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Música


Vida psicodélica do roqueiro Serguei pode dar origem a três filmes

Felipe Branco Cruz

De Saquarema (RJ)

08/01/2015 07h00

No último dia 26 de dezembro, uma sexta-feira, o cantor Sérgio Augusto Bustamante, mais conhecido como Serguei, o Divino do Rock, não esperava receber ninguém em sua casa em Saquarema (a 100 km do Rio de Janeiro), onde ele mantém um minimuseu chamado Templo do Rock.

Quando a reportagem do UOL bateu à sua porta, às 9h30, foi atendida pelo músico com cara de sono e trajando apenas uma camiseta dos Rolling Stones e cueca, apesar de a prefeitura local informar que o Templo do Rock funciona das 9h às 17h. “Bicho! Que horas são? Acabei de acordar. Senta aí um pouquinho, que eu vou fazer um café para você”, disse ele, que em seguida foi à cozinha e preparou o café, servido em uma caneca dos Beatles.

Hoje com 81 anos de idade, Serguei é tema de um documentário que está sendo feito pelo diretor e produtor cultural André Kaveira, que também tem planos para realizar um longa-metragem e uma chanchada sobre a vida do roqueiro e, claro, o seu relacionamento com a cantora Janis Joplin.

Fiuk, o cão

No jardim da casa, repleto de bandeiras de bandas de rock, vivem os quatro cães de Serguei, todos vira-latas. Um deles, o Fiuk, de dois anos, é o favorito do cantor. “Batizei em homenagem ao filho do Fábio Jr.”, revela. “O [cão] Fiuk é uma graça, é lindo. É igual ao garoto. Eu pediria licença ao pai dele e lhe daria uma aliança. Como eu não tenho o Fiuk original, eu fico com o meu. Peguei para criar quando tinha quatro meses”, conta.

Embora Serguei tenha lançado oito compactos simples, um LP e dois CDs entre 1966 e 2009, continua sendo lembrado mesmo é pelo romance que manteve com a cantora americana Janis Joplin (1943-1970). Mas essa é apenas uma das muitas histórias que o roqueiro tem para contar, já que é um dos poucos brasileiros ainda vivos que teve contato com lendas como Jimi Hendrix (1942-1970) e Jim Morrison (1943-1971), além de Janis. Ele conta que os conheceu em San Francisco, na Califórnia, durante um período dos anos 1960 em que morou nos Estados Unidos.$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-citacoes','/2015/serguei-1420663332444.vm')

No Templo do Rock, inclusive, o músico ostenta com orgulho fotografias feitas em 1968. Em uma delas, ele aparece conversando com Hendrix. Em outra, está beijando Janis Joplin na boca. Na ocasião, ele tinha 35 anos, e Janis, apenas 25.

Entre os episódios que relata, Serguei relembra quando foi com Janis e um marinheiro holandês namorarem em um canto escondido do Leme, no Rio de Janeiro. E também quando foi redescoberto por Jô Soares, na década de 1980, e chamou atenção ao explicar ao entrevistador que era adepto do “pansexualismo” que, segundo ele, significava ter relações sexuais com qualquer criatura ou objeto.

“Ficçodelia”

"É para preservar histórias como essas que a trilogia cinematográfica está sendo feita", diz o diretor e produtor André Kaveira, 51 anos, amigo do Serguei há mais de 20. Ele agora busca recursos para finalizar o documentário e também tirar do papel seus planos de realizar o filme e a chanchada sobre a vida do roqueiro. 

Para o documentário, que deve ter 80 minutos de duração, Kaveira já registrou as declarações dos músicos Evandro Mesquita, Erasmo Carlos, Alcione, Angela Rô Rô e Silvinho Blau Blau e da produtora Maria Juçá, que atuou na reabertura do Circo Voador nos anos 2000. “O documentário já está 60% pronto. Queremos exibi-lo no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. O trabalho será uma ‘ficçodelia’, ou seja, uma ficção psicodélica”, diz Kaveira.

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“Estamos filmando em 4K [formato de alta resolução], e o filme terá cenas de Serguei no Rock in Rio, além de reconstituições, como, por exemplo, do reencontro do cantor com Janis no Rio de Janeiro.”

Segundo filme da trilogia planejada pelo diretor, o longa-metragem deverá se chamar “Serguei: Uma Vida sem Roteiro” e, ainda de acordo com Kaveira, tem previsão para estrear em 2016. Já a chanchada (comédia de humor ingênuo e popular) deverá trazer no papel principal o ator Carlos Loffler, neto do Oscarito. “Loffler é um cara que canta bem melhor do que eu. Mas eu canto blues melhor do que ele”, afirma Serguei.

Templo do Rock

Serguei garante que sua casa já foi visitada por mais de 20 mil pessoas desde que abriu às portas ao público, na década de 1980. Porém, nas duas horas que a reportagem esteve com ele, nenhum turista apareceu por lá. De qualquer forma, o músico mantém uma boa relação com a vizinhança. Quando um vizinho do outro da rua, por exemplo, cumprimentou o cantor, Serguei gritou de volta: “Rock and roll!”.

Mas se não fosse por um motorhome (que Kaveira trouxe de Austin, no Texas, terra de Janis Joplin) estacionado em frente à casa de Serguei, o local passaria despercebido a um turista desavisado. O veículo, todo pintado em cores psicodélicas, está sendo usado como apoio para as filmagens e abriga uma ilha de edição, uma grua e um camarim.

É o próprio Serguei quem recebe os visitantes de seu museu. Ele faz questão de destacar que o objetivo do Templo do Rock é de fornecer informação e critica quem vai lá apenas para “olhar”. “Eu quero explicar tudo”, diz. Lá dentro, na sala, o cantor mostra livros, fotografias, cartazes e comenta sobre cada banda representada no local.

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No Templo do Rock, ele também mostra o “quarto psicodélico”. Ao entrar no cômodo, Serguei apaga a luz, e surgem nas paredes cartazes brilhantes de Bob Marley, Jim Morrison e Sublime. No final de um corredor, está o quarto do músico, também repleto de cartazes (na cabeceira da cama há uma fotografia imensa de Jim Morrison), e o banheiro, transformado em uma espécie de camarim.

Há ainda um mezanino sobre a sala, onde o cantor mantém peixinhos em um aquário. “Preciso limpar essa água”, diz ele, antes de alimentar os peixes e se deitar em um grande sofá para contar mais histórias do rock e elogiar algumas cantoras que admira. “Angela Maria era um fenômeno vocal”, afirma. “Elizete Cardoso, a Divina, era uma voz maravilhosa”, completa. “Alcione tem aquela voz grave”, finaliza.

Serguei, que espera viver até os cem anos de idade, aparenta estar bem de saúde, apesar de um susto que sofreu há dois anos, quando foi internado para tratar anemia e artrose. “Eu me esquecia de comer”, lembra.

O cantor não reclama da idade, mas da velhice. “A velhice é uma merda”, esbraveja, comentando que há poucos dias caiu da escada e machucou o braço. “Mas já estou melhor”, garante. E lamenta a perda de Joe Cocker (1944-2014). “Morreu novo. Cantava blues como ninguém”, ele diz. 

Antes de encerrar a entrevista, o cantor elogia Eriberto Leão, que interpretou em 2013 o cantor Jim Morrison na peça teatral “Jim”. Na ocasião, Serguei beijou Eriberto na boca em cima do palco, no Rio de Janeiro. “Eu pensei que era o Jim”, lembra. A única coisa de que ele não consegue se lembrar é o número de seu telefone celular. Por isso ele está escrito na parede da casa, bem ao lado da fotografia de Janis Joplin. “Quando me pedem, eu venho aqui, olho para a parede e me lembro”.

Templo do Rock

Endereço: Avenida Vila Mar, s/nº, bairro de Itaúna. Saquarema - RJ.
Telefone: (22) 2651-8134
Horário de Funcionamento: todos os dias das 9h às 17h
Entrada gratuita