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Redescoberto na TV, Roger admite boa fase e avisa: "Não mato cachorrinhos"

Carlos Minuano

Do UOL, em São Paulo

10/04/2014 05h10

"Que fique claro que eu não mato cachorrinhos”, avisa Roger Moreira, líder da banda Ultraje a Rigor, também conhecido pelo título de "o homem do QI 200", apelido que ganhou do apresentador Danilo Gentili em seu novo talk show no SBT. 

O desabafo, em tom de provocação, aconteceu durante entrevista ao UOL, nesta terça-feira (8), após uma gravação do programa "The Noite com Danilo Gentili", que trouxe à tona uma polêmica em que o guitarrista se envolveu recentemente nas redes sociais ao chamar veganos de idiotas. A crítica, segundo ele, foi uma brincadeira com os adeptos do veganismo, que se alimentam somente de frutas e evitam qualquer produto de origem animal. A prática foi tema de reportagem do "Globo Repórter" no mês passado.

“Sou uma idiota do bem”, alfinetara mais cedo uma das entrevistadas da noite, a apresentadora de TV, protetora de animais e vegana, Luiza Mell, que exibia calças e botas de couro vegetal da grife de Stella McCartney, filha do ex-Beatle e também ativista de direitos de cachorrinhos e bichos em geral. “Temos caninos, a evolução da espécie começou quando começamos a comer carne, o cérebro aumentou por causa das proteínas e passamos para o topo da cadeia alimentar”, defende-se Roger à reportagem. A entrevista vai ao ar na madrugada de quinta (10) para sexta, às 0h15.

Não é de hoje que os dois (Roger e Luiza) se encontram em lados opostos de uma discussão envolvendo animais. A apresentadora foi uma das ativistas que, em 2013, invadiu o laboratório Royal em São Paulo para resgatar 178 cães da raça beagle. Na ocasião, Roger também criticou na internet a ação, que teria sido motivada por supostos maus tratos aos animais no local. “Era uma luta meio hipócrita, os ratos deixaram para trás”, cutucou Roger durante a gravação do programa, que vai ao ar em breve. 

Durante a entrevista ao UOL, Roger - que se diz "perseguido" por militantes de esquerda, não esconde sua admiração pelos Estados Unidos, muito menos a fama de preguiçoso - não evitou nenhum assunto. Sobre a polêmica com os veganos, diz que foi meio sem querer. “Não imaginei que existissem tantos. Mas foi uma piada, achei engraçado ver o cara que come só semente de jaca com manga. Imagina viver a vida inteira assim que horrível”, diz ele, que se assustou com a repercussão da brincadeira. “Chegaram a dizer que, na verdade, eu que deveria morrer. Saíram do sério. Não estão mais pensando”, diz. “Também sou um animal”, brinca.

Mas ele encarou a briga, dentro e fora da rede social. “Hoje em dia, com essa merda de politicamente correto, as pessoas caem nisso, como se existisse uma justiça superior que não permite tirar um sarro de determinados assuntos. Piada é piada”, defende, reforçando a linha de humor do apresentador do "The Noite".

Roger revela ter crescido ouvindo piada de tudo - “Me xingavam de quatro olhos, de canela fina, é normal, mas hoje em dia não pode” - e, novamente sem perder a piada, tenta limpar a própria barra com os defensores do mundo animal, lembrando que já foi até ridicularizado por sua dedicação aos bichinhos. “Ganhei um papagaio uma época e deixei de fazer minhas coisas por um tempo, cancelei viagens, shows, só pra tomar conta dele.”

Pedrada de todo lado
Não é só de veganos e protetores de animais que Roger já levou pedrada. A alcunha de conservador, e de politicamente à direita, ele garante que ganhou de militantes de esquerda, que também o "perseguem". "Conheci essa militância recentemente também pelo Twitter. Reclamo dos políticos corruptos na internet, e me criticam, como se eu estivesse errado”, reclama. “Tem alguma coisa errada nessa lógica”, diz.  “Não sou de direita, sou de centro, equilibrado, e a favor de que o Brasil seja um país melhor, como os Estados Unidos.”

Roger viveu na Califórnia, nos EUA, em um período anterior à sua banda, Ultraje a Rigor, formada no início dos anos 80. Ele conta que trabalhou como diarista, faxineiro, entregador de pizza e afirma: “Não quero ser americano, mas há por lá uma democracia que a gente nunca viu aqui”.

O guitarrista e sua banda também foram criticados quando gravaram a canção “Vamos Ser Japonês” com a dupla caipira Tonico e Tinoco. “A Rádio 89, de rock, chegou, na época, a editar a parte que a dupla tocava, porque não podiam tocar ritmo sertanejo e com isso tiraram a piada da música”, lamenta o músico.


Mas nem tudo são pedras. A boa fase do programa de Gentili - que deixou a Band no ano passado para estrear no SBT há cerca de um mês - tem trazido também frutos ao músico. Ao lado de Léo Lins, Murilo Couto, da assistente de palco Juliana, do locutor Diguinho Coruja, os roqueiros do Ultraje cuidam da trilha sonora do programa. Mas Roger vai além. Ele participa com comentários durantes as entrevistas e ganhou até um quadro no novo programa que ressalta sua suposta sapiência, tal “Homem do QI 200”. “O Danilo desde o começo me deu espaço para interferir sempre que quiser. Aliás, todos podem fazer isso”, ressalta.

O convite para trabalhar com Gentili surgiu, segundo ele, no fim de 2010, e veio justamente pelas redes sociais. Fã de David Letterman (ícone de talks shows americanos), o roqueiro conta ter se animado, mas não sem antes ponderar. “Tinha dúvidas quanto a ter um trabalho fixo”, admite. “Não acordo de manhã de jeito nenhum. Topei porque era à tarde, duas vezes por semana e a dez minutos da minha casa”, explica, sem negar a fama de preguiçoso. “Já me chamaram de Caymmi do rock”, diz Roger, referindo-se ao compositor baiano conhecido por demorar muito para lançar novos discos. “Já estava brecando os shows, e o Danilo chegou me acelerando”, comentou sobre a dúvida que teve antes de aceitar a proposta de trabalho.

Vida mansa
Aos 57 anos, Roger reclama que passou a acordar mais cedo por causa da mudança de emissora. “Hoje levanto por volta de onze horas, o que para mim é considerado de manhã. Quando era na Band acordava meio-dia, porque era mais perto, e demorou um pouco até eu me acostumar”, conta ele, que no SBT grava seis programas por semana e mantém uma agenda de pelo menos um show por semana, graças à maior exposição na TV. “Não é o que a gente queria. Quero menos do que uma apresentação semanal. É cansativo, afinal tenho dois empregos, e estou com a vida ganha, se quisesse já podia parar de trabalhar”, diz. 

Além disso, argumenta que já vinha fazendo menos shows por não querer viajar de avião. “Desde 1995, quando fui fazer um show nos EUA, não ando mais de avião”, conta. “Mas desde 1986 já vinha com essa ideia”, acrescenta. Ele diz que depois de um "susto grande" não quis mais e por esse motivo cancelou vários trabalhos, entre eles shows no Japão, Itália e México.

Apesar dos bons ventos soprando novamente a favor dele e do Ultraje - e do estúdio de gravação que mantém em sua própria casa -, Roger não se anima muito quando questionado sobre a possibilidade de lançar um novo álbum de inéditas, que seria o primeiro da banda desde 2002. “É uma escolha. Minhas composições são em primeira pessoa e, apesar de ter fãs jovens, não acho que estou mais falando com minha geração. Minha turma era outra”, justifica.
 
Quem quiser lembrar hits do autor de "Inútil", "Pelado" e "Nós Vamos Invadir Sua Praia" que acompanhe as aparições no programa de Gentili ou que tente pegar algumas das apresentações ao vivo marcadas para os próximos meses. Entre os shows em São Paulo, há um de graça marcado para 15 de maio no Vale do Anhangabaú e também uma participação na Virada Cultural deste ano.
 

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