada e promissora dos anos 1980, também há diversos sinais de que 2014 começa repleto de oportunidades para os talentos que nunca deixaram de brotar.

Pensando bem, foi um ano tão virado de cabeça para baixo que alguns dos maiores ídolos da música passaram a maior parte do tempo pensando em como não aparecer. David Bowie soltou seu primeiro disco de inéditas em dez anos, "The Next Day", de uma hora para outra em março e recolheu-se em sua névoa de mistério em que está levitando desde que assumiu este novo e gretagarboniano personagem. Beyoncé gostou da ideia e também pegou o mundo de surpresa com um "álbum visual" homônimo em dezembro. Tanto o inglês quanto a norte-americana venderam horrores, se deram bem nas paradas, lançando uma tendência do anti-marketing como possibilidade de marketing.

Talvez Miley Cyrus, a atriz-cantora celebrizada como Hannah Montana na série da Disney, pudesse aprender um pouco com Bowie e Beyoncé. Miley abriu 2013 anunciando que finalmente seria publicamente "a vagabunda" que afirmava ser na vida real e cruzou o ano implorando nossa atenção, fazendo caretas, mostrando o corpo, postando nas redes sociais e fazendo algo parecido com música.

À primeira vista, a turminha do movimento Procure Saber também zelava pela vida privada dos artistas brasileiros --à mercê de biógrafos que, segundo Djavan, fariam "fortunas" explorando sua dor e à dos que os cercavam. No final, ficou evidente que o movimento era apenas o retrato de gente com uma visão anacrônica de poder vivendo em tempos de descontrole absoluto da informação. No meio do caminho, ficou dolorosamente evidente que toda a ética dos anos 1960 era mais fruto das circunstâncias do que de convicções. E, de uma hora para outra, Caetano, Gil, Chico, Roberto e diversos outros mancharam suas biografias de forma talvez indelével.

A esta altura, você já deve estar se perguntando sobre os melhores discos do ano. E faz sentido porque ainda pensamos na música a partir da unidade de medida dos álbuns. Um dado curioso foi que em 2013, tanto a corporativa "Rolling Stone" quanto o alternativo site Pitchfork elegeram "Modern Vampires of the City", do Vampire Weekend, como o melhor disco do ano. Neste seu terceiro trabalho, o grupo novaiorquino enxugou suas pretensões musicais e fez o que talvez seja seu disco mais cheio de ganchos.

Mas "...Like Clockwork" do Queens of the Stone Age, "AM" dos Arctic Monkeys e "Reflektor" do Arcade Fire também fizeram bonito. Estes, ao lado do Franz Ferdinand (que compareceu com seu "Right Thoughts, Right Words, Right Action") acabaram concretizando um certo cânon do rock internacional dos anos 2010, o que não deixa de ser uma boa notícia.

No mundo pop sem guitarras (apesar do estadalhaço causado por "Yeezus" do rapper Kanye West), dá para afirmar que 2013 foi dominado por "Random Access Memories", do Daft Punk. Do ultrahit "Get Lucky" e o clipe simulando VHS no Youtube ao verdadeiro happening que é "Georgio by Moroder", o duo francês arrastou o trono pop e sentou-se confortavelmente nele. Diversas camadas abaixo, o Disclosure também impressionou com seu "Settle". E a adolescente Lorde, com seu irresistível hit "Royals" tocando em rádios rock e em bailes funk.

E o Brasil? Vale a pena falar de melhores do ano logo depois de sabido que as mais tocadas no rádio foram Bruno & Marrone, Luan Santana, Anitta, Naldo e uma fila de nomes dos quais não nos lembraremos em dois anos? Vale. O ano de 2013 esgueirou-se entre as tensões entre direita e esquerda, entre liberais e conservadores, entre Lobão e Reinaldo Azevedo, entre o completo pragmatismo do mercado e as possibilidades da manifestação artística mais pura. Foi o ano em que discutimos o Fora do Eixo, em que fomos às ruas sem trilha-sonora, em que dois quintos do Charlie Brown Jr. sucumbiram à "vida loka" que tematizaram tantas vezes.

E, musicalmente, foi o ano em que Emicida tirou o hip-hop nacional da sombra dos Racionais MC's com o brilhante "O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui", lançando música e uma avacalhada brasilidade à marra do rap brasileiro. Foi o ano em que o indie brasileiro saiu da sombra do Los Hermanos, com os ótimos discos "Estado de Nuvem", de Bruno Souto, "Esperanza" do grupo epônimo, e, talvez o mais surpreendente entre a turma das guitarras, "Antes Que Tu Conte Outra", do Apanhador Só.

Talvez o maior símbolo de 2013 seja o grupo paulista Supercombo com a delicada e musculosa "Piloto Automático" tocando no rádio. Nem tocou tanto, nem em tantas rádios assim. Mas é a trilha de um ano que veio para enterrar o velho e sinalizar o novo. Um feliz 2014 para quem ama música.

Supercombo - "Piloto Automático"


Ricardo Alexandre, 39 anos, é jornalista, escritor e documentarista. Seu mais recente livro é "Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar: Causos e Memórias do Rock Brasileiro (1993-2008)" (Editora Arquipélago)