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Música

Tiago Abravanel tenta conciliar nova fase musical com "sombra" de Tim Maia

Adriano Fagundes/Divulgação
Tiago Abravanel se prepara para o espetáculo "Eclético" Imagem: Adriano Fagundes/Divulgação

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

03/10/2014 05h00

Revelação do teatro musical em 2012, após “receber” Tim Maia nos palcos, Tiago Abravanel está prestes a estrear em um novo papel: o de intérprete.

No show “Eclético”, que entra em cartaz na sexta-feira (3), no Vivo Rio, no Rio de Janeiro, e segue São Paulo, Brasília, Belém, Goiânia, Porto Alegre e Curitiba, Tiago canta sucessos dos mais diversos, da cantora Rosanah a Queen, e busca sua própria personalidade na nova carreira de cantor –vocação que descobriu com o teatro.

Com repertório e inspiração extremamente populares, Tiago conta que estudou e mergulhou na música graças aos amigos com quem já dividiu o palco (entre eles, Roberto Carlos e Ivete Sangalo) e o próprio Tim Maia –hoje em dia, espécie de guru para ele. “Foi no musical ['Tim Maia – Vale Tudo'] que eu enxerguei essa aproximação com o público”, ele conta, por telefone, ao UOL. “Foi com ele que quebrei a quarta parede.”

Com os ingressos esgotados meses antes das apresentações, o ator percorreu o Brasil durante dois anos com o musical e foi catapultado ao posto de grande revelação ao defender o papel do músico em tom festivo e os hits sem desafinar.

Na entrevista, ele revela sua preocupação em ficar à sombra de Tim Maia, mas não deixa de homenageá-lo na primeira parte do show. “O Tim não tinha um público específico, ele não cantava para uma determinada faixa de idade ou de classe social. É o que eu busco um pouco. Ele era muito visceral, isso é outra característica em que eu busco me inspirar, de poder me entregar para aquela música."

UOL - “Eclético” não chega a ser um show comum, certo?
Tiago Abravanel - É um show performático, eu diria (risos). Não é um musical. É um show com músicas e com certa teatralidade. Existem algumas intervenções artísticas, mas não tem uma história, uma ordem cronológica. Imitação também não tem. Tem momentos emocionantes e momentos engraçados. Acho que é um espetáculo eclético, até nesse sentido. A gente faz uma brincadeira com a música “Como uma Deusa” ["O Amor e o Poder", de Rosanah], coloco uma peruca, um ventilador no palco. São 30 músicas no total.
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No setlist, você canta três canções inéditas. Como elas surgiram?
Eu conheci o [compositor] Edu Tedeschi, que já escreveu para Luciana Melo e o Pedro Mariano, por meio da minha equipe. Quando o vi, lembrei que já tínhamos tocado em outros eventos. Pedi para ele me mostrar as composições dele. Me apaixonei por “De Brim” e “ Estrada a Fora”. Quando contei um pouco o conceito do show, e da minha vontade em ter uma música que resumisse o conceito do espetáculo, ele escreveu “Eclético” para mim.

Embora você seja eclético, o clima de soul e de festa de “Eclético” combinou com você
É (risos). Eu me identifico mesmo. Sempre tive essa relação com a música black brasileira e americana. Música negra em todos os sentidos, ritmos de batuque, metais. Isso sempre me fascinou. Mas, por não vir da música, eu quis fazer esse show dessa forma, para brincar com outros gêneros, até mesmos ritmos que a galera não imagina que eu canto, como rock, por exemplo. O fato de ser ator também traz uma liberdade maior, de não se encaixar em determinado rótulo.

Após o sucesso do Tim Maia, e participação nas novelas, você quer se firmar como cantor?
Sim. É o novo momento. Acho que estou nesse momento de me aproximar do público com a musicalidade que eu amo. No teatro, eu me aproximei dele, mas hoje é o Tiago que está cantando no palco.

Tim Maia te inspirou neste momento também?
Com certeza, foi o grande estopim. Foi quando eu enxerguei essa aproximação com esse público, porque no espetáculo eu quebrava a quarta parede. E o Tim tinha essa relação. Então, os eventos em que eu compareci e os shows de que eu participei alimentaram essa vontade de estar mais próximo do público.

O que você aprendeu com Tim Maia?
Várias coisas. Brincar com diferentes emoções no mesmo show. Ele já dizia, brincando: trazer a música ‘esquenta sovaco’ e a música ‘mela cueca’, juntas. Ele fazia isso brilhantemente bem. O Tim não tinha um público específico, ele não cantava para uma determinada faixa de idade ou de classe social. É o que eu busco um pouco. A música pode se aproximar do público independente da classe social, independente da idade. O Tim era muito visceral, isso é outra característica em que eu busco me inspirar, de poder me entregar para aquela música. Estou cantando aquela música e não estou pensando em mais nada. A música vira meu corpo, minha voz e minha emoção.

Quem mais o inspira?
Ney Matogrosso, a própria Ivete Sangalo, Cazuza, o Sidney Magal, o Freddie Mercury, que eu acho fantástico. Artistas com personalidade me fascinam e me inspiram.

Com tantas referências fortes e populares, sobra espaço para sua própria personalidade no palco?
O cantor tem essa peculiaridade, diferente do ator ou do artista plástico, que traz a persona, o Tiago em si, através dessas músicas. A responsabilidade de um cantor é tão grande quanto a responsabilidade de um artista. O artista é um formador de opinião e representante social que, através da arte, pode mostrar aquilo que ele sente e em que acredita, sem você ter um personagem à frente.

Você começou a desenvolver o canto junto com a atuação e agora diz que está aprendendo e conhecendo música como nunca. Como tem sido esse aprendizado?
Hoje eu estou vivendo esse momento de criação, tenho a oportunidade de conviver com gente da música. Busco viver a música de maneira mais próxima, com mais intimidade. Já cantei com Ana Carolina, Roberto Carlos, Sandra de Sá, Thiaguinho. Eles me abastecem com novas informações para encontrar meu caminho na música. Se eu estou encontrando ou não, é outro assunto, mas que estou amando esse processo, isso eu estou
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Isso quer dizer que você pode desistir da atuação?
Não, é só um tempo. Não tire isso de mim, não (risos). Tenho foco nos momentos. Quando eu não estava gravando, eu já estava pensando nisso. Convivendo, participando de eventos, conhecendo. Não estou descartando a atuação.

Mas vai lançar um CD?
A ideia é lançar o CD ano que vem. Tenho um tempo para buscar novos parceiros, não temos ainda proposta oficial de nenhuma gravadora

Tem se aventurado na composição?
Olha... (risos) tento rabiscar umas coisas, às vezes no chuveiro vem uma melodia. Mas não é uma coisa que eu tenho tanta intimidade. Estou indo pelas beiradas.

A cinebiografia do Tim Maia estreia no fim do mês. Você chegou a participar da audição?
Eu fiz a audição no filme do Tim Maia um dia depois da audição da peça. Eles não sabiam um do outro. Falei: ‘gente, que coisa maluca, vou interpretar o mesmo personagem em diferentes segmentos?’ Fiz o teste da peça, passei. No dia seguinte, fiz o teste do filme e não passei. É outra linguagem. Eu amaria fazer o filme, mas, por uma questão de perfil, não fui escolhido. Já vi o trailer, já fiquei louco e tenho certeza que vou chorar no cinema, mas acho que cada um tem seu momento. Seria utilizar demais a imagem do Tim Maia, se eu fizesse o filme e a peça. Talvez eu vivesse à sombra do Tim, que era algo que eu não queria.

Você acha que mesmo assim ficou à sombra dele?
Eu acho que é difícil tirar o Tim Maia da minha vida. E eu nem quero. Aos poucos eu tento mostrar que não somos a mesma pessoa. É muito difícil, parece que é ingratidão, mas não é isso. Eu não posso criar uma carreira em cima de outra pessoa. A música do Tim Maia me abastece e me alimenta, inclusive no show. A primeira parte é basicamente com músicas do Tim Maia. Canto “Leva”, sabe? [cantarola] “Leva, o meu som contigo, leva”. Eu faço essa homenagem, como se estivesse agradecendo, lembrando dos momentos importantes que o Tim Maia me proporcionou. Agora estou entrando em uma nova fase, e ele vai vir junto comigo. Aí eu começo a cantar outras músicas que não são dele.