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Sob chuva, Metallica faz em SP melhor show sem novidades nem pirotecnias

Mariana Tramontina

Do UOL, em São Paulo

22/03/2014 21h59Atualizada em 23/03/2014 10h05

Foi com a dobradinha que inicia o disco "Master of Puppets" (1986), com "Battery" e a faixa-título, que o Metallica abriu neste sábado (23) o show único no Brasil, que reuniu cerca de 65 mil pessoas no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Sob uma fina mas insistente chuva, a banda atendeu, durante 2h15, aos pedidos dos fãs na apresentação "By Request", com repertório montado sob medida através de votação aberta para os compradores dos ingressos. Foi o melhor show "sem novidades" --nem pirotecnias-- que a banda fez nos últimos anos no Brasil.

A mesma banda que há 14 anos não entendeu o Napster e a revolução da música digital, agora se adapta à era da interatividade para tornar seu espetáculo interessante de novo. E dá certo por estabelecer uma relação única de troca entre artista e público. Por outro lado, a unanimidade não funciona quando a tradição é uma característica forte. Com o poder na mão, os fãs deram preferência ao mais do mesmo, recolocando clássicos absolutos da banda ("One", Sad But True", "Nothing Else Matters"), que nunca faltaram nos shows, abrindo mão da possibilidade de se assistir a um show mais surpreendente.

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A divergência entre as canções favoritas do público ficou evidente quando o Metallica abriu uma votação em tempo real, por SMS, durante o show. "Ride the Lightning" já estava escolhida pelo público, mas uma última permuta dava a chance de trocá-la por "The Day That Never Comes" ou "The Memory Remains". Com 17.532 votos, "The Day..." ocupou o lugar da anterior, mas foi recebida por uma salva de vaias. "Foram vocês que escolheram, agora não querem? O trato foi esse", disse James Hetfield à plateia.

As escolhas dos fãs priorizaram os discos thrash mais aclamados, como o próprio "Master of Puppets" (1986), "...And Justice for All" (1988) e "Black Album" (1991), e renegam os controversos "St. Anger" (2003), "Load" (1996) e "Reload" (1997) -- os dois últimos responsáveis por uma acalmada no som da banda e um flerte com o mainstream, o que irrita os fãs mais fervorosos até hoje.

Fãs do Metallica mostram que sabem tudo sobre o setlist

E foi desta fase que veio uma aguardada novidade do show. Raramente tocada ao vivo, a cover "Whiskey in the Jar" foi um grande sucesso na MTV em 1998. Parte pelo clipe anárquico, onde uma festa com mulheres, bebidas, rock e drogas quase destruíam uma casa. Nunca vista ao vivo pelos fãs brasileiros, foi uma das músicas que mais animou a plateia, mesmo com a banda aparentemente não acreditando tanto nela. A inédita "Lords of Summer", já lançada oficialmente em formato digital, também prendeu a atenção do público com seus mais de oito minutos de duração. 

Sem pirotecnia

O show do Metallica em São Paulo foi um dos mais crus e diretos que a banda já fez no país. Parte disso por conta de um suposto defeito no material de efeitos, que deixou de lado os artifícios usados como complemento para as performances. Músicas como "One" e "Enter Sandman", sempre recheadas de labaredas e explosões, chegaram sem qualquer distração para o público, parecendo soar ainda mais pesadas.

A chuva que caiu durante todo o show contribuiu até mesmo para a entrega intensa de Kirk Hammett, o dono dos riffs, de James Hetfield, com a mesma voz forte e potente de sempre --apesar das rugas que o telão gigantesco insiste em focar--, de Lars Ulrich, o maestro do Metallica, e de Robert Trujillo, o "caranguejo" competente no baixo. No fim, as melhores novidades que o Metallica trouxe a São Paulo dessa vez foram a energia e o vigor com que tocaram, mesmo depois de mais de 30 anos de estrada.

Raven na abertura

Antes do Metallica, quem subiu ao palco foi a banda inglesa Raven para um show de 40 minutos. Quem não conhecia o trio e desprezou o show dos excêntricos integrantes (três senhores fora de forma, fazendo estripulias com os instrumentos e trajados como metaleiros caricatos), perdeu a apresentação dos pioneiros do chamado new wave of british heavy metal, considerados os criadores do power metal. Em atividade desde 1975, o grupo influenciou diversos grupos do gênero, entre eles o próprio Metallica, que em 1983 saiu como banda de abertura do Raven pelos Estados Unidos.

Composta pelos irmãos John Gallagher (vocal e baixo) e Mark Gallagher (guitarra e vocais) e por Joe Hasselvander (bateria), o trio soa datado, mas honesto. No show no Morumbi --única apresentação deles na América Latina--, a banda foi prejudicada pelo som mal resolvido, mas venceu pela simpatia.
 

Veja as músicas que o Metallica tocou no show em São Paulo:

"Battery"
"Master of Puppets" 
"Welcome Home (Sanitarium)" 
"Fuel"
"The Unforgiven" 
"Lords of Summer" 
"Wherever I May Roam"
"Sad But True"
"Fade to Black" 
"...And Justice for All" 
"One"
"For Whom the Bell Tolls" 
"Creeping Death"
"Nothing Else Matters" 
"Enter Sandman"
 
bis
"Whiskey in the Jar"
"The Day that Never Comes"
"Seek & Destroy"