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Vocalista do Deep Purple escolhe seu top 5 e diz: "Nunca estivemos na moda"

A formação atual do Deep Purple com Ian Gillan, Steve Morse, Roger Glover, Ian Paice e Don Airey - Jim Rakete
A formação atual do Deep Purple com Ian Gillan, Steve Morse, Roger Glover, Ian Paice e Don Airey Imagem: Jim Rakete

Pedro Carvalho

Do UOL, em São Paulo

10/11/2014 22h57

Na estrada desde 1968, o Deep Purple  volta ao Brasil numa de suas melhores fases. Formada pelos remanescentes da formação clássica Ian Gillan (vocal), Roger Glover (baixo) e Ian Paice (bateria), além dos “recrutas” Steve Morse (guitarra) e Don Airey (teclado), a banda divulga o elogiado álbum “Now What”.
 
Produzido pelo legendário Bob Ezrin – responsável por alguns dos melhores trabalhos de Alice Cooper, Kiss e Lou Reed - o 19° disco de estúdio dos pioneiros do rock pesado marca um retorno à sonoridade da década de 70, cheia dos solos e jam sessions que transformaram o grupo num dos maiores nomes da época.

Risonho e bem humorado, o vocalista Ian Gillan falou em entrevista exclusiva ao UOL por telefone sobre o novo trabalho, a morte do tecladista original Jon Lord em 2012, sua formação como cantor e a relação conflituosa com a mídia. “Nunca estivemos na moda”, diz. Gillan também elencou, a pedido do UOL, suas músicas preferidas de todos os tempos.

O Deep Purple se apresenta em São Paulo nesta terça (11) e quarta (12) no Espaço das Américas, em Florianópolis na sexta-feira (14) no Devassa Onstage e em Porto Alegre no sábado (15) no Auditório Araújo Viana.

UOL - O “Now What” é seu 19° álbum de estúdio e foi muito elogiado pela crítica. Qual é o segredo para manter a criatividade depois de tanto tempo?
Ian Gillan - Bem, é como a própria vida. Temos a sorte de estarmos num ambiente muito criativo. O Deep Purple é em primeiro lugar uma banda instrumental. E esses caras tocam sem parar. Quando estamos ensaiando, começamos ao meio-dia e só paramos às 18h, com uma pausa para o café às 15h. É como ir para o escritório todos os dias. É uma quantidade imensa de trabalho e eles estão sempre experimentando novas idéias, fazendo jam sessions intermináveis. E eu tenho que fazer as letras e melodias. Estou sempre prestando atenção na política internacional, culturas diferentes, relacionamentos humanos... nunca falta assunto.

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E quais foram as inspirações para este álbum em particular?
Não é um álbum conceitual. Então não há um tema em comum no disco, a não ser que você considere a liberdade de sair desta prisão das fórmulas musicais. Os primeiros álbuns que eu gravei com a banda tinham sete faixas cada um. E algumas músicas, como “Smoke On The Water” tinham sete minutos, outras chegavam a dez. Mas acho que com o tempo começamos a pegar mais leve com os improvisos e seguir fórmulas nos discos. Mas, desta vez, o produtor Bob Ezrin sugeriu que estendêssemos as músicas no estúdio como fazemos nos shows. Isso nos “soltou” novamente e deixou a banda sorridente!

Você considera então que “Now What” é um retorno ao som clássico do Deep Purple da década de 70? Isso foi ideia do Bob Ezrin?
Não é bem uma volta ao estilo musical em si, mas à maneira de compor. O Bob catalisou tudo isso nos deixando relaxados e  sugerindo que esticássemos as músicas. Nos demos muito bem, ele é um produtor experiente, tem muito tempo de estrada, é um grande músico também e existe uma atmosfera de respeito mútuo.

Foi o primeiro álbum que vocês fizeram após a morte do tecladista original Jon Lord, a quem o disco é dedicado.
Não foi uma perda repentina musicalmente falando, porque ele já não estava na banda há pelo menos dez anos. Mas ainda éramos muito próximos como amigos, então foi como perder qualquer pessoa querida. Ele já estava doente há bastante tempo e sabíamos que isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Mas ainda assim foi um choque terrível quando o (baterista) Ian Paice deu a notícia. No funeral dele, eu me lembro de escrever a frase “almas que se tocaram estão para sempre entrelaçadas”, que eu usei na música “Above And Beyond”. O Jon era um homem maravilhoso, um amigo querido e um parceiro musical extraordinário. Mas é curioso, depois do choque inicial, uma hora depois todos estavam falando sobre os bons tempos que passamos com o Jon e a atmosfera ficou estranhamente leve, cheia de boas memórias. Ele nos deixou com um legado, com seu espírito, que eu sinto que ainda viaja conosco.

O Deep Purple tinha um som mais pop antes da sua entrada em 1969. Como você ajudou a criar a sonoridade mais pesada pela qual a banda veio a ser conhecida?
Acho que eles já estavam prestes a mudar de estilo de qualquer maneira e foi por isso que mandaram embora o baixista e o vocalista originais. Afinal, é a química entre os integrantes que faz a diferença. Estávamos todos evoluindo, tentando coisas novas. Então é quase impossível definir o que aconteceu. Entramos no estúdio juntos pela primeira vez e compusemos “Speed King” no primeiro dia. Foi caótico, uma loucura total acontecendo, uma sensação de liberdade, de quebrar todas as regras. Nenhuma estrutura, apenas pura desordem. Foi glorioso, fantástico! É claro, desenvolvemos nossa própria estrutura, que acabou ficando normal, mas que não era convencional naquele tempo. Nunca tivemos um plano, uma direção. E jamais tivemos nenhuma ambição, para falar a verdade. Também nunca combinamos como seriam os álbuns. Nunca estivemos na moda, jamais! Não com o público antenado das cidades grandes pelo menos (Risos). Tive uma conversa sobre isso outro dia e concluí que estar na moda hoje significa estar fora de moda amanhã. Então apenas tocamos nosso rock and roll e esticamos ele ao máximo. Como cada um de nós tinha influências diversas, a coisa ficou com uma cara própria. O Jon gostava de composição orquestral e do órgão jazzístico do Jimmy Smith. O Ritchie era músico de estúdio e por isso conhecia bem muitos estilos musicais. O amor dele pela música medieval  também foi muito importante. O Ian Paice cresceu ouvindo swing, as big bands, que tinham bateristas como Buddy Rich. O Roger Glover gostava de folk. E as minhas influências eram rock and roll, blues e soul. Tínhamos uma gama enorme de influências que se uniram.

Você estava falando sobre nunca estar na moda. É interessante como na década de 70 vocês, o Black Sabbath e o Led Zeppelin apanhavam muito da imprensa musical, mas parece que nas décadas seguintes os críticos se arrependeram e mudaram de ideia, principalmente a partir da década de 90...
Lançamos um álbum em 1973 chamado “Who Do We Thing We Are” (“Quem Pensamos Que Somos?”), inspirado em todas as resenhas ruins que ganhamos. Os jornalistas diziam “quem eles pensam que são, tocando com uma orquestra, mudando de estilo, tocando blues, funk, rock... eles nem sabem quem são”. Nós sabíamos exatamente quem éramos, só não tínhamos criado uma definição. Não me importo muito com essas coisas. Você tem que deixar para lá. Sei que os jornalistas têm um trabalho a fazer... Eu os respeitava, mas a verdade é que eles não faziam diferença nenhuma, para o bem ou para o mal. Eu diria que éramos uma banda underground. Nós nunca tivemos um assessor de imprensa ou uma empresa de relações públicas ou algo do tipo. E ainda não temos! Acho que somos a única banda de rock and roll que não tem assessoria.

E por que você acha que demorou tanto para eles começarem a respeitar o rock mais pesado?
Porque nós mudávamos. Não tínhamos nada a ver com o Led Zeppelin ou com o Black Sabbath. Mas mesmo assim éramos jogados na mesma categoria. Claro, éramos bandas de rock, mas de tipos diferentes. A mídia precisa de rótulos. Seja as rádios, que tocam um tipo de música ou outro, ou as revistas, que cobrem um estilo ou outro. E na verdade tem mais a ver com o visual do que com a música. A maioria das pessoas que eu conheço tem um gosto variado. Nós crescemos ouvindo de tudo, de Ella Fitzgerald aos Beach Boys...

Você tem uma voz claramente influenciada pelo soul, pela música negra, mas mesmo assim é considerado um dos fundadores do heavy metal. Isso te incomoda?
Bem, não sei o que dizer. Acho que sou um cantor de heavy metal de m....(risos).

Quem foram seus heróis quando você estava aprendendo a cantar?
Isso provavelmente vai soar estranho, mas eu cresci ouvindo Enrico Caruso, Albert Schweitzer, que era cientista, mas também um grande organista, Ella Fitzgerald, Elvis Presley, Wes Montgomery. Meu tio é pianista de jazz, então cresci ouvindo muito jazz, como John Coltrane. E é claro, os artistas da época, como Fats Domino, Ray Charles, Sam Cooke, Otis Redding, Jerry Lee Lewis, Little Richard, eu poderia ficar falando por horas. Esses foram meus heróis, eu os adorava! Ah sim, e a Dusty Springfield, ela tinha uma voz maravilhosa.

Você topa então fazer um top 5 com suas músicas favoritas de todos os tempos?
De qualquer tipo? Bom, vamos lá:
1- Deep Purple – “Razzle Dazzle”. É uma das minhas favoritas da banda, está no álbum “Bananas” (2003).
2- Little Richard – “Long Tall Sally”
3-The Beatles – “Love Me Do
4-The Beach Boys – “Good Vibrations”
5-Dusty Springfield – “I Only Want To Be With You”

O que vocês vão tocar no Brasil?
Puxa vida, não sei... Acho que vamos tocar umas 3 ou 4 músicas do disco novo. É bem legal, elas combinam bem com o material novo. E o resto todo, de 1968 em diante! Mas o mais importante são as jam sessions, que grudam esse material todo. Me dá frio na barriga, nunca sei o que vai acontecer.

Qual é o tamanho dos shows?
Entre 1h30 e 1h50, às vezes duas horas.

Muita gente mais jovem do que você e com empregos mais tranquilos já está aposentada. Como você consegue manter a energia em shows longos assim?
Não sei, mas quando você pergunta isso eu me sinto cansado! Não tem segredo, é só pisar no palco que tudo acontece. Fui atleta quando era criança, fazia salto com vara, jogava futebol, críquete e coisas assim. Não consigo mais fazer nada disso, mas ainda nado, ando e canto. E no palco eu não dou piruetas mas consigo me virar!

Para terminar, gostaria que você contasse sua versão de um caso divertido. Na autobiografia do (guitarrista) Tony Iommi, ele diz que você entrou no Black Sabbath sem querer após uma noite no bar em 1983. É verdade? Como foi que isso aconteceu?
Não foi sem querer, foi sem saber! Saí com o Tony e com o (baixista) Geezer Butler e ficamos totalmente bêbados, não me lembro de absolutamente nada. No dia seguinte meu empresário me ligou e disse “Ian, se você vai tomar decisões sobre a sua carreira, não acha que deveria me consultar antes?”. Eu perguntei de que diabos ele estava falando e ele disse “bem, aparentemente você entrou no Black Sabbath ontem à noite”. Tive um ano maravilhoso com o Black Sabbath. Foi a festa mais longa em que eu já estive,  uma coisa totalmente louca. Me lembro com muito carinho. E, é claro, ainda sou muito próximo do Tony, amo todos eles, são ótimos!