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Música

Thurston Moore promete show pesado em SP e diz esperar volta do Sonic Youth

João Vitor Medeiros

Do UOL, em São Paulo

04/12/2014 06h00

Thurston Moore ainda é Sonic Youth, mesmo o Sonic Youth não sendo apenas Thurston Moore.  “[O Sonic Youth] foi a coisa mais importante da minha vida porque foi a minha vida”, diz ele, por Skype, enquanto toma uma xícara de chá em um quarto de hotel qualquer. “Nós tivemos um show bem tarde ontem em Santa Cruz, Califórnia, estou me recompondo agora”, se desculpa.

“Nós” se refere à Thurston Moore Band, um “dream team” da distorção que, além do americano, conta com o baterista e parceiro de Sonic Youth Steve Shelley, o guitarrista inglês James Sedwards e a baixista Debbie Googe, conhecida pelo seu trabalho com o barulhento My Bloody Valentine. A banda é a mesma que gravou o quinto álbum solo de Moore, “The Best Day”, lançado no último dia 20, e que se apresenta nesta quinta-feira (4) no Cine Joia, em São Paulo.

“Eu encontrei o Steve quando estava começando a escrever essas músicas. Eu estava fazendo um duo de guitarras com o James Sedwards, e Steve as escutou e disse que tocaria bateria nelas se eu estivesse interessado, e eu estava muito interessado! Steve foi quem teve que voar, porque agora eu moro em Londres, então ele pegou um voo até aqui. E James e eu decidimos chamar a Debbie Googe… Bem, James e Debbie são amigos, e eu a conheço há anos, porque o Sonic Youth e o My Bloody Valentine tocaram juntos desde o começo, nos anos 80. Então, nós ligamos pra Debbie para ver se ela queria tocar, se ela estava livre. Ela veio até minha casa, nós tomamos algum vinho, escutamos a música e, quando eu vi, os quatro estavam no estúdio juntos. E a primeira vez que todo o mundo tocou junto foi no estúdio, com a fita rolando”, conta animado.

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O novo disco e a banda foram a resposta natural de Moore a um período complicado da sua vida. Depois de quase três décadas casados, ele e a baixista do Sonic Youth Kim Gordon anunciaram publicamente o fim da relação em outubro de 2011. Gordon depois revelou, em entrevista à revista americana “Elle”, que o motivo teria sido o envolvimento do ex-marido com outra mulher ainda durante o casamento. A mulher em questão é a editora de livros de arte Eva Prinz, 34 anos, e foi o relacionamento entre os dois que motivou o nova-iorquino a se mudar definitivamente para Londres. “A mulher por quem eu estou apaixonado mora em Londres, e isso é o principal, eu queria estar com ela”, diz calmamente.

A reação às declarações do casal, contudo, não foi das mais amigáveis para o artista de 56 anos. Teria ele se sentido injustiçado pela imprensa? Ele solta uma gargalhada: “A imprensa trata todo o mundo injustamente. Poderia ter sido melhor, poderia ter sido pior. Eu não espero ser tratado diferentemente de ninguém que tenha algum tipo de perfil público e esteja envolvido em uma situação que é um pouco chocante para as pessoas. Eu esperava isso”, diz genuinamente tranquilo, acrescentando que quem o critica desconhece a “verdade íntima” do que aconteceu.
“Quando eu vejo a imprensa tratar as pessoas que estão passando por situações similares à minha, não é algo que eu leve comigo para fora do meu quarto. Tipo o Neil Young [músico canadense que recentemente anunciou o fim do casamento de quase quatro décadas], eu estou cagando para o que ele está passando na vida pessoal dele. É curioso, suculento, escandaloso, mas, quando eu saio, não tem nenhum impacto na minha vida, na minha consciência e no que eu faço ou como lido com as pessoas. Isso que importa”, finaliza sobre a situação.

Paz e equilíbrio

E no olho do furacão que tomou de assalto a vida de Moore, ele resolveu reagir com serenidade e positividade em vez de raiva ou descontrole. Símbolo de uma linhagem de guitarristas intimamente ligados à potência, ao barulho e à distorção, o músico precisava de equilíbrio e paz. Assim nasceu “The Best Day” ("O melhor dia", em livre tradução). Inicialmente, o disco teria o nome de “Detonation” ("Detonação"). A mudança foi uma mensagem clara de que é preciso olhar, também, para o lado bom das coisas.  No texto de divulgação do lançamento do álbum, ele é descrito como um trabalho baseado em amor positivo e radical.

"Eu sempre tive paixão por escrever sobre amor radical, de qualquer jeito”, ri Moore. “Só que dessa vez foi muito pessoal, porque eu passava por uma mudança muito grande na minha vida, e eu realmente queria celebrar esse sentimento, em oposição a escrever sobre perturbações que acontecem nas vidas das pessoas, mas ainda tendo respeito pela realidade disso, sabe?”

$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-foto','/2014/capa-de-the-best-day-disco-solo-de-thurston-moore-1417637678007.vm')De acordo com o músico, isso fez com que ele decidisse usar na capa de “The Best Day” uma foto de sua mãe quando jovem. “Então, aquela é a minha mãe. Ela estava no começo dos seus 20 anos, na água, com o melhor amigo dela, seu cachorro. E ela está olhando para a câmera do meu pai e ela está nesse lugar de serenidade e amor. E isso é durante a Segunda Guerra Mundial. Não é como se fosse uma utopia, mas ela está nesse lugar utopicamente seguro. E eu admirei isso e queria expressar isso, em vez de qualquer sentimento de chateação”, justifica. “Não é como se eu quisesse fugir e fantasiar qualquer vida de felicidade fingida e posar como se tudo estivesse bem. Eu sei que as coisas nunca estão bem, mas, ao mesmo tempo, tudo pode ficar bem, não há razão para que as coisas não possam ficar bem”, completa.

Fase de transição

Composto em um estado de espírito completamente diferente, o álbum solo anterior de Moore, o melancólico e semiacústico “Demolished Thoughts” (2011), já havia nascido no entardecer da relação com Gordon e é um registro confessional que parece ser uma mensagem de despedida. “[‘Demolished Thoughts’] eram basicamente canções de amor que tentavam lidar, de vários jeitos, com essa ideia de como o amor muda de forma. E eu devia lidar com isso, porque era muito importante para mim, mas eu não tinha certeza com o que exatamente eu estava lidando, sabe?”, questiona.

A partir daí, a palavra de ordem era “transição”, e Moore mergulhou de cabeça em uma infinidade de projetos paralelos, buscando sair um pouco dos holofotes. O principal desses projetos recebeu o nome de Chelsea Light Moving. “Eu realmente amei tocar no Chelsea Light Moving, foi um grupo muito rock’n’roll desde o início. Foi um projeto de transição para mim, de quando eu estava me mudando para Londres, mas ainda em Nova York, e eu queria continuar tocando. Chelsea Light Moving foi a banda que estava excursionando em apoio ao “Demolished Thoughts”, e no final da turnê eu queria voltar a tocar mais guitarra, porque o “Demolished Thoughts” tinha a ver com violões e violinos e coisa e tal. E eu comecei a fazer isso, tocar músicas antigas do “Psychic Hearts” [primeiro disco solo, de 1995], e me juntei com todo o mundo, e nós simplesmente expelimos um álbum inteiro em dois dias, foi muito rápido. Eu pensei que seria um bom projeto a se fazer, só lançar o disco, não dar nenhuma entrevista, não ter o meu nome na capa e pegar uma van e partir para tocarmos em qualquer lanchonete por aí. E foi o que eu fiz por quase um ano e meio, enquanto eu estava tentando me mudar para Londres”, ele ri.$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-citacoes','/2014/thurston2-1417637993353.vm')

Fugir da fama, porém, não foi fácil: “Foi louco, porque nós tocávamos em todo lugar como Chelsea Light Moving, e eu estava tentando ser só um dos membros dessa banda. Foi um pouquinho difícil, porque as pessoas sabiam que era eu e elas vinham até esses lugares bem pequenos e queriam escutar músicas do Sonic Youth”, relembra com bom humor.

A sombra da principal banda, no entanto, não o atormenta. Pelo contrário, ele aparenta carregar, em suas palavras cheias de emoção, a esperança de que um dia ela volte a se reunir. “Ninguém assinou os papéis dizendo que nós estamos oficialmente terminados. A banda pode voltar depois que Kim e eu passarmos por esse período, e é um período muito sensível. E Steve [Shelley, baterista] e Lee [Ranaldo, guitarrista] e todo o mundo que trabalha conosco entendem e respeitam totalmente isso. Então nós só precisamos deixar o tempo definir o que o Sonic Youth vai ser. E o Sonic Youth para mim sempre vai existir, porque Sonic Youth foi um nome que eu inventei, e eu tenho ‘Sonic Life’ tatuado no meu corpo, e Sonic Youth sempre vai ser algo muito real no meu coração e na minha alma. Para mim, o Sonic Youth nunca vai se separar. O Sonic Youth vai comigo para o túmulo”, diz com firmeza.

Thurston Moore e o Brasil

O último show que a banda nova-iorquina fez, inclusive, aconteceu no Brasil, para mais de 50 mil pessoas. Foi em 14 de novembro de 2011, na cidade de Paulínia, como uma das atrações principais do extinto festival SWU. Ele relembra: “Era um festival imenso e estava chovendo. E lembro que eu realmente não pensei como se fosse nosso último show, não era uma coisa grande para mim. Eu pensei ‘ok, esse é o último show que nós temos ‘marcado’. E só Deus sabe o que vai acontecer depois disso’. Mas eu não pensei ‘esse é o último show do Sonic Youth para sempre, tchau, adeus, Sonic Youth está terminado’. Isso não estava na minha cabeça de jeito nenhum. Era só o último show que tínhamos até algum aviso futuro, tipo ‘ok, vamos dar um tempinho agora’.”

$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-citacoes','/2014/thurston3-1417638152832.vm')E, enquanto o Sonic Youth não volta, Moore fala sobre o show que fará nesta quinta, o segundo da carreira solo em São Paulo --o primeiro foi em abril de 2012, também no Cine Joia. “Vocês vão ver uma banda muito boa. Estamos matando a pau nesse momento”, diverte-se. “E vocês verão um post-punk-death-rock bastante pesado. Eu estou muito animado em ir ao Brasil, eu sempre amo ir aí”, diz o guitarrista, que encerra a entrevista com uma declaração de amor à música brasileira.

“Para mim, alguns dos melhores trabalhos musicais de todos os tempos saíram do Brasil. Toda a tropicália, algumas das músicas mais importantes que já foram gravadas. Eu amo toda a tropicália clássica, Caetano (Veloso), Nara (Leão). Gal Costa é genial. Eu acho que muito disso teve a ver com os anos 1990 e 2000, quando as pessoas tiveram condições de redescobrir as gravações on-line ou em reedições em CD. Então, de repente, todo o mundo podia ouvir essa música”.