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Mercado de shows gringos sofreu ainda mais com Copa e eleições em 2014

Pablo Miyazawa

Do UOL, em São Paulo

17/12/2014 16h59

Produtores grandes e de portes médio e pequeno concordam: 2014 foi um ano atípico para o mercado de shows internacionais no Brasil. Os principais obstáculos foram comuns a todos os investidores e fizeram a diferença nos resultados. O vilão da vez é a recessão econômica, que foi agravada pela Copa do Mundo e as eleições presidenciais e atrapalhou os investimentos, encarecendo as turnês e retraiindo o consumo do público. Fora isso, os velhos problemas do segmento, como valores inflacionados de cachês de artistas e, consequentemente, o alto preço dos ingressos, persistiram.

No quesito quantidade, não é apenas impressão: o ano realmente trouxe um menor volume de artistas estrangeiros aos palcos brasileiros. Com a Copa, os meses de junho e julho praticamente não tiveram eventos musicais relevantes. Entre os festivais, a ausência do Rock in Rio (tradicional ímã de artistas de peso) acabou fazendo certa diferença no calendário do segundo semestre. Também foi sentida a falta do festival Planeta Terra, que ocorria sem interrupções desde 2007 e foi cancelado devido aos “dois movimentos agitados do mercado” –no caso, Copa e eleições.

Porém, para produtoras de peso como Time For Fun (T4F), Plan Music e Move Concerts, não dá para dizer que o ano foi ruim. Problemas à parte, elas puderam comemorar as realizações de dezenas de shows de artistas de ponta com ingressos quase sempre esgotados, mesmo diante das circunstâncias únicas que marcaram 2014. Para driblar a crise, a saída foi tentar minimizar os riscos e só investir em produtos “garantidos”.

“Tanto a Copa do Mundo quanto as eleições dominaram o país, o que contribuiu para que fossemos tão seletivos e assertivos nos conteúdos trazidos”, diz Alexandre Faria, diretor artístico da Time For Fun, que viabilizou a vinda de 20 atrações internacionais, como One Direction e Miley Cyrus, além do elenco do festival Lollapalooza.

Definindo a performance da T4F como “boa” em 2014, Faria cita o sucesso das turnês de Metallica, Demi Lovato, Eddie Vedder e Laura Pausini, todos com venda total de entradas. Entretanto, os números divulgados pela produtora até o terceiro trimestre foram menores do que os de 2013, tanto em receita como em quantidade de shows e ingressos vendidos. As reduções teriam sido causadas pela escassez de eventos musicais durante o mundial de futebol e a não realização de shows em estádios.

Procuradas pelo UOL, a Plan Music (responsável pelo festival Circuito Banco do Brasil e os shows de Paul McCartney) e a Move Concerts (que produziu as turnês locais de Elton John, Arctic Monkeys e Queens of the Stone Age) não responderam aos pedidos de entrevista.

Quanto vale o show?
Por investirem pouco e não se arriscarem tanto, as produtoras pequenas também resistiram, na medida do possível, ao ano atípico. Difícil mesmo foi o desafio de empresas de médio porte. Seria até possível fazer uma analogia entre a situação econômica desse setor e a das classes sociais do país: enquanto a elite continuou em alta e as classes “C” e “D” experimentaram crescimento, a “B” ficou estagnada e lutou para sobreviver em meio à crise. Nesse caso, dá para dizer que a “classe média” do mercado de shows internacionais também sofreu.

“Com os custos mais altos, e consequentemente o preço das entradas também, o público comprou menos ingressos. E a carteirinha de estudante falsa rolou solta como nunca”, explica Paola Wescher, sócia da Beltrano Musical, responsável pelo festival Popload, e por shows de artistas de apelo entre o público “indie”, como Spirtualized, Yo La Tengo e Thurston Moore. “Fizemos bastante shows, mas foi um ano difícil financeiramente. O resultado de expectativa do público foi abaixo do que esperávamos.

Já a questão dos cachês inflacionados atrapalha principalmente produtores de menor porte – mesmo aqueles que se limitam a organizar shows de artistas que atraem poucas centenas de pessoas. “Tem nomes que começamos a negociar em 2013 por um certo cachê em dólares, e, da noite para o dia, passaram a custar quatro vezes mais”, diz Bruno Montalvão, da Brain Productions, que co-organizou as turnês de Mac Demarco, Sebadoh e Real Estate no Brasil. “Entendemos que algumas bandas internacionais crescem rápido demais, mas o Brasil ainda não tem um mercado de shows e festivais tão amplo como na Europa e nos Estados Unidos, muito menos a economia estável.”

Paola faz coro: “O preço do cachê é sempre alto. Acontece que bandas que antes eram consideradas pequenas agora são 'hype', e o cachê passa a não ser mais de banda pequena. A inflação fez com que todos os custos na cadeia de produção aumentassem também: transporte, passagens aéreas, locação de equipamentos.$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-citacoes','/2014/shows-1418939633802.vm')

A oportunidade nas dificuldades
De um modo geral, 2014 foi um ano em que o Brasil se preparou para o pior, financeiramente falando. No caso do mercado de shows, as empresas preferiram agir com mais cautela do que de costume. “No final de 2013, estávamos todos muito céticos. Achávamos que o ano seria um desastre para a cultura. Mas no final, o resultado foi bom”, avalia Fabiana Batistela, da Inker Agência Cultural, que co-organizou o Sub Pop Festival e concentrou esforços em projetos já financiados por patrocinadores. “Decidimos não arriscar, não depender de bilheteria. E deu certo.”

Também houve a chance de lançar mão de alternativas criativas para transformar os percalços –no caso, a Copa do Mundo– em oportunidades de negócio. “Fizemos a turnê 'French Touch', com DJs franceses, patrocinada pela Embaixada da França e o Bureau Export”, conta Fabiana. “Então, a Copa nos ajudou. Acabou sendo uma oportunidade para nós.”

Eventos patrocinados também puderam se dar ao luxo de não cobrar ingressos da audiência, como foi o caso do Converse Rubber Tracks, evento de cinco dias elencado por artistas como Chromeo e Dinosaur Jr., bancado por uma marca de calçados. “Deu 'sold out' em questão de minutos, e ficamos impressionados com a mobilização on-line”, conta Guil Salles, do Grupo8ito, que organizou o festival. “O que enxergamos é a vontade imensa do público de conferir artistas legais, mas que muitas vezes perdem a oportunidade por causa do preço cobrado pelas empresas que organizam eventos.”

O que será de 2015?
Para o ano que vem, o senso comum é o de que a situação não evoluirá do ponto de vista de quem busca lucro fácil com a produção de shows internacionais. O otimismo é o sentimento favorito entre os produtores, mas os indicadores do mercado não permitem que se vá muito além do pensamento positivo.

“A economia está cada vez pior, e acho difícil termos sinais de melhora antes de setembro, outubro”, opina Paola Wechser. “Estamos diversificando o trabalho. Faremos mais shows, mas muita coisa vai mudar. Vamos nos preparar para um 2015 de crise, mais difícil que 2014. Tomara que eu esteja equivocada.”

Para empresas menores, a questão dos cachês elevados continuará a merecer atenção. “Como nosso mercado ainda é incipiente, temos que saber negociar com os agentes e managers internacionais, buscando posicioná-los sobre nossa realidade e trabalhando para que os shows fiquem mais viáveis e próximos do que realmente podemos oferecer”, diz Bruno Montalvão. Já para Fabiana Batistela, a esperança de melhora também está atrelada a mudanças políticas. “Estamos na expectativa para saber quem será o próximo ministro da Cultura”, diz. 

“Será um ano igualmente desafiador, e não só para o mercado de shows, mas para o país como um todo”, crê Alexandre Faria, da T4F, citando como empecilhos o momento de desaceleração econômica e a alta do dólar. Portanto, mesmo para quem comemorou sucessos em 2014, o futuro ainda exige cautela. “O Brasil entrou definitivamente na rota das grandes turnês, e temos uma das plateias mais apaixonadas do planeta. Não faltam boas opções para trazer ao país, e isso nos deixa otimistas. Mas precisamos avaliar tudo muito bem, de acordo com a nossa estratégia.”