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Após morte de vocalista, Cólera renasce com DVD e nova formação

Marco de Castro

Do UOL, em São Paulo

02/07/2014 05h00

"Qual violência é pior? Quero um mundo melhor. Qual violência é pior? Será que esse grito é em vão?", diz um trecho da música "Qual Violência", que abre o show registrado no DVD "Punhos & Vozes - Rasgando no Ar!", da banda paulistana Cólera. Lançado em abril deste ano, o trabalho traz a última apresentação feita com o vocalista e guitarrista Redson Pozzi, na casa de shows Hangar 110, tradicional espaço que reúne punks no Bom Retiro, centro de São Paulo. 

A apresentação registrada foi em abril de 2011 durante o festival Punk na Páskoa. Redson morreu cinco meses depois por conta de um rompimento de úlcera no esôfago. Um dos maiores ícones do punk rock brasileiro, quando o músico morreu, muitos fãs acreditaram que a carreira da banda estava encerrada. O grupo, porém, se reformulou e seguiu em frente com um objetivo: não deixar que o grito de seu líder e principal compositor tivesse sido "em vão", como diz a letra da canção.

"Foi o nosso público que fez com que o Cólera continuasse levando essa mensagem do Redson. Porque o Cólera não é uma banda de mídia, que toca nas rádios. Se a gente não levasse essa mensagem adiante, a banda simplesmente desapareceria do mapa. Então, até numa certa obrigação com a memória do Redson, a gente decidiu tocar o barco", resume o baixista Val, em entrevista ao UOL.

Para matar a saudade

Lançado pelo selo Red Star Recordings, "Punhos & Vozes - Rasgando no Ar!" serve para os fãs da banda matarem a saudade da performance enérgica e empolgante de Redson, que, aos 49 anos --e poucos meses antes de morrer--, dava saltos no palco, gritava e incentivava o público a entoar em coro as suas canções.

Com 17 faixas, o DVD reúne clássicos de todas as fases da banda, como "Subúrbio Geral", "Quanto Vale a Liberdade" e "Pela Paz", além de extras com fotos feitas ao longo da carreira do grupo, de 1979 a 2011, e um encarte caprichado, com mais fotografias e um texto que conta a história do Cólera.

"Esse DVD foi uma maneira legal de lembrar o Redson por tudo que ele fez, que ajudou, participou. Por ter estado sempre presente ali, na cena punk. Do meu ponto de vista, só posso dizer ao pessoal da Red Star um 'obrigado por terem feito isso por meu irmão'. A produção ficou muito boa", diz Pierre, baterista do Cólera e irmão mais velho de Redson.

O baixista Val lembra um momento curioso do show registrado no disco. "Houve um lance interessante nesse show, que foi o Redson praticamente 'passando a bola' para o Wendel", diz, citando Wendel Barros, o atual vocalista do Cólera. Na época da apresentação, Wendel era roadie da banda e, no final do show, Redson o chama ao palco para cantar a última música, "Histeria". "O Wendel estar cantando no final do show parece um presságio. Tipo o Redson falando: 'Vou ter que pular fora, vai treinando aí, encara a situação'", completa Pierre.

A perda do líder

Hoje, quase três anos após a morte de Redson, o Cólera continua na ativa e --para a alegria de seu público-- fazendo shows com mesma a energia que se tornou marca da banda em seus 35 anos de existência. Além de Wendel nos vocais, entrou no grupo o guitarrista Cacá Saffiotti, ex-Garotos Podres.

Pierre lembra como a perda de seu irmão e colega de banda atingiu o Cólera. "Eu e o Redson sempre tivemos a ideia de que, para apagar a luz, basta ela estar acesa, e, para morrer, basta estar vivo. Então eu encarei de uma forma meio natural a ida do Redson. Faz falta o meu irmão? Claro que faz. Mas uma falta maior ele fez mesmo com relação à banda. Foi uma perda muito grande por ele ser o mentor do Cólera, o cabeça, o compositor, o cérebro pensante".

cólera3 - Divulgação - Divulgação
Foto de arquivo do Cólera: da esq. para a dir., Redson, Val e Pierre
Imagem: Divulgação

Segundo o baterista, um show do Cólera em tributo a Redson, feito em novembro de 2011, com a participação de outros músicos da cena punk, como João Gordo (Ratos de Porão) e Clemente (Inocentes), foi essencial para que o grupo seguisse adiante. "A gente viu que o público tinha uma necessidade de que a banda continuasse".

Val, por sua vez, lembra-se de um momento no enterro de Redson que pode ter sido crucial para a sobrevivência da banda. “Sugeri que a bandeira do Cólera fosse enterrada junto com o Redson. O Pierre achou melhor não. Hoje, vejo isso como um dos fatores para que o Cólera sobrevivesse. Enterrar a bandeira talvez tivesse levado o Cólera junto.” De acordo com ele, com o passar dos dias e o tributo, a ideia de que a banda continuaria foi se fortalecendo. “Voltamos a tocar e houve um grande apoio. As pessoas nos cumprimentavam e diziam ‘que legal que vocês continuaram!’”.

No meio dos "tiozinhos"

Wendel Barros, 27 anos, não era nem nascido quando o Cólera foi fundado. Ele conta que, em 1999, quando tinha 13 anos de idade, seu irmão mais velho chegou em casa com o LP “Tente Mudar o Amanhã”, do Cólera, debaixo do braço. “Gostei muito do disco e comecei a frequentar os shows. Em 2005, conheci o Redson, em um show em Santo André. Conversamos e trocamos camisetas. Em 2008, retomamos o contato por uma amiga. Comecei a frequentar a casa dele. Quando a banda partiu para a sua terceira turnê pela Europa, fiquei lá atendendo telefone e anotando recados. Depois que a banda voltou, o Redson passou a me dar aulas e comecei a estagiar como roadie”, conta o atual vocalista.

Como roadie, Wendel aprendeu a deixar o palco pronto para a banda. Afinava os instrumentos e montava a bateria. “De 2008 a 2011, fiquei viajando de norte a sul do país com a banda, aprendendo o trampo na prática.” Durante esse período, o jovem também se tornou vocalista do grupo Sociedade Sem Hino, que era produzido por Redson, o que o levou também a ter aulas de canto com o líder do Cólera.  Isso, segundo ele, lhe deu uma certa facilidade para assumir o posto de vocalista da banda após a morte do ídolo e amigo.

“Ter tido aula de canto com ele, convivido com ele, ter a voz parecida... Às vezes, eu atendia o telefone, e as pessoas pensavam que era ele. Mesma coisa quando minha mãe ligava, o Redson atendia, e ela dizia ‘alô, filho’. Tudo isso facilitou para eu fazer o vocal. Foi tudo muito natural. Hoje me sinto muito feliz. Feliz por estar aqui e cooperar para que a banda continue.”

cólera - Eclenir P. Ferraz/Divulgação - Eclenir P. Ferraz/Divulgação
Formação atual do Cólera: da esq. para a dir., Val, Wendel, Cacá e Pierre
Imagem: Eclenir P. Ferraz/Divulgação

Para os integrantes originais, não poderia haver alguém melhor para cantar no lugar de Redson. “Nos primeiros ensaios com o Wendel, eu fechava os olhos para tocar a bateria, e a voz que eu ouvia era a do Redson. A entrada do Wendell para fazer o vocal foi tão natural, que tem horas que parece que não é o Wendel que está cantando. A timbragem de voz é muito semelhante”, descreve Pierre. Val acrescenta: “Não é algo forçado. O Wendel não tenta fazer cover do Redson. É uma semelhança enorme mesmo. E não é só o timbre de voz, é a potência vocal. É algo que é superdifícil de você conseguir numa pessoa. Jamais encontraria alguém com tamanha semelhança”.

Quanto à diferença de idade entre Wendel e os demais integrantes –Pierre tem 53 anos, Val tem 49, e Saffiotti, 47--, o vocalista garante que não há problema. “Não interfere em nada mesmo, pelo fato de eu ser fã desde novo. A galera me pergunta ‘como é viajar com os tiozinhos?’, ‘como você aguenta esses tiozinhos ranzinzas’ (rs). É natural”, afirma ele, lembrando que a banda sempre oferece a música “Adolescente” para Pierre. “Porque ele sempre vai ter o espírito adolescente. O Val é a mesma coisa. A identificação é grande. A gente pensa junto e vai num só ideal.” E Pierre completa: “No meu dia a dia, 53 anos pesa, não vou dizer que não. Mas, na hora de subir no palco, sento na bateria e, para mim, é como o primeiro show. De onde vem a energia, de onde ela surge, eu não sei. Acho que é dessa união. De todo o mundo se juntar em prol de uma coisa.”

"Acorde Acorde Acorde"

A morte de Redson ocorreu quando a banda se preparava para entrar no estúdio e começar a gravar o seu sétimo disco, “Acorde Acorde Acorde”. A perda do vocalista prejudicou o projeto, mas a banda garante que ele não foi cancelado.

“Se der tudo certo, até o meio do ano que vem estaremos lançando o disco”, diz Val. Segundo ele, o trabalho tem, até o momento, 14 músicas, sendo só 12 com letra. Mas o grupo quer lançar o álbum com 16 faixas, algo que foi estipulado pelo próprio Redson. “Estamos escrevendo as letras.” Atualmente, a banda já toca nos shows a canção “Capacete Vermelho”, que estará no disco.

Antes do álbum, porém, o Cólera ainda estuda lançar quatro faixas inéditas, que farão parte do trabalho, gravadas ainda com Redson, a pedido da gravadora que seria responsável, na época, pelo “Acorde Acorde Acorde”.