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Música

Com funk e maiô, Alice Caymmi se rebela contra padrão de beleza e tradição

Tiago Dias

Do UOL, em São Paulo

29/01/2015 07h00

Alice Caymmi é rebelde porque o mundo quis assim, como dizem os versos de "Sou Rebelde". A canção, gravada em português nos anos 1970 pela cantora Lillian Knapp, com letra traduzida por Paulo Coelho, é uma versão da espanhola "Soy Rebelde" (Manuel Alejandro e Ana Madalegna) e foi escolhida por Alice para integrar o seu segundo álbum, “Rainha dos Raios”, lançado em 2014. O disco, muito elogiado, traz em sua maior parte releituras de músicas consagradas por outros artistas, entre elas o funk "Princesa", de MC Marcinho.

"Eu tenho esse lado meio rebelde sem causa, sabe? É meio birra, uma coisa meio imatura, mas que, em um ambiente artístico, faz sentido", conta ela em entrevista ao UOL. "Por isso eu cantei essa música, que é uma grande besteira, mas que tem a ver com essa coisa adolescente, ridículo e risível, e que ao mesmo tempo me salvou."

Filha de Danilo Caymmi, Alice cresceu estudando a obra do avô Dorival e guardando, no gogó, o timbre grave, semelhante ao da tia Nana Caymmi. Poderia, por assim dizer, seguir os rumos da família. Mas quem disse que não segue? Contrastando com o purismo do cancioneiro do avô, ela é pura impetuosidade ao cantar MC Marcinho, Maysa (“Meu Mundo Caiu") e baladas ("Como Vês", de Domênico Lancelotti e Bruno DiLullo) -- as duas últimas estão na trilha sonora da nova série da Globo, “Felizes para Sempre?”. De cabelo loiro platinado, ela promete chutar mais alguns baldes em 2015 e, desenvolver, em parceria com o produtor e criador da São Paulo Fashion Week, Paulo Borges, uma estética própria.

"A rebeldia, o punk e o rock já fazem isso, não tem nenhuma novidade, mas há o contexto do Brasil. O meu grande desafio é criar uma estética artística forte em um país difícil de interpretar. Um país com história negra e indígena, um país colonizado, sofrido." E explica, aproximando-se ainda mais de Dorival Caymmi: “Ser artista no Brasil é quase ser um antropólogo”.
 



“Rainha dos Raios”
Com a produção do carioca Diogo Strausz, “Rainha dos Raios” deu uma sacudida na MPB, e na própria cantora, com bases inspiradas no eletrônico, no experimental e na nostalgia das baladas dos anos 70 e 80. Insegura com a voz e o estilo, ela lançou o primeiro álbum em 2012, mas lapidou a joia rara na garganta com mais precisão no show "Dorivália", em que revisitava, em clima tropicalista, a obra do avô.

Experimentando clássicos como "O Que é que a Baiana Tem?" e "Oração de Mãe Menininha", Alice deu o primeiro "chute na porta". "Meu avô não tinha isso, essa coisa santificada, sagrada, da música. A criatividade é avessa a esse tipo de pensamento. Isso mina a criatividade da gente. Não me pergunte como, eu virei essa chavinha. Eu quis curtir ele, entendê-lo."

Aos 24 anos, sua força no palco vai além da voz. Performática, Alice busca superar alguns traumas na exposição. Na adolescência, ela conta que se sentia depreciada pela sua aparência. Com alguns quilos a mais (do que se convencionou a ser chamado de “padrão de beleza”), ela experimenta maquiagens e gosta de vestir um maiô justo no palco.

"É meu lado ativista. Cresci sofrendo por conta da minha aparência, em ver diariamente as mulheres se depreciando, se sentindo mal. A exposição é algo ainda sofrido para mim, mas me sinto bem. Se eu tiver que fotografar meus pneuzinhos no Instagram, eu vou. A gente precisa estar mais feliz, porque nossa autoestima está lá embaixo", afirma.

Alice poderia ter facilitado sua entrada na música pegando carona no sucesso da família, mas preferiu caminhar sozinha, aos tropeços. Os parentes, inclusive, procuram se manter distantes e não dar palpites ou dicas. "Eu não posso fazer isso, eles têm a vida deles, e ninguém quer uma menininha mimada sendo arrastada pelo papai, você não acha?"

$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-citacoes','/2015/alice-1422465813167.vm')Ao rejeitar os padrões, conheceu o criador da SPFW, o produtor Paulo Borges, com quem trabalhou no primeiro DVD, a ser lançado em breve. No palco do Teatro Itália, em São Paulo, com apenas três semanas de ensaio, Alice se jogou na gravação do show, que tem cara de instalação artística, e entrou em todas as roupas, armaduras e vestuários inspirados no candomblé, que faziam parte do espetáculo –com colaboração do estilista Walério Araújo. Borges, aliás, também fez a cantora ir para o pole dance para o clipe de “Homem”, versão da música de Caetano Veloso, ainda não lançado. Ele agora trabalha para construir uma nova imagem para a cantora.

Apropriação cultural
Na tarde de quinta-feira passada, quando conversava com o UOL por telefone, enquanto passeava com a mãe Simone em um parque no Rio de Janeiro, Alice disse que estava chateada. Acompanhando as últimas polêmicas sobre apropriação cultural –que chegou ao universo pop americano recentemente, com artistas brancos sendo acusados de apropriação da arte dos negros--, ela escreveu um post no Facebook em que se mostrava preocupada com a possibilidade de essa discussão inibir sua expressão artística. Foi criticada nos comentários.

"Se tem uma coisa que me ofende é ser chamada de racista ou homofóbica. Eu compreendo o que quem vive a discriminação racial no dia a dia sente na pele, compreendo que as culturas são ridicularizadas, são levadas de maneira cafona, estereotipada. Mas esse estereótipo não necessariamente se enquadra na apropriação cultural. Eu canto ‘Iansã’, eu canto sobre orixás, que nem meu avô fazia. Eu não me aproprio de algo que não é meu, até porque eu sei o que faz parte da minha vida", rebate.

É o ônus da visibilidade, reconhece ela, que começa a surgir com mais força após o lançamento do último disco. Mas, para sua natureza extrovertida, isso não é necessariamente um problema. "Eu sempre falei alto, ria alto demais, sempre ocupei muito espaço, até que toda a questão era: será que eu estou sendo inconveniente? Tem pessoas que adoram isso, mas tem gente que diz: 'não dá, ela fala alto. Mais elegância, por favor'."